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Como se não houvesse ontem

Luiz Henrique Matos

22 de dezembro de 2020 | 09h24

Estava aqui pensando: e se 2020 não acabar? Vai que, em 31 de dezembro, noite de Réveillon, de repente o ponteiro do relógio vire meia-noite e ainda estejamos em 2020? Um dia 32, ou o primeiro dia de um novo mês ou, pior de tudo, um eterno 31 de dezembro cujo amanhã nunca chega.

Um tempo sem futuro. Tenho pensado sobre isso mais do que minha sanidade deveria permitir. Que sanidade? Afinal, dá para esperar qualquer coisa deste ano. E, tudo bem que, se a gente não ligar a TV ou fizer uma ceia, vai ser uma noite igual a qualquer outra noite de abril, junho ou outubro.

Comentei a respeito com o André, meu colega e ele riu. Mas só para depois confessar que uma outra ideia lhe ocorreu: “A gente poderia resetar esse ano”, ele disse, “tipo, vamos começar 2020 de novo e tentar outra vez? Aí a gente não contaria para os nossos filhos o que aconteceu na primeira tentativa”.

Ele parece mais otimista do que eu. Se no meu pesadelo nossa existência não tem amanhã, na dele só não teria ontem.

Apagar o passado não é ideia nova. Na ficção científica, em dramas com personagens arrependidos ou num cenário hipotético de, sei lá, acontecer uma pandemia (rá! Já pensou? Que absurdo! A humanidade, em pleno século 21, passar por uma pandemia. Isso jamais aconteceria, né?).

Em um ano como este, o que a gente pensa é seguir em frente, virar a página do calendário e criar para si a ideia de que uma virada de noite traz consigo um significado profundo de renovação e o fim repentino dos nossos problemas.

Outro dia – não me pergunte quantos, porque parei de contar os dias em meados de junho – estávamos em nossa bolha-móvel-motorizada-anti-corona passeando pela cidade quando passamos em frente a um restaurante. Havia uma multidão na calçada do lado de fora do estabelecimento. “Ninguém tá de máscara!”, exclamou minha filha de cinco anos num misto de indignação e inveja.

Na sequência daquele estabelecimento, vimos outros tantos nas mesmas condições. E na sequência das semanas, nas excursões exploratórias que fazemos em nosso carro para além dos muros do condomínio em que vivemos, cada dia mais gente nas ruas, nos bares, em lojas. Ignorando as evidências, as recomendações e o fato de que os índices de contágio e mortes por Covid-19 jamais chegaram ao patamar necessário para que esse tipo de flexibilização fosse possível.

“Essa gente festejando nas ruas”, disse minha esposa, “como se não houvesse amanhã”. Eu olhei com cumplicidade e emendei “ou como se não tivéssemos vivido ontem, né?”.

Como se não houvesse ontem.

Pararam os boletins alarmistas com estatísticas diárias no plantão do telejornal. Sumiu o mapa de mortes com estados e cores vermelha, rosa e laranja no topo das capas dos sites de notícias – a verdade é que o número de mortes não pára de subir, mas eles já não significam a mesma coisa para nossos ouvidos. Cansamos. Cansamos dessa tragédia, de empilhar cadáveres, de ouvir que morrem todos os dias no Brasil o equivalente à queda de quatro aviões lotados, que já morreram mais pessoas por Covid nos EUA do que americanos vitimados nos combates da II Guerra Mundial, que o vírus não poupa atletas, crianças e jovens. Cansamos das imagens de valas comuns cheias de corpos, das cenas de hospitais com pessoas entubadas de bruços, das fotografias de caminhões frigoríficos armazenando e transportando mortos. Estamos exaustos de saber que a vacina, mesmo aprovada, ainda deve demorar. Já deu nas ventas essa coisa de usar máscara. Que saco usar máscara! Não queremos ouvir que governo X comprou milhares de ampolas e governo Y garantiu a compra de freezers. Se a vacina é da China, da Alemanha, do Paraguai ou da Papua Nova Guiné. E quantos porcento dizem que vão tomar versus os quantos vírgula tantos porcento que teimam que não vão. A gente cansou, já faz tempo, de tudo isso. Os sobreviventes, os que até agora não foram infectados ou que ficaram doentes e se curaram, esses todos cansaram. Quem tem razão, cansou. E quem nunca ligou à mínima para os fatos, também.

“Survive is the new success”, disse o Seinfeld numa entrevista que escutei outro dia. Em um momento como esse, estar vivo parece mesmo uma grande conquista.

Mas, sobreviver, ainda que reserve a alguns o direito à alienação, não dá a ninguém o direito de minimizar as proporções da tragédia, de minimizar a memória dos que partiram, de desdenhar do sofrimento dos que perderam entes queridos, dos que sofrem confinados e dos que ainda sofrerão as consequências dessa pandemia, seja pelo efeito psicológico, seja pela crise em seus empregos e negócios. Não podemos voltar à rotina como se o amanhã não estivesse à nossa espera. E não podemos, tampouco, agir como se não tivesse havido ontem. Não é possível que a gente não vá aprender nada.

Já li em algum lugar que crises não provam caráter. Elas o revelam.

Estou certo de que no futuro, em algum momento, minhas filhas irão se referir a este ano como história, um ponto no passado. Só não sei ainda que julgamento a história reservará para mencionar a forma como teremos passado por isso. Ainda não acabou. Mas, se 2020 se tornar o epicentro de uma transformação importante na forma como consumidos, como habitamos, como tratamos uns aos outros, poluímos e exploramos o ambiente ao redor, talvez, ainda que dolorosa, a tragédia não terá sido em vão e isso nos ajudará a evoluir.

Faço assim uma prece. Com a esperança de que o amanhã será melhor para nossos filhos e que os próximos anos que virão, como a virada de noite que surge logo ali na esquina, serão o começo de um novo tipo de humanidade.

Por via das dúvidas, faço também uma crônica para nossos filhos, assim de reserva, programada para o dia 1 de janeiro sob título “Reset: bem-vindo a 2020!”.

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