Como voltar?

Luiz Henrique Matos

Atualizamos nossa política de cookies

Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.

“Mas, todo dia tem que ir pra escola?”. Cecília, minha filha de seis anos, reagiu com certa indignação ao acordar pelo terceiro dia consecutivo às seis da manhã para ir ao colégio. “Por que agora tem que ir pra escola todo dia?”, queria saber. Demorei para me dar conta de que quase dois anos de quarentena, diante da sua pequena existência, representa uma fração de tempo muito maior e uma mudança mais aguda em sua memória. Ela não lembrava como era ir para a escola em 2019.

E na semana em que a segunda dose da vacina completa vinte dias ainda dolorida em meu braço esquerdo, recebo com certa angústia os convites para encontros, reuniões e cafés que pipocam com mais frequência nas mensagens e emails. Como voltar? Será que já está na hora? Ou já não era sem tempo? Ou, quem sabe, já que esperamos até aqui, vale esperar mais um pouco até que…

Cercado pela bolha de privilégios que me permitiu atravessar a quarentena trabalhando em casa e me isolando sempre que necessário, sou confrontado com o fato de que a rotina, daqui a pouco, se parecerá mais com o que era antes de março de 2020 do que com esse estado de suspensão no espaço tempo em que temos vivido.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Por esses dias, revestidos de máscaras, álcool e protocolos sanitários, certas coisas tem voltado ao estado anterior. Em casa, meninas indo à escola diariamente, Manú e eu topando uns almoços na casa de amigos e encontros familiares, uma ida ao parque. Mas, ao voltar para casa depois dessas saídas, admito que sinto um rastro de culpa e desconforto. É como se já (ou ainda) não soasse certo, não fosse justo poder fazer isso.

E, talvez, porque também me dei conta de que desejo fazer isso menos do que desejei acreditar que gostaria.

Tem muitas coisas que já não quero de volta. Lugares, deslocamentos, atividades… já estava bastante cansado daquilo e só percebi quando precisei parar. Quem gosta de shopping centers barulhentos, congressos corporativos, conversinhas, filas, trânsito e restaurantes cheios na hora do almoço?

A pandemia criou uma camada de proteção para os introvertidos. Sob argumento de que a quarentena exigia o distanciamento, pessoas pouco afeitas a atividades sociais aleatórias puderam recusar convites para reuniões, eventos profissionais, churrascos e aniversários. Agora, com a ameaça de uma volta à normalidade, estamos nessa cilada, à procura de novas desculpas para recusar convites, ansiosos com a ideia de ser obrigado a responder sobre o clima, a rodada do futebol e participar de conversas randômicas com gente desconhecida porque a etiqueta exige afinal.

O que era temporário, ao longo desses meses virou uma rotina inteira nova, à qual confesso que me apeguei. Almoços em casa com minhas filhas, um café com bolo no final da tarde com minha esposa, a corrida na rua depois do trabalho, todo cuidado um tanto mais atento com as pequenas coisas da casa. Troquei a leitura de mais jornais por mais livros e o noticiário frenético no rádio do carro por podcasts e playlists de música clássica na caixa de som e agradeço pela ausência do ruído do trânsito engarrafado duas vezes ao dia (a imagem mais comum que me vem à mente quando penso em minha rotina pré-pandêmica é a de luzes de freio dos carros acesas num corredor infinito à minha frente). Eu gosto disso. Gosto da ideia de que a fronteira entre o trabalho e o lar se resume a uma soleira que separa meu escritório doméstico do corredor da sala.

Há quem partilhe desse sentimento. E acho, no fim, que o que tem nos tocado é esse uso diferente de algo que sentíamos já não nos pertencer: tempo.

Nas primeiras semanas de quarentena, Nina, minha filha mais velha, ainda vivia os últimos dias de seus 12 anos e começava a se sentir confusa com a ideia, com a bagunça, a confusão e o mundo de cabeça pra baixo que a revolução hormonal da adolescência eminente lhe apresentava. Agora, ela tem 14 e, ainda em ebulição plena, já é convidada para outros tipos de interação, engata em novos tipos de conversas, escuta músicas diferentes e, para ela, essa transformação de vida brutal pela qual todos nós passamos nessa idade, aconteceu dentro de um quarto.

Voltar a quê, afinal?

Como voltar sem que isso pareça uma afronta ao fato de que mais de 600 mil brasileiros morreram até agora na pandemia? Voltar a quê depois de uma tragédia? Sem ignorar que nossas redes de afeto foram massacradas e ceifadas de forma trágica – e muitas vezes criminosa? Como voltar sem desrespeitar os que carregam o luto de suas perdas? Há crianças que, mais do que um retorno à escola, precisam aprender a viver sem a presença dos pais (só no Estado de São Paulo, entre março do ano passado e setembro último foram 3.836 crianças que perderam algum dos pais e pelo menos 64 pais morreram antes de verem o nascimento dos filhos, segundo apuração do jornal Agora com dados da entidade Arpen Brasil). Há cadeiras vazias na mesa de jantar, há um lado na cama que não será mais preenchido, há lembranças de histórias que não precisariam ser interrompidas. Saudades. E a isso ninguém se apega. Não quando tais tragédias poderiam ter sido evitadas.

Como voltar e respeitar a memória daqueles que perdemos?

“No meio da pedra tinha um caminho…”, não é o que diria Drummond. Mas eu fui num museu uma vez e vi um meteorito e fragmentos de asteroides que vieram do espaço e se chocaram contra a Terra e fiquei pensando que interrompemos a viagem daquele objeto. Aquelas pedras, segundo a legenda nas plaquinhas coladas no chão, tinham milhões de anos e algumas viajaram outros milhões de quilômetros, por milhões de tempos (eram muitos zeros sempre e eu sou de Humanas), vindas da órbita de outros planetas até caírem em algum canto desse mundo que habitamos. Pedaços de rocha vagando pela galáxia, talvez um naco de algum planeta que saiu espirrado depois de um choque sei lá quantos séculos atrás. E vagou por esse tempo todo e foi coletada e estudada por algum cientista até virar uma atração no museu onde me coloquei diante daquilo por alguns minutos em um dia gelado do ano de 2009 e fiquei com um pensamento martelando enquanto a ponta do meu dedo tocava a superfície da peça: é longe demais, é tempo demais… somos pequenos demais aqui.

E se pudesse voltar lá e conversar com aquela pedra hoje (assumindo, me acompanhe, que realmente dê para conversar com uma pedra – e compreenda, por favor, que às vezes falamos com gente que parece menos sensível do que uma) e falar para ela que esses meses de pandemia vão mudar a história e que a humanidade realmente pode ser diferente depois que um vírus colocou o mundo de joelhos e que vamos mudar nossos hábitos, nosso ímpeto ganancioso e rever práticas e… Acho que ela daria risada, a pedra. E me diria “você não sabe o que é história, amiguinho”.

O mundo dá voltas. E não dá pra voltar.

Vivemos em um fragmento da existência toda e enxergamos a história pela perspectiva dessa pequenez em que estamos agora, olhando para o céu à procura de respostas.

Eu gosto de olhar para o céu enquanto corro nas ruas. As nuvens parecem tremer. E procuro acima, naquela vastidão, pelos sinais do Eterno em quem deposito minha fé. Eu tropeço tanto. Mas dentro de mim Deus permanece.

E talvez nisso resida a maior angústia do isolamento que enfrentamos. Somos organismos, ramos dessa imensa árvore da existência, membros de um corpo ao qual pertencemos todos. Mesmo que estivéssemos perto de quem amamos nesse período de isolamento, faz falta para nossas crianças, para nossos pais, amigos e para nossa sanidade, o convívio. É preciso aprender a voltar. Porque algo que não mudou durante o pequeno traço de história que tem sido a presença humana no universo, é que escrevemos nas paredes de rochas e cavernas que dependemos uns dos outros – e das comunidades a que pertencemos – para sobreviver e prosperar.

Como voltar? Com respeito ao vizinho, com empatia por quem sofre, diálogo com os diferentes, lavando as mãos, aos poucos vamos reconectando as pontas soltas, refazendo alguns laços, tirando a bicicleta da garagem. Há novos hábitos que aprendemos nesse tempo e nos acompanharão adiante, há o desafio de criar novas rotinas, de novo. E há a surpresa bem-vinda da casualidade nas interações inesperadas.

E tem um troço inexplicável, a experiência redentora do toque, o efeito do abraço de nossos afetos quando nos vemos. Poder abandonar o rídiculo cutucão de cotovelos e receber, de braços abertos, amigos e queridos no morno conforto desse enlace. Sem máscaras. E mesmo para introvertidos e anti-sociais, essa volta significa redenção.

Cecília volta da escola todos os dias na hora do almoço. Abraça a cadela, me abraça, chega com a roupa suja de terra e areia e o cabelo encardido. A máscara ainda no rosto não esconde que tem um sorriso de satisfação estampado naquelas bochechas sardentas e na boquinha banguela. Com frequência, ela abre a lancheira e, além das sobras de pão e frutas, saca uma pedra que recolheu no pátio da escola.

– Pai, olha o que eu trouxe.

– De novo, filha? Desse jeito você vai acabar com as pedras do pátio. Daqui a pouco, a gente vai conseguir levantar uma parede com tanta pedra que você traz pra casa.

– Mas, pai, isso aqui não é só uma pedra! Isso é uma pedra rara, um tesouro. A gente tem que guardar. E tem que segurar com muito cuidado. Quer tocar?

– Claro, entendi. Posso ver?

– Ahãm. Tó.

Olho para a pedra tentando expressar o escrutínio de quem encontra um tesouro. É uma sobra de brita ou uma pedra qualquer usada em obras.

– Pai, de onde você acha que é?

– Não sei, filha. Acho que nunca vi nada igual.

– É.

– Será que é um pedaço de meteoro?

– Ah, pai…

Preciosidades. Não em pedras que caem do céu, mas em fragmentos da nossa pequena existência, nas voltas que a vida dá. Nas mãos estendidas para enxugar lágrimas, nos abraços possíveis que devemos celebrar. No divino que se manifesta quando nos conectamos novamente com o fato de que só vivemos porque também vivemos uns nos outros.

(Siga e curta o “Correndo atrás do vento” também nas redes sociais. Acompanhe no Instagram, no Facebook e no Twitter)

“Mas, todo dia tem que ir pra escola?”. Cecília, minha filha de seis anos, reagiu com certa indignação ao acordar pelo terceiro dia consecutivo às seis da manhã para ir ao colégio. “Por que agora tem que ir pra escola todo dia?”, queria saber. Demorei para me dar conta de que quase dois anos de quarentena, diante da sua pequena existência, representa uma fração de tempo muito maior e uma mudança mais aguda em sua memória. Ela não lembrava como era ir para a escola em 2019.

E na semana em que a segunda dose da vacina completa vinte dias ainda dolorida em meu braço esquerdo, recebo com certa angústia os convites para encontros, reuniões e cafés que pipocam com mais frequência nas mensagens e emails. Como voltar? Será que já está na hora? Ou já não era sem tempo? Ou, quem sabe, já que esperamos até aqui, vale esperar mais um pouco até que…

Cercado pela bolha de privilégios que me permitiu atravessar a quarentena trabalhando em casa e me isolando sempre que necessário, sou confrontado com o fato de que a rotina, daqui a pouco, se parecerá mais com o que era antes de março de 2020 do que com esse estado de suspensão no espaço tempo em que temos vivido.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Por esses dias, revestidos de máscaras, álcool e protocolos sanitários, certas coisas tem voltado ao estado anterior. Em casa, meninas indo à escola diariamente, Manú e eu topando uns almoços na casa de amigos e encontros familiares, uma ida ao parque. Mas, ao voltar para casa depois dessas saídas, admito que sinto um rastro de culpa e desconforto. É como se já (ou ainda) não soasse certo, não fosse justo poder fazer isso.

E, talvez, porque também me dei conta de que desejo fazer isso menos do que desejei acreditar que gostaria.

Tem muitas coisas que já não quero de volta. Lugares, deslocamentos, atividades… já estava bastante cansado daquilo e só percebi quando precisei parar. Quem gosta de shopping centers barulhentos, congressos corporativos, conversinhas, filas, trânsito e restaurantes cheios na hora do almoço?

A pandemia criou uma camada de proteção para os introvertidos. Sob argumento de que a quarentena exigia o distanciamento, pessoas pouco afeitas a atividades sociais aleatórias puderam recusar convites para reuniões, eventos profissionais, churrascos e aniversários. Agora, com a ameaça de uma volta à normalidade, estamos nessa cilada, à procura de novas desculpas para recusar convites, ansiosos com a ideia de ser obrigado a responder sobre o clima, a rodada do futebol e participar de conversas randômicas com gente desconhecida porque a etiqueta exige afinal.

O que era temporário, ao longo desses meses virou uma rotina inteira nova, à qual confesso que me apeguei. Almoços em casa com minhas filhas, um café com bolo no final da tarde com minha esposa, a corrida na rua depois do trabalho, todo cuidado um tanto mais atento com as pequenas coisas da casa. Troquei a leitura de mais jornais por mais livros e o noticiário frenético no rádio do carro por podcasts e playlists de música clássica na caixa de som e agradeço pela ausência do ruído do trânsito engarrafado duas vezes ao dia (a imagem mais comum que me vem à mente quando penso em minha rotina pré-pandêmica é a de luzes de freio dos carros acesas num corredor infinito à minha frente). Eu gosto disso. Gosto da ideia de que a fronteira entre o trabalho e o lar se resume a uma soleira que separa meu escritório doméstico do corredor da sala.

Há quem partilhe desse sentimento. E acho, no fim, que o que tem nos tocado é esse uso diferente de algo que sentíamos já não nos pertencer: tempo.

Nas primeiras semanas de quarentena, Nina, minha filha mais velha, ainda vivia os últimos dias de seus 12 anos e começava a se sentir confusa com a ideia, com a bagunça, a confusão e o mundo de cabeça pra baixo que a revolução hormonal da adolescência eminente lhe apresentava. Agora, ela tem 14 e, ainda em ebulição plena, já é convidada para outros tipos de interação, engata em novos tipos de conversas, escuta músicas diferentes e, para ela, essa transformação de vida brutal pela qual todos nós passamos nessa idade, aconteceu dentro de um quarto.

Voltar a quê, afinal?

Como voltar sem que isso pareça uma afronta ao fato de que mais de 600 mil brasileiros morreram até agora na pandemia? Voltar a quê depois de uma tragédia? Sem ignorar que nossas redes de afeto foram massacradas e ceifadas de forma trágica – e muitas vezes criminosa? Como voltar sem desrespeitar os que carregam o luto de suas perdas? Há crianças que, mais do que um retorno à escola, precisam aprender a viver sem a presença dos pais (só no Estado de São Paulo, entre março do ano passado e setembro último foram 3.836 crianças que perderam algum dos pais e pelo menos 64 pais morreram antes de verem o nascimento dos filhos, segundo apuração do jornal Agora com dados da entidade Arpen Brasil). Há cadeiras vazias na mesa de jantar, há um lado na cama que não será mais preenchido, há lembranças de histórias que não precisariam ser interrompidas. Saudades. E a isso ninguém se apega. Não quando tais tragédias poderiam ter sido evitadas.

Como voltar e respeitar a memória daqueles que perdemos?

“No meio da pedra tinha um caminho…”, não é o que diria Drummond. Mas eu fui num museu uma vez e vi um meteorito e fragmentos de asteroides que vieram do espaço e se chocaram contra a Terra e fiquei pensando que interrompemos a viagem daquele objeto. Aquelas pedras, segundo a legenda nas plaquinhas coladas no chão, tinham milhões de anos e algumas viajaram outros milhões de quilômetros, por milhões de tempos (eram muitos zeros sempre e eu sou de Humanas), vindas da órbita de outros planetas até caírem em algum canto desse mundo que habitamos. Pedaços de rocha vagando pela galáxia, talvez um naco de algum planeta que saiu espirrado depois de um choque sei lá quantos séculos atrás. E vagou por esse tempo todo e foi coletada e estudada por algum cientista até virar uma atração no museu onde me coloquei diante daquilo por alguns minutos em um dia gelado do ano de 2009 e fiquei com um pensamento martelando enquanto a ponta do meu dedo tocava a superfície da peça: é longe demais, é tempo demais… somos pequenos demais aqui.

E se pudesse voltar lá e conversar com aquela pedra hoje (assumindo, me acompanhe, que realmente dê para conversar com uma pedra – e compreenda, por favor, que às vezes falamos com gente que parece menos sensível do que uma) e falar para ela que esses meses de pandemia vão mudar a história e que a humanidade realmente pode ser diferente depois que um vírus colocou o mundo de joelhos e que vamos mudar nossos hábitos, nosso ímpeto ganancioso e rever práticas e… Acho que ela daria risada, a pedra. E me diria “você não sabe o que é história, amiguinho”.

O mundo dá voltas. E não dá pra voltar.

Vivemos em um fragmento da existência toda e enxergamos a história pela perspectiva dessa pequenez em que estamos agora, olhando para o céu à procura de respostas.

Eu gosto de olhar para o céu enquanto corro nas ruas. As nuvens parecem tremer. E procuro acima, naquela vastidão, pelos sinais do Eterno em quem deposito minha fé. Eu tropeço tanto. Mas dentro de mim Deus permanece.

E talvez nisso resida a maior angústia do isolamento que enfrentamos. Somos organismos, ramos dessa imensa árvore da existência, membros de um corpo ao qual pertencemos todos. Mesmo que estivéssemos perto de quem amamos nesse período de isolamento, faz falta para nossas crianças, para nossos pais, amigos e para nossa sanidade, o convívio. É preciso aprender a voltar. Porque algo que não mudou durante o pequeno traço de história que tem sido a presença humana no universo, é que escrevemos nas paredes de rochas e cavernas que dependemos uns dos outros – e das comunidades a que pertencemos – para sobreviver e prosperar.

Como voltar? Com respeito ao vizinho, com empatia por quem sofre, diálogo com os diferentes, lavando as mãos, aos poucos vamos reconectando as pontas soltas, refazendo alguns laços, tirando a bicicleta da garagem. Há novos hábitos que aprendemos nesse tempo e nos acompanharão adiante, há o desafio de criar novas rotinas, de novo. E há a surpresa bem-vinda da casualidade nas interações inesperadas.

E tem um troço inexplicável, a experiência redentora do toque, o efeito do abraço de nossos afetos quando nos vemos. Poder abandonar o rídiculo cutucão de cotovelos e receber, de braços abertos, amigos e queridos no morno conforto desse enlace. Sem máscaras. E mesmo para introvertidos e anti-sociais, essa volta significa redenção.

Cecília volta da escola todos os dias na hora do almoço. Abraça a cadela, me abraça, chega com a roupa suja de terra e areia e o cabelo encardido. A máscara ainda no rosto não esconde que tem um sorriso de satisfação estampado naquelas bochechas sardentas e na boquinha banguela. Com frequência, ela abre a lancheira e, além das sobras de pão e frutas, saca uma pedra que recolheu no pátio da escola.

– Pai, olha o que eu trouxe.

– De novo, filha? Desse jeito você vai acabar com as pedras do pátio. Daqui a pouco, a gente vai conseguir levantar uma parede com tanta pedra que você traz pra casa.

– Mas, pai, isso aqui não é só uma pedra! Isso é uma pedra rara, um tesouro. A gente tem que guardar. E tem que segurar com muito cuidado. Quer tocar?

– Claro, entendi. Posso ver?

– Ahãm. Tó.

Olho para a pedra tentando expressar o escrutínio de quem encontra um tesouro. É uma sobra de brita ou uma pedra qualquer usada em obras.

– Pai, de onde você acha que é?

– Não sei, filha. Acho que nunca vi nada igual.

– É.

– Será que é um pedaço de meteoro?

– Ah, pai…

Preciosidades. Não em pedras que caem do céu, mas em fragmentos da nossa pequena existência, nas voltas que a vida dá. Nas mãos estendidas para enxugar lágrimas, nos abraços possíveis que devemos celebrar. No divino que se manifesta quando nos conectamos novamente com o fato de que só vivemos porque também vivemos uns nos outros.

(Siga e curta o “Correndo atrás do vento” também nas redes sociais. Acompanhe no Instagram, no Facebook e no Twitter)

Encontrou algum erro? Entre em contato