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Caixa de bonecas

Luiz Henrique Matos

20 de novembro de 2020 | 23h41

Certo dia, ainda no primeiro ano de casados, a jovem esposa chegou do trabalho e notou três ou quatro sacos grandes de lixo cheios encostados na parede do pequeno corredor de entrada do apartamento.

“Oi. Tudo bem? Hum, o que é isso?”, ela perguntou enquanto se espremia na parede para desviar dos sacos. “Oi. Foi tudo bem no trabalho? Ah, isso? Eu separei umas roupas velhas para doar”, o marido respondeu enquanto diminuía o volume da tv. “Que legal!”, ela disse com um sorriso motivador. “Nossa, eu tô morta hoje. Vou tomar um banho e já volto”.

No trajeto de dois ou três passos que separava o corredor do quarto, ela voltou com o rosto intrigado e começou a abrir um dos sacos.

“Henrique?”

Danou-se. Pensei antes de responder: “Hum… Oi!”. Ela tirou uma calça verde do saco e, sem olhar na minha direção, perguntou: “Por que tem roupas minhas nesses sacos?”. Danou-se mesmo. Tentei me defender: “Ah, amor… são coisas velhas. Eu olhei no armário e o que tá aí você já não usa há mais de seis meses. Tem roupa que eu te dei no começo do nosso namoro. Nem estão na moda.”

Naquela noite, aprendi uma dura e definitiva lição sobre o prazo de validade das roupas. Naquela noite, minha esposa recém-casada passou a desconfiar que seu marido tinha TOC. Quase vinte anos depois, ela descobriu que eu tenho mesmo. Quer dizer, ela já sabia faz tempo. Quem descobriu fui eu.

E nada coloca mais à prova minha mania de organização do que as três doces mulheres com quem divido o teto do recém mobiliado apartamento para o qual nos mudamos há poucos meses.

Não é de propósito, juro com os pés juntos e simetricamente alinhados. Sou um compulsivo contrariado. Outras pessoas que conheço com manias semelhantes, usufruem raro prazer ao ver um armário clamando por ordem, simetria e processo. Eu sofro. Não quero arrumar, eu preciso. Quando me dou conta, já estou entretido dando um jeito de arrumar livros, armários, estantes e prateleiras pela casa. Mas eu reclamo, o que só piora as coisas para elas. No fundo, adoraria ser um bagunceiro, um desordeiro, relapso. Esse tipo de gente rebelde que não dobra as roupas antes de colocar no cesto de roupa suja, esses anarquistas que não compram várias roupas da mesma cor para poder facilitar a organização da gaveta ou esses desleixados que não ordenam os ícones dos aplicativos de seus celulares por ordem alfabética.

Manu já é vacinada contra mim desde aquele fatídico dia (e ela faz questão de me lembrar o caso com boa frequência como medida preventiva). E Nina, nossa filha mais velha, agora que é adolescente, já não tolera minhas intervenções em seu quarto – até porque ela chama aquele protótipo de cenário de reality show de processo criativo para fazer suas lições e artes. Só me resta a Cecília, que aos cinco anos não reage negativamente às investidas sistemáticas que faço em seu guarda-roupas e caixas de brinquedos. Ainda. Por outro lado, é justamente ela, Cecília, o nome da pequena tempestade que atravessa nosso doce lar todas as tardes, fazendo com que brinquedos e roupas e papéis e acessórios e lápis de cor e livros e cabos e fragmentos de comida se espalhem por todos os cômodos e cantos. Outro dia, no café da manhã, eu comi um pedaço de ração canina achando que era uma rosquinha de côco quebrada.

Eu pouco invisto no guarda-roupas. Concentro meus métodos nas caixas de brinquedos. Não basta dizer que aos cinco anos ela já acumulou mais brinquedos do que eu venho ganhando nos meus 39, é importante ressaltar que precisamos procurar um padrão taxonômico. São quatro caixas no total. A maior é dedicada a bonecas e acessórios, a outra para coisas de cozinha, a terceira armazena centenas de peças de Lego e na quarta ficam os jogos e aleatoriedades (coisas inclassificáveis, como um pote vazio de sorvete, uma gaita, massinhas e um carrinho). É claro que depois de algum tempo com tudo organizado – tipo, 30 ou 40 minutos – os brinquedos já estão fora das caixas e espalhados pela casa.

Na semana passada, entre uma reunião virtual e outra no meio da manhã e depois de me irritar com as notícias do dia, peguei um café na cozinha e, enquanto caminhava pela casa, passei em frente a porta do quarto dela e a ouvi brincando sozinha. Ela simulava uma conversa entre os personagens, com duas ou três vozes diferentes. “Oi, professora! Ah, sim, querida. Toma aqui, bebê. Ah, que cachorrinho mais lindo!”.

A boneca estava conversando com uma peça de Lego, enquanto uma folha de papel amassada era lentamente cozida no fogãozinho. Um bloco de massinhas fazia vez de príncipe e um copo d’água exercia um papel qualquer na cena. Havia bolinhas de algodão fazendo as vezes de espuma e um pote de xampu tinha sido derramado em uma panelinha.

Passei os olhos pelas caixas e as conexões que fazia entre cada objeto e seu suposto repositório, certo de que aquilo estava errado e precisava ser corrigido e… bem… fiquei ali observando e me dando conta, finalmente, de que na cabeça da minha filha objetos não são o que suas etiquetas determinam. Qualquer coisa é brinquedo e qualquer brinquedo é o objeto que ela quiser que seja. Sua imaginação infantil não determina a ordem regular que meu olhar impõe ao classificar e remeter cada item em sua devida caixa.

Lego não precisa encaixar com Lego… ela mistura peça de jogo de tabuleiro com boneca, uma pedra trazida do gramado com massinha e um pouco de macarrão crú. Então, uma casa, uma sala de aula, um planeta exótico e um universo todo se constroem na mente dela. Porque ela pensa de outro jeito, diferente dos padrões aos quais nos condicionamos e a “ordem natural das coisas” não é a ordem exata que eu calculei. E só então paro para reconhecer, contrariado, que as coisas não estão erradas só porque não estão do meu jeito.

Sentei ao lado da minha filha e ganhei alguns minutos mergulhando em sua fantasia enquanto brincávamos juntos.

Eu quero organizar o mundo. Para além deste microcosmo doméstico que prefiro acreditar que administro, também alimento a certeza de que outras coisas também seriam melhores se fossem feitas à minha maneira. Ou, ao menos quero acreditar que existe um jeito desse caos político-social-educacional-moral-sanitário-espiritual-ambiental serem geridos com alguma decência e ordem. Deus certamente não tem TOC — e eu apelo bastante para ele. Mas, tão pouco qualquer uma das figuras públicas eleitas para nos servir – alguns ainda se dizem seus porta-vozes ou escolhidos – e que deveriam colocar ordem nessa bagunça, parecem minimamente preparadas para colocar as coisas nas caixas que em deveriam estar.

O agravante é que, na maior parte do tempo, nós somos as coisas, os brinquedos com o quais eles se divertem.

Marionetes. É o título de uma crônica escrita por Rubem Braga que me veio à mente enquanto brincava com Cecília naquela manhã. Lá em 1948, ele escreveu:

O menino ganhou uma grande caixa vermelha vinda de Praga. Dentro há um teatrinho de marionetes” (…) O menino, então, leva horas, sozinho, a mexer com os bonecos. Puxa-lhes os cordéis, faz com que briguem, se abracem, ou desmaiem. Depois chegam outros meninos e começa a representação. Não escreveu, nem sequer imaginou nenhuma peça. Vai inventando. E assim, ao acaso, lança os personagens no palco, pegando às vezes o que está mais perto, seja capeta, mulher ou guerreiro antigo. Inventa falas, improvisa enredos, cria situações terríveis que resolve muito naturalmente com sua prepotência de pequeno deus. Quando está cansado de um personagem, seja a Morte ou seja o Rei, faz com que outro lhe aplique uma surra e o expulse de cena – ou simplesmente o lança fora, sem explicar por que veio, nem por que se foi. Como tem uma vitrolinha francesa, faz com que tudo isso aconteça ao som de ‘Au clair de la lune’ ou Sur le pont d’Avignon’. E haja o que houver tudo acaba sempre muito bem como bonecos dançando e o dragão a abanar alegremente o rabo.

As crianças fazem demasiado barulho. Fecho a porta do escritório, volto a ler meus jornais. Pacientemente percorro os telegramas das agências, o noticiário da Câmara, as audiências do senhor presidente da República, noticiário de institutos, editoriais sobre a situação de Berlim, sobre o preço do café… E tudo isso é também absurdo; há enredos estranhos, personagens que entram e saem ninguém sabe por que, ministros, bailarinas, moleques…

Tenho vontade de ir lá dentro chamar o menino, entregar-lhe o Brasil e o Mundo, pedir-lhe para organizar, com todos esses bonecos terríveis e gaiatos, uma história mais coerente e mais divertida.

Se há um jeito para as coisas se ajustarem, não está na forma como têm sido feitas por nós. Cecília – e nossas crianças – talvez tenha a resposta, tenha um caminho, com seu olhar infantil que não enxerga caixas, fronteiras, preconceitos, que não limita coisas aos seus rótulos e personagens às suas funções. E nossa luta deveria ser para que jamais perdessem essa perspectiva e para que pudessem crescer preservando seu direito inegociável de reinventar e narrar suas histórias.

Não creio que elas seriam capazes de salvar o mundo agora, mas certamente ele seria um lugar mais divertido. E bagunça por bagunça, eu ainda prefiro brincar de marionetes do que continuar sendo uma.

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