Cenas urbanas – No táxi
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Cenas urbanas – No táxi

Luiz Henrique Matos

23 Agosto 2018 | 23h22

#1

– De onde você é? – perguntou o motorista quando entrei no táxi.
– Sou do Brasil. E você?
I’m from India. Mas já vivo aqui em Nova York há mais de 10 anos.

Passava das onze da noite, eu voltava de um jantar para o hotel e, depois de um dia inteiro trabalhando, só queria um banho quente e uma cama. Mas, nunca resisto à tentação de dar corda em conversas com pessoas de lugares diferentes de onde vivo.

– Você conhece o Brasil? – emendei.

E para minha surpresa, ele respondeu que sim.

– Sim, conheço. Já fui muito ao Brasil.
– Rapaz, sério? – okay, eu não disse exatamente “rapaz” em inglês – que cidade você conheceu?
– Ah, algumas. Eu trabalhava em uma empresa de engenharia aeroespacial. Ainda sou da área. Trabalho como motorista para complementar minha renda. Conheço São Paulo, Rio de Janeiro, já fui à Bahia…
– Que interessante. E o que você mais gostou de lá?
Oh man, eu adoro o Brasil. Na verdade, acho seu país muito parecido com o meu. As pessoas são calorosas e a comida tem um tempero parecido também.

Eu ia discordar, mas como nunca estive na Índia, fiquei quieto. E ele, cada vez mais empolgado, continuou:

– Mas o que eu mais gostava no Brasil era uma bebida a base de cana. Eu bebia um copo de meio litro todos os dias.

“Cachaceiro”, pensei, “desse jeito não é difícil confundir pastelzinho com samosa”. Mas resolvi conferir:

– Meio litro de cachaça? Really?
– Não! Cachaça, não. Era outra bebida. Queria muito lembrar o nome. Eles fazem na rua, com um motor. Pegam a cana inteira e moem ali mesmo na sua frente. E aí sai um suco que misturam com limão, com abacaxi, côco.
– Garapa?
– Isso! Isso! Garapa! Oh my God, I love garapa!

* * *

#2

No dia seguinte, tomei outro táxi no fim da tarde. Caía uma chuva forte na cidade e a bateria do meu celular já estava abaixo dos 15%, o que me obrigava a poupar energia para usar o aparelho mais tarde. Sem ter como passar tempo, dessa vez fui eu que puxei assunto com o motorista:

– Você é nascido aqui mesmo?
– Ah não – devolveu – eu sou dominicano.
– Que legal. E sente muita falta do seu país?
Yeah man, muita falta. Estou aqui há muitos anos, mas a América é só para trabalhar e ganhar dinheiro. Um dia eu ainda volto para casa com minha família. Minha filha é americana, nasceu aqui, mas ela também quer viver lá.
– Eu te entendo.
– E você, de onde é?
– Sou do Brasil. Só estou aqui por uns dias a trabalho.
Oh man, I love Brazil!

Eu ri. Lembrei do indiano que bebia garapa da noite anterior, quase perguntei se o sentimento dele também tinha algo a ver com cana, mas desencanei.

– Já esteve lá?
– Não, nunca estive. Mas minha mulher e eu… nós gostamos de assistir aqui na tv um programa, esqueci como vocês chamam, aqui eles dizem soap operas, mas…
– Novela?
– Isso! We love Brazilian novelas!
– Não diga.
– Assistimos todas as noites. Me gusta mucho.

Fiquei em silêncio tentando lembrar qual foi a última novela que assisti na vida. Um mundo sem fronteiras é realmente algo maravilhoso. Que tempo interessante vivemos. Olhei para o sujeito, um moreno rechonchudo, seus cinquenta e poucos anos e um bigode preto milimetricamente aparado. Ele deu um murrinho no volante e sorriu pensando no que havia me dito.

– Tem uma artista brasileira que vejo sempre na tv e de quem gosto muito. Ela é muito talentosa, é muito muito famosa e, hum, ela é bem bonita também. Muy guapa.
– Ah é? Quem seria? É que eu vejo pouca novela e…
– Eu vou lembrar o nome. Gosto muito dela.

Eu tinha em mente as referências de atrizes do final dos anos 90 ou começo de 2000. Tentava pensar em algum nome para sugerir a ele e não parecer tão por fora, mas foi ele mesmo quem deu sequência na conversa.

– Lembrei.

Fiquei curioso.

– Como ela chama?
– Ela se chama… Mujer… hum, ah sim, Mujer Melância.
– Ah, okay.