As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cortinas se fecham

Luiz Henrique Matos

04 de agosto de 2019 | 05h12

Em algum momento nesses últimos anos adquiri uma habilidade que parecia um superpoder inalcançável na infância. Só me dei conta, no entanto, há poucos dias quando sentado à mesa da cozinha depois do almoço, as meninas me pediram para descascar laranjas e notei que o resultado foram laranjas branquinhas, perfeitamente descascadas, sem os buracos e machucados, e com a casca inteira enrolada em espiral.

Tive um flashback da infância naquele minuto. Quando garoto, eu admirava o meu pai por esse tipo de habilidade. Jogar bola como ele jogava eu sentia que poderia conseguir se me empenhasse. Ter um bigode como o dele era
mera consequência do passar dos anos. Mas descascar laranjas daquele jeito, estava além da minha compreensão e habilidade. Nas vezes em que me aventurei em pegar uma faca e uma laranja para descascar, terminei o processo uns 40 minutos depois com mais pedaços de fruta grudados na parte da casca do que no bagaço, que naquela altura já tinha se tornado uma polpa pastosa alaranjada que sobrava nas minhas mãos enquanto o suco escorria pelos antebraços até pingar pelos cotovelos.

Mas aí, chegando aos 40 – anos, não minutos – a vida te premia. Ou compensa. É como se o Criador dissesse “Beleza, meu filho, você ganhou essa dor aí no ciático, mas em contrapartida vai poder descascar laranjas como um ninja”. Dadas as minhas limitadas habilidades para diversas coisas, isso soa como uma troca justa até. E considerando que jogo bola com a mesma capacidade com que danço tango e ainda não aderi ao bigode porque virou coisa de hipster (só por isso), imagino que esse dom inesperado surja como algo a que me apegar e, talvez, uma opção satisfatória de legado para deixar na memória das minhas filhas.

Porque tenho pensado nisso mais do que deveria ultimamente. Aos doze anos, a fase mais lúdica da infância da Nina está quase no fim e me pego por vezes imaginando que tipo de memórias ela vai carregar desses anos quando, lá perto dos 40 – os dela, não os meus – revisitar o passado em um flashback qualquer do cotidiano.

Dias depois daquele almoço, passei na quitanda do bairro e enchi o porta-malas do carro com dúzias de laranjas e agora fico convidando as meninas para comer frutas depois das refeições. Nossa cozinha agora só não tem mais laranjas do que em certos partidos políticos.

Sei que é uma ansiedade tola, mas às vezes – tipo, todo dia – me ocorre a ideia de que se eu não fizer algo decente agora, mesmo que aos 40 minutos do segundo tempo da infância, aos 40 anos a Nina estará sentada na frente de uma terapeuta lamentando os efeitos nocivos da educação que dei para ela.

“Pai”, ela me interpelou outro dia enquanto eu estava parado na sala de casa mexendo em uns papéis, “sabia que… ah, eu descobri que tem uns meninos que até que são legais”. Eu a encarei por alguns segundos tentando ler seu olhar e ver se tinha algo mais que ela pretendia me dizer. Sem conseguir resposta, me ative a responder “Eu duvido. Até hoje não conheci nenhum”. Lá no fundo, ainda que ela não tenha se dado conta, eu sei o que aquilo significa, você também sabe e a gente não precisa tocar no assunto agora, tá ok?

Recentemente, numa viagem em família, soltei no carro um dos meus trocadilhos infames infalíveis e ela, que era a única que ria desse tipo de piada comigo, espalmou a mão na testa fechando os olhos e lamentou “Ah não, pai! Que piada horrível!”. E as coisas foram ficando mais claras em minha mente limitada. E descascar laranjas como um ninja, você vai concordar, parecer ter grande apelo.

Porque essa é a fase em que ela está. A menina que às vezes ainda me pede para lhe contar histórias, agora já julga algumas partes do mundo com seu próprio critério. Porque ainda que esteja, desde sempre, lendo a vida com seus olhos, até pouco tempo ainda dependia do nosso filtro para interpretar as coisas. Éramos nós quem, de certa forma, lhe abríamos as cortinas para as descobertas. Agora a Nina tem fechado essas cortinas e aberto as suas próprias, para ser protagonista da história que deseja contar. Agora ela quer explorar e formar uma visão independente das coisas, agora ela quer ouvir música sozinha às vezes, quer ousar achar minhas piadas ruins. Agora ela junta as amigas só para conversarem, sem que isso implique necessariamente em ter um brinquedo junto. E esse agora dela, essa fase que vai mudar tudo para sempre, ainda que seja exatamente o que precisa acontecer, é rápido demais para mim.

E se ela, sem perceber, tem pressa em crescer, eu, por outro lado, aperto o passo para correr e tentar prolongar meu papel em sua vida por mais algum tempo, o tempo que ela deixar, estando presente, edificando pontes que nos conectem de outras formas, tentando me interessar pelo Harry Potter, pelas músicas pop de batidas repetidas, pelos filmes de fantasia e as roupas coloridas.

Por um período que daqui a pouco acaba, ainda somos, Manu e eu, os caçadores dos monstros que a assombram, somos seus guias, sua companhia preferida de viagem, de conversa e de cinema. Ainda seremos, por um tempo, seus tutores para aprendizados escolares e extracurriculares, a voz da verdade para dúvidas existenciais e os contadores de histórias na hora de dormir. Ainda teremos, por mais uns anos, o colo onde repousam suas frustrações, os donos das beijocas que curam doenças e os ombros que amparam lágrimas.

Ela fecha cortinas, mas sinto que nós não, que estaremos sempre no mesmo lugar, nos bastidores, na plateia, atrás do palco a observando e aplaudindo. Teremos esse lugar, para sempre, de ser quem lhe deseja o melhor da vida. Seremos os que se contentam com um telefonema de dois minutos que ela nos der, os que torcem incondicionalmente pela sua felicidade. Seremos eternamente essa condição, esse papel em que Deus nos colocou um dia, o dia em que ela nasceu, e que passou a ser a nossa condição preferida, adjetivo e substantivo, o sinônimo do que melhor nos define, porque desde então somos pais.

E se isso não é a projeção total da nossa identidade, certamente é nossa parte favorita dela, porque temos isso aqui, esse núcleo em que convivemos, o pequeno universo em que orbitamos um ao redor do outro.

E se isso não for a melhor lembrança que ela carregue para a vida, para a sessões de terapia e nas noites em que sentir falta do ninho, que ao menos ela se lembre de um legado fundamental: somos descascadores ninja de laranjas.