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A perda da inocência

Luiz Henrique Matos

16 de janeiro de 2019 | 12h08

– Davi, que machucado é esse no seu joelho? – a tia preocupada perguntou para o sobrinho.
– É que eu fui voar. Só que não deu.

Se tem uma coisa que eu tenho medo é de algo que martela em minha mente como “a perda da inocência”. Falo como pai, tenho pesadelos com isso. Temo a chegada do inevitável momento, o fatídico dia em que os olhos de minhas filhas se abrirão e compreenderão que existem questões subjetivas escondidas sob a superfície, sob as máscaras, sob essa espuma de artificialidades e das quais elas vinham sendo poupadas até ali pelo invólucro da pureza da infância.

Tenho medo do momento em que elas deixarão de ter esse poder, essa espécie de bolha que envolve os primeiros anos de nossa espécie e que faz com que crianças enxerguem o mundo e o percebam sem malícia, que vivam convictas de que são capazes de voar. Para elas, tudo ainda é cru, puro, é só aquilo mesmo que está sendo dito e feito naquela hora.

No fim do ano passado, estava na reunião de classe da Nina quando a professora recomendou aos pais que, para o ano de 2019, lessem um livro sobre a criança aos doze anos – idade que a maior parte da turma fará neste semestre. Eu tinha ficado com a tarefa de escrever a ata da reunião e tomava notas em um papel enquanto ela falava.

Então ela disse: “Neste ano, as crianças estão no ápice da infância e ainda estão aprendendo a fazer a conexão de sua presença no mundo. Elas estão vivendo a alegria de estar no mundo plenamente, estão no “topo da montanha”. E a partir de agora, elas começam a despedida da infância para entrar, aos poucos, na adolescência”.

Eu parei de escrever naquele momento e por alguns minutos deixei de ouvir o que ela dizia. Passei o olhar pelos rostos de outros pais e mães sentados em círculo diante de mim para ver se eles se espantaram com aquilo tanto quanto eu, mas a reunião seguiu em frente.

Eu não. De lá para cá, me pego entrando no quarto da Nina para observar como ela organiza suas coisas sobre sua mesa, os brinquedos, as bonecas, os livros, seus desenhos. Eu me sento mais para ouvi-la e, mais do que saber o que se passa, tento notar as transformações em seu jeito de pensar e enxergar o redor. Eu encaro seus olhinhos brilhantes (rapaz, se tem uma menina com olhos sorridentes e brilhantes, essa menina é a Nina) e fico aliviado em perceber que a pequena camada de pureza ainda está lá, que a inocência ainda reside em seus olhos.

Não sei se temo mais pelo que acho que ela perderá ou pelo que eu deixarei de ter como pai. Tudo isso é algo bem egoísta, você sabe. Estou aqui falando de minhas neuras sobre algo que todo ser humano saudável experimenta na vida e sei que vou acompanhar e desfrutar ao seu lado cada nova etapa pela qual elas passem.

Mas, entenda, o mundo todo parece uma coisa tão mais bonita quando ele é só esse mundo que elas contemplam. Porque a meninice é a parte essencial da existência, é sua pureza, é o reflexo divino refletido integralmente na vida do ser humano. Esse reflexo que o homem abandona quando cresce e passa então o resto dos dias procurando de volta. E nossa esperança na humanidade se renova quando vemos crianças encarando as coisas com seus pequenos olhares.

Gostaria que elas pudessem viver protegidas nesse olhar que não é, em absoluto, limitado. Ele é cheio daquilo que mais parece ter valor no fim das contas. À medida em que na fase adulta nossa visão se expande e a realidade se revela diante de nós, a capacidade de fantasiar se perde em algum bolso, vira uma fotografia guardada na gaveta, se transforma em números digitados em planilhas e toda mágica então se resume àquelas recordações e em admirar a meninice de nossos filhos.

Eu só não queria que tudo acontecesse antes da hora, entende? Deixá-las serem assim tanto quanto puderem. Afinal, a infância não é um sonho, ela é essa porção de sábados entrelaçados até que um dia amanhece uma segunda-feira.

A Nina também quis voar. Até os sete anos, ela dizia que ao crescer seria cabeleireira, artista plástica (ela falava “pintora”), princesa e que aprenderia a voar. Tudo ao mesmo tempo, tendo as quatro atividades como plano de carreira a ser conciliado.

Há algumas semanas, enquanto observava a Cecília rodopiando em seu vestido florido pela sala (ela sempre usa vestidos, mesmo sobre roupas de frio, para poder rodopiar), perguntei:

– Ei, garotinha. Por acaso você é Cecília, a princesinha do papai?
– Não.
– Poxa, não?! Mas, por quê?
– Pai, porque eu não sou princesa, eu sou uma fada.
– Ah, você prefere ser fada?
– Sim.
– Por quê?
– Fadas voam.

Vivemos 70 ou 80 anos em média hoje em dia. Ainda assim, aqueles primeiros anos, aqueles dez ou onze, aqueles dos quais lembramos parcamente ainda quando adultos, formam o período da vida sobre o qual construímos nossas memórias mais doces e profundas, nosso repositório de nostalgia, o que tentamos a todo custo preservar e que, de certa forma, nos definem até o fim.

Dias atrás, eu as observava brincando de dançar lá no quarto. Os rostinhos arredondados, os passos atrapalhados, os olhares distraídos e as bochechas marcando um sorriso. Os gestos curtos, os sentimentos espontâneos – choro e riso brotando como efeito imediato das sensações – as vontades e pensamentos. Tudo em mim era alegria por poder vê-las nessa pequena festa. E em minha lembrança, carrego a certeza de que naquele instante eu as via flutuando a três palmos do chão.