Bola dividida
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Bola dividida

Luiz Henrique Matos

23 Junho 2018 | 00h30

Alimento pelo futebol o mesmo tipo de amor platônico que tenho pela música. Aquela admiração distante de quem um dia vislumbrou um relacionamento íntimo mas precisou se conformar com a contemplação como forma de contato com o alvo de seu afeto.

Sempre fui ruim de bola. Quer dizer, eu seria feliz se fosse apenas ruim de bola. Talvez seja boa ilustração mencionar que o ápice de minha carreira futebolística foi quando me tornei o zagueiro titular da categoria Dente-de-Leite do time do meu bairro, aos dez anos de idade, época em que ainda alimentava o inocente sonho de um dia me tornar jogador profissional enquanto suava sob o olhar rígido do Moleza, um morador do bairro que nos finais de tarde se propunha a desempenhar o papel de técnico da criançada. A equipe tinha um nome oficial e dois jogos de camisas, mas era mais conhecida como o Time da Rua de Baixo (ainda que muitos garotos de outras ruas que não eram a “de cima” também treinassem ali).

Agora, me diga você: no duro, que menino sonha em ser zagueiro? Em uma década que tínhamos Careca e Romário brilhando em campo com gols memoráveis já era de se compreender que ambicionar o posto do Ronaldão ou do Aldair era um sinal evidente de admissão de fracasso e um certo conformismo disfarçado atrás do sonho. Sinal que só eu não enxergava. Eu e o Moleza, que na ausência de mais voluntários para a posição, me escalava também na categoria Fraldinha (todos os outros garotos, das ruas de cima, ao lado e mais abaixo, queriam ser centroavantes).

Cresci e tornei-me um adulto conformado com o fato de que não teria, na vida, um próspero relacionamento com os gramados. O que não quer dizer que tenha abandonado a torcida eufórica, os jogos do meu time e o prazer contemplativo, quase invejoso quando observo que alguém é capaz de desempenhar o que não fui.

Nick Hornby escreveu no livro Febre de Bola a definição dessa relação platônica do torcedor com seu time:

“Se tem uma coisa de que tenho certeza sobre ser torcedor, é a seguinte: não se trata de um prazer de segunda mão, apesar das aparências, e aqueles que dizem que preferem fazer do que ver não entendem nada. O futebol é um contexto no qual ver se torna fazer — não no sentido aeróbico, porque é bem improvável que ver um jogo fumando que nem um condenado o tempo todo, depois sair pra beber e ainda ir pra casa comendo umas batatinhas fritas possa transformar alguém na Jane Fonda, algo que correr pra cima e pra baixo num campo de futebol é capaz, supostamente, de fazer. Mas, quando acontece um triunfo de algum tipo, o prazer proporcionado não irradia dos jogadores até chegar a nós, no fundão da arquibancada, já como um eco diminuído da sensação original; nossa fruição não é uma versão aguada da que têm os jogadores, embora eles é que marquem os gols e subam os degraus de Wembley pra encontrar a princesa Diana. O júbilo que sentimos em ocasiões assim não é uma celebração da boa fortuna dos outros, mas da nossa; e, quando há uma derrota terrível, o sofrimento que nos envolve é, na verdade, autopiedade, e qualquer pessoa que queira entender como o futebol é consumido deve entender isso, acima de tudo. Os jogadores são meramente nossos representantes, escolhidos pelo técnico em vez de eleitos por nós, mas ainda assim estão lá nos representando (…)”.

A cada quatro anos, durante a Copa do Mundo, volto a ser menino. O moleque plantado na beira do campinho de terra, a bola esfolada sob o braço, esperando para jogar e levar o Time da Rua de Baixo a mais uma vitória gloriosa (sim, como zagueiro e, não, não era comum vencermos).

Há quem não compreenda, mas a cada Mundial retorno para 1986, ano em que descobri a euforia e o desolamento que o futebol pode provocar. A família reunida na sala, os churrascos pré-jogos, a festa nas ruas, as calçadas pintadas, as camisetas amarelas dominando qualquer cenário na cidade. Nada era tão legal quanto aquilo, nada tão emocionante quanto aqueles caras correndo com as bolas nos pés e nossas cores no peito e pela primeira vez algo que não fosse um desenho animado atraía meus olhos para a televisão. E ali, na esteira das Diretas Já, na ressaca da Ditadura, sou grato por ter aprendido de um jeito ainda inocente o significado de ostentar a bandeira do nosso país.

Moro em uma casa com três mulheres e uma cadela agora. Como único exemplar do gênero masculino no ambiente, aprendi logo a arte da subserviência. Assim, acredito, não sofro. Isso se aplica ao tempo médio de espera para sair de casa, à quantidade de pares de sapatos que temos em todos os cômodos, ao tipo de sobremesa e também à briga quanto ao que assistir na televisão. Briga essa que, vamos corrigir, já não existe desde que abri mão do controle do controle remoto em favor da paz reinante.

A Copa, no entanto, é outra coisa.

“Bem, amigas!”, eu diria, o período do mundial são os 30 dias a cada quatro anos (precisamente 2,05% do tempo) em que tenho total domínio sobre o controle-remoto da televisão e assisto a tantos jogos quanto posso e também às mesas-redondas, treinos, reportagens com melhores momentos, documentários e o que mais meu tempo e disposição permitirem.

Especialmente neste momento do país em que vivemos, eu diria, a Copa do Mundo é também o exercício pleno do meu direito à alienação. Deixo de lado o debate, o engajamento, a leitura do noticiário e concentro minha atenção em um assunto. E se o país todo se converteu em um eterno Fla x Flu ideológico, eu prefiro ficar com a versão literal da disputa e me esbanjar num Dinamarca x Austrália. Prefiro pensar que direita e esquerda são lados do campo que o time precisa explorar melhor, que juízes são só os caras com apitos na boca, que regime é algo que o Ronaldo deveria ter levado mais a sério em 2006 e que supremo mesmo seria trazer o hexa pra casa.

Na última semana, li um estudo acadêmico conduzido por um grupo de economistas (divulgado originalmente pela Bloomberg e citado pelo jornal Nexo) dando conta de que o sucesso de um país na Copa do Mundo pode contribuir para a redução da polarização política. Esportes populares, quando representados por uma seleção nacional bem sucedida, podem reduzir índices de violência, além combater os efeitos de diferenças políticas, étnicas, raciais e até religiosas. O grupo de estudiosos aproveitou para sugerir caminhos e lições que poderiam ampliar o senso de unidade de um povo e reduzir suas divisões. “Experiências compartilhadas”, diz o documento, “podem funcionar como uma ferramenta para a construção de uma identidade nacional”.

Pois é, lá no fundo você já sabia disso. Uma plena recuperação do Neymar pode me aproximar do meu cunhado. E a gente se sente até mais patriota (e menos alienado, no meu caso) e até assumimos um certo ufanismo pensando que a boa performance do nosso trio de ataque, além da alegria de mais um caneco dourado, poderia ajudar a minimizar a chatice que nossos círculos sociais se tornaram de uns anos para cá.

Isso me remete a uma outra história que li anos atrás e me rodeia sempre que testemunho conflitos de qualquer espécie. Era 1914, começo da Primeira Guerra Mundial e ingleses e alemães estavam em combate na fronteira da Bélgica com a França. Os adversários passaram uma fria e úmida noite de Natal em combate até que, na manhã do dia 25, diz uma reportagem do jornal The Times, a convite de um soldado alemão, um inglês deixou sua arma para trás e estabeleceu uma trégua com o inimigo. Já perto da hora do almoço, as tropas dos dois lados confraternizavam juntas. Comeram, conversaram e beberam vinho até que um inglês teve a ideia de organizarem um jogo de futebol ali mesmo no campo em que estavam. Todos aceitaram, a partida terminou em 3 x 2 para a Inglaterra e, ao final do dia, ingleses e alemães retornaram para seus acampamentos com o acordo de que nenhum tiro seria disparado antes da meia-noite. No dia seguinte, retomaram a guerra.

Eu não quero com tudo isso justificar de um jeito bacana e embasar minha obsessão futebolística durante este mês (mas até pode ser útil caso meu chefe esteja lendo essa crônica), só penso aqui que pode ser uma pequena luz imaginar que a macarronada compartilhada com o primo no pré-jogo do Brasil pode diminuir de algum jeito as diferenças políticas que foram alimentadas e que duas bandeiras nacionais penduradas nas janelas podem ajudar a reconciliar um par de vizinhos que se afastaram depois de um panelaço em 2017.

Utopia, talvez você me diga. Tem razão. Alienação, pode ser que brote no pensamento de alguém. Sim, tudo verdade. Porque, nesse lapso da minha história que é a Copa, permito-me sonhar com um improvável hexacampeonato mundial quatro anos depois daquele desastroso 7 x 1 para a Alemanha cá em Belo Horizonte e acreditar em economistas dizendo que uma porção de gols feitos por garotos uniformizados e cabelos pintados serão capazes de reconciliar relacionamentos rompidos e diminuir conflitos raciais.

Esse é o tempo em que me permito tais coisas. Sou, hoje, o menino à beira do campinho, a bola sob o braço e uma pequena chama de esperança acesa no peito. Ninguém me contou ainda que eu não nasci com talento para esse outro jogo. Mas, mesmo que, vá lá, a Seleção me decepcione e uma amarga derrota nos aguarde em alguma esquina de Moscou, já terá valido a pena testemunhar algumas horas de trégua nessa guerra.