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Ato patriótico

Luiz Henrique Matos

11 Outubro 2018 | 17h33

Aprendi a dobrar a bandeira Nacional quando era escriturário em um banco.

Uma das minhas tarefas de rotina era recolher a bandeira do mastro no final do dia. Para tanto, havia um protocolo a ser seguido. Pelo menos, foi o que Leonildo, meu chefe na época, me disse solene da primeira vez.

Na forma de retirar o mastro, de recolher a bandeira, chamar alguém para ajudar a segurar as pontas, jamais deixar cair ou raspar no chão (eu achava que um raio cairia do céu na minha cabeça ou um esquadrão da Rota apareceria atrás de mim se eu derrubasse aquilo) e dobrar, que era um ritual à parte. Primeiro, uma dobra longitudinal em toda a bandeira e depois, formar um triângulo com uma das pontas e ir juntando até ela ficar num formato triangular compacto. Sem sobras, rebarbas, sem amarrotar. Ao final, levar a bandeira repousando sobre as duas mãos, como se fosse uma bandeja – nunca embaixo da axila ou com uma mão só – e guardar no lugar apropriado.

Até hoje, não sei dizer se existe mesmo um jeito oficial de dobrar a bandeira e se é assim mesmo o jeito. Nunca joguei isso no Google para conferir se aprendi, de fato, algum gesto cívico ou fui vítima de trote. Tenho medo da resposta em qualquer dos casos – ainda que ache bonita nossa bandeira e tenha uma guardada em casa e devidamente dobrada, tal qual o protocolo, para ocasiões de Copa do Mundo. Mas sei que foi assim que o Leonildo me ensinou e assim me supervisionava diariamente.

Era preciso um certo espírito de reverência para recolher aquele pedaço de pano que ficava o dia todo pendurado ao relento em uma avenida comercial na periferia da cidade, sujeito à fumaça dos veículos, chuva e vandalismos e depois dormia em berço esplêndido no armário da nossa repartição.

– É patriotismo, menino. Tem uma lei, um protocolo para seguir.

Ele adorava a palavra protocolo.

Aos 17 anos, eu achava aquilo bastante importante.

Todo fim de tarde, era a mesma coisa. Batia o horário (às cinco, acho), ele gritava do outro lado do andar:

– Luiz! Luiz! A bandeira, menino!

Sereno ou sol, frio ou calor, primavera e outono, eu parava imediatamente o que estava fazendo e, todo patriota, me apressava para recolher aquele pano enorme e flanelado. Para minha sorte, quase sempre tinha uma boa alma para me ajudar a dobrar e evitar que um raio, a Rota ou o chefe do Leonildo viessem revogar minha cidadania.

Acontece que a bandeira ficava hasteada na fachada do prédio, na altura do segundo andar e, para recolher, era preciso colocar meio corpo para fora da janela e puxar o mastro da base em que estava. Fazia um barulho, chamava atenção e atrapalhava quem estava em volta. E verdade seja dita: à exceção do meu chefe e eu, ninguém mais ligava para aquele ritual.

Certo dia, deu o horário, chovia torrencialmente lá fora e uma parte do pessoal que costumava me ajudar havia ido embora. Eu já tinha adquirido senso de responsabilidade e civismo suficiente para saber das minhas obrigações e corri até a janela para recolher a bandeira. Ao abrir, a ventania fez voar folhas de papel por todo o departamento, forçou a janela a ficar escancarada, começou a chover por todos os lados e alagar o piso. O pouco de gente que ainda estava por ali reclamava, enquanto eu heroicamente tentava salvar a pátria e me molhava inteiro com o corpo para fora da janela.

De repente, aparece o Leonildo.

– Luiz! – acho que ele pensava que meu nome tinha uma exclamação no final – O que você está fazendo?! Está molhando tudo, rapaz!

Enfiei a cabeça para dentro, já em sopa e respondi:

– Tô recolhendo a bandeira, Leonildo. São cinco da tarde já.

Ele chegou mais perto e ordenou:

– Fecha a janela.

– Oi?

– Fecha a janela!

– Mas e a bandeira?

– Ah – ele deu de ombros – deixa essa droga pra lá.