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Abra seu spam

Luiz Henrique Matos

28 de agosto de 2020 | 17h12

“O que o mundo precisa, é de mais amor”, diria Cabo Daciolo.

Recebi, hoje, uma mensagem de spam que era uma nota de falecimento. Em geral, implacável com mensagens indesejadas, nesse caso não fui capaz de enviar para o lixo um email que trazia no título a notícia “NOTA DE FALECIMENTO”, em letras garrafais. Abri. E um certo sindicato do qual nunca ouvi falar comunicava, com profundo pesar, que Dona Fulana, esposa do aposentado Ilmo Sr. Fulano e mãe do caríssimo Sr. Fulano Filho, falecera no último dia 28.

E com essas duas frases breves acabava a nota. Praticamente um telegrama eletrônico. No rodapé da mensagem, constava o endereço do sindicato, localizado em algum bairro na cidade do Rio de Janeiro, e os links das redes sociais com o convite “Curta nossas mídias sociais e fique por dentro!”, convidavam festivamente. Resisti à tentação de ficar por dentro do que acontece no dia-a-dia daquele sindicato, mas só porque me distraí pensando em Dona Fulana.

Morreu como, a pobre? Com que idade? Foi durante o dia em algum hospital da cidade ou à noite, em casa com o marido? Estava acompanhada? Fiquei com os pensamentos presos ao filho que ela deixou, talvez alguns netos que o email tenha negligenciado e especialmente no marido aposentado, o Ilmo, agora sem sua senhora para dividir os longos dias da quarentena, as partidas de tranca, as sonecas depois do almoço. Ele também no grupo de risco, isolado durante a pandemia.

Era um nome, em um email que recebi, que chegou por engano. Mas aquele já não era um nome pelo qual alguém poderia chamar em voz alta hoje, ela era lembrança. Lembrança que não tive, rosto que nunca vi. Mas agora era dor, era saudade, memória para os dois homens que já não tinham entre si aquela mulher a quem pertenceram. Em mim, não doeu, evidentemente. Mas a reflexão da perda alheia, do sofrimento alheio, da saudade de alguém por outrem, me fez parar por uns instantes e desejar que fossem consolados por Deus de alguma forma.

“Quando os números viram nomes, as pessoas se conscientizam”, disse um amigo na última sexta-feira referindo-se às centenas de mortes diárias que somamos mais como relatório contábil do que obituário. Dona Fulana é um nome. As circunstâncias em que faleceu, não sei dizer, mas para quem sofre a perda, é a perda a causa da dor e não a doença.

Temos mais de cem mil outros nomes no país sendo registrados entre os que partiram vitimados por um vírus – por um vírus e pela negligência dos que minimizam seus efeitos. E temos esse número multiplicado por outros tantos de pais, mães, filhas, netos, amigos, vizinhas que perdem seus queridos neste duro momento que enfrentamos e que agora ficam sem poder se despedir, sem que haja um funeral em honra dos que se foram. O ritual de despedida entre seres amados, o choro final. Porque corpos não são coisas. E nós, seres humanos, temos na cultura do sepultamento algo que nos distingue de outras espécies.

E agora centenas de corpos são empilhados todos os dias em nosso país.

Há mortes inevitáveis, claro. Por Covid ou tantas outras tragédias, pessoas morrem todos os dias. Mas, não é possível tolerar uma morte evitável. Nenhuma. E qualquer gesto, atitude ou expressão que tenhamos que negligencie o cuidado com o próximo, o zelo pela vida humana, que exponha alguém a um risco que poderia ser evitado, é mais do que irresponsabilidade, é reduzir o valor sagrado da vida. É dizer que há pessoas que valem menos, que em favor de certos benefícios ou privilégios, é aceitável que se percam vidas. Isso é a barbárie, é a espécie humana perdendo sua humanidade em favor de ideologias e debates tolos.

Até que a morte bata à sua porta.

Não quero discutir as vidas de milhares hoje. Gostaria de conseguir discutir cada vida. Uma. A mãe. A esposa. Ela, que aqui deixou os que amava. Há um nome. Que poderia ser de alguém que divide o teto com você.

Precisamos lutar para evitar o sofrimento evitável. Precisamos falar de amor. É um pedido: ame.

Ame especificamente. Não dá para amar de forma genérica.

Ame alguém, ame cada um, cada uma – seja você o amor para uma pessoa hoje.

Com um gesto, uma palavra, com seu tempo, seu dinheiro, trabalho, com um ombro disponível, uma chamada de vídeo ou troca de mensagens.

Ninguém ama a humanidade toda. E é fácil amar a humanidade toda uma vez que isso não implica em ter que lidar com as falhas, diferenças, dores e contradições de um relacionamento pessoal.

Ame de forma específica e individual. Ame seu próximo. Seu próximo é todo aquele que você acha que é e ainda aquele que você gostaria que não fosse. Ame o sujeito sem máscara na rua, ame a ativista enclausurada, ame o idoso que sofre no hospital, ame a família ajoelhada na calçada à espera de notícias.

Ame uma pessoa hoje. Isso fará tudo melhor.

Não salvaremos o mundo de uma pandemia, mas poderemos salvar a vida de alguém durante esse caos em que estamos. Todos.

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