As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

À prova de desapegos

Luiz Henrique Matos

14 Setembro 2018 | 16h43

Um pequeno baú de madeira com cartas de amor manuscritas e alguns desenhos feitos pelas meninas, uma caixa de papelão com álbuns de fotos da era não-digital, uma dúzia de livros, cadernos usados e uma embalagem cartonada com dois carrinhos arranhados, um Playmobil careca e um apito velho. São esses os objetos que me vem à mente sempre que surge a ideia de que um dia minha casa possa ser tomada por um incêndio e eu precise abandoná-la à pressas.

Nenhum eletrônico, nem jóias, nada de dinheiro, documentos ou a escritura da casa (mas pensando bem, seria útil considerar levar ao menos a apólice do seguro residencial). Penso apenas nesse conjunto de papéis velhos e pedaços de madeira e plástico pelos quais ninguém lá na rua me pagaria dez reais, mas carregam um tesouro que pretendo guardar até o fim. A seu modo, são pedaços da história, um tipo de prova de momentos que gostaria de recordar adiante e que não posso confiar na memória para preservá-los. Uma espécie de museu particular.

Quando abri o jornal na semana passada e li sobre o incêndio que atingiu o Museu Nacional no Rio de Janeiro, o sentimento de perda foi um pouco esse que mencionei acima. Gosto de museus muito mais pelo significado e contexto das peças expostas do que por seu valor ou raridade. Daí a preferência familiar, quando viajamos em férias, pelos museus de história, ruínas e monumentos arquitetônicos.

Hoje, é triste constatar que viraram cinzas as tantas relíquias dos tempos de nossa história que não chegamos a testemunhar, as últimas provas da existência de povos que se extinguiram, as memórias da trajetória nacional que se perderam para sempre. Porque todo museu é um compêndio de narrativas que podem ser contadas, uma espécie de janela no tempo para que possamos contemplar e reviver as riquezas que já fomos capazes de edificar.

Perder isso tudo é triste, porque é perder também um pedaço de nossas memórias e relegar os fatos e lembranças ao abandono do tempo. Seria natural – como são tantas lembranças que se perdem – não fosse o descaso criminoso que precedeu a tragédia.

E se perdemos tantos tesouros, espero que pelo menos fique em nossa lembrança esse incêndio (mais esse, vale dizer, já que foram seis os museus destruídos por incêndios no país nos últimos dez anos), que o fato seja registrado à altura nos anais desse tempo em que estamos e que o episódio marque nossa história para não nos deixar esquecer do que precisamos preservar. Que a tragédia no Rio de Janeiro deixe uma cicatriz que nos ajude a corrigir o rumo e que passemos a valorizar e zelar pelo nosso patrimônio.

“Gostaria que o Museu Nacional permanecesse como ruína, memória das coisas mortas”, disse o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro ao jornal português Público. “O Brasil é um país onde governar é criar desertos. Desertos naturais, no espaço, com a devastação do cerrado, da Amazônia. Destrói-se a natureza e agora está-se destruindo a cultura, criando-se desertos no tempo.”

Desertos. Vivemos um momento em que nossa história como sociedade tem valido pouco. Museus viram cinzas enquanto também ardem sob as chamas alguns dos nossos valores duramente conquistados. A democracia pela qual muitos lutaram, tantos sofreram e que celebramos como bandeira há pouco mais de três décadas vem sendo fustigada pelo fogo do totalitarismo nesses tempos. A liberdade conquistada com suor e sangue é vista como excesso e vemos agora nossa gente, nossos irmãos, preferindo viver sob a chibata de uma ditadura a debater com maturidade novos rumos que possam promover igualdade, paz e justiça social.

Precisamos preservar a história e preservar nossas histórias. Porque é impossível seguir em frente e vislumbrar tempos melhores no futuro quando queimamos as estradas atrás de nós e não sabemos com clareza de onde viemos. Porque há coisas na vida que são a prova de desapegos. E até para saber o que não queremos, é fundamental que nos lembremos do que já passamos. E, claro, é mister que tenhamos nossos tesouros, nossas riquezas e memórias às quais podemos recorrer para que a história seja sempre contada, para lembrarmos daquilo que teimamos em esquecer.

Talvez, como sugeriu Viveiros de Castro, nossa própria vergonha precise ficar exposta como um museu, as ruínas a céu aberto, os erros mais crassos de nossa história erigidos como monumentos para evitarmos a todo custo cair na tentação novamente, para não tropeçarmos na mesma pedra, para não sermos consumidos pelo fogo de um incêndio repentino. Para não cometermos os mesmos erros no futuro. Nem no presente.