A busca pela felicidade
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A busca pela felicidade

Luiz Henrique Matos

08 Junho 2018 | 08h48

Quando foi que transformamos um sentimento em ideal a ser alcançado? Em que estágio do século que passou, eu queria saber, nos tornamos uma raça que ambiciona a felicidade como estado permanente de existência?

No futuro, pode ser que alguém resolva estudar o tempo da história em que vivemos e chegue à conclusão de que fomos uma geração superficial e vazia. Talvez seja algum rebote pós-guerra, fulano argumente, talvez o excesso de prosperidade nunca antes experimentado ou quem sabe o surgimento e expansão no consumo de drogas e antidepressivos. O que nos fez, questionará o historiador do século XXV, incluir emojis e emoticons com sorrisos 🙂 ao final de nossas mensagens para que soassem simpáticas? Algum filósofo deve ter uma teoria que explique o fenômeno. Eu não tive tempo de buscar detalhes porque estava buscando minha dose cotidiana de satisfação e felicidade.

Não quero cair na conversa fácil de mencionar posts em redes sociais influenciando nossos sentimentos. Isso é consequência e não causa. Me preocupa a origem disso. A origem disso em mim, a existência disso em minhas filhas, na minha esposa, o quanto isso afeta meus amigos, colegas de trabalho, familiares e o quanto vejo uma geração de jovens emergir dependendo de sensações que os satisfaçam e êxtases como recargas de suas energias. A nossa não-capacidade de lidar com o contraditório, de rejeitar o que não nos satisfaz, de alimentar a expectativa de que as coisas, as pessoas, as experiências e o mundo todo supra esse vazio o tempo todo e nos preencha com um estado de espírito.

E pensar que talvez a coisa que mais nos afaste desse ideal seja justamente o esforço em persegui-lo.

O curso mais popular na história da Universidade de Yale, li outro dia em uma reportagem da revista The Cut e no The New York Times, é um programa que procura ensinar aos alunos a ciência de ser feliz e do bem-estar. Um quarto dos alunos matriculados na universidade no último ano se inscreveu no curso da professora Laurie Santos chamado “How to be happy”. A ONU, descobri na sequência, tem um relatório global de felicidade e bem-estar e faz um ranking de nações mais ou menos felizes no mundo. A Finlândia lidera a lista, o Brasil consta na 28 posição. Entendo que os critérios tratam de indicadores relevantes como acesso a saúde e educação, mas, entenda também, é realmente sensato que tenhamos nisso um objetivo pessoal a ser alcançado? Como se fosse algo possível de ser comprado, acessado, como um mundo plástico onde podemos habitar longe de riscos.

Curiosamente, uma das lições do curso de Yale conclui que “quase tudo o que você pensa que irá torná-lo mais feliz não irá”.

O que está acontecendo com a gente?

Abrimos mão, com essa busca cega, da beleza do contraditório. A felicidade não teria esse valor mágico se não existisse também seu sentimento oposto para nos dar algum parâmetro. Não haveria essa obsessão se fosse um sentimento que nos deixa indiferentes, como assistir um empate em 0 x 0 entre dois times para os quais não torcemos. Mas não é o caso com luz e escuridão, amor e ódio, calor e frio, sal e açúcar, excitação e tédio, as coisas que exatamente por serem opostas tornam a experiência tão mágica quando estamos em nossa extremidade favorita dessas sensações.

Porque ao negar essa condição, corremos o risco de passar para dois estágios perigosos nessa relação: o de frustração permanente – porque a felicidade se torna inalcançável o tempo inteiro, afinal – ou o de banalização de um sentimento, vendendo (ou comprando) barato demais a falsa ideia de que felicidade, vá lá, até pode ser aquele instante fugaz, contanto que o tenhamos em cápsulas. E aceitamos a piada ruim do colega, aquele riso forçado, as curtidas em posts ou, como tenta nos convencer a propaganda de uma rede de supermercados no rádio, um pão com manteiga na chapa, como respostas convenientes para nosso anseio.

No entanto, sabemos, você e eu aqui, que felicidade não é algo que se encontre, mas um sentimento que vem ao nosso encontro de vez quando, que nos alcança no inesperado, que nos toca como a brisa em um passeio à beira-mar e o Eterno soprando em nossa face, que nos preenche quando testemunhamos nossos filhos dando seus primeiros passos, quando aquela música toca no rádio e no fundo de nossa alma, quando abrimos a geladeira e o pedaço de bolo sobrevivente nos espera, quando o toque da esposa nos acaricia o cabelo enquanto dirigimos o carro pela estrada num fim de tarde e o sol se põe no horizonte. E assim como vem, a felicidade vai. Porque a vida tem suas circunstâncias, porque algumas coisas permanecem mais que outras, porque viver é mais do que esse sobreviver cotidiano. Tentar transformar isso em um estado permanente não é a busca por realização pessoal, mas um desejo artificial, a porta de entrada para grandes decepções ou o consumo de substâncias que nos alienam. Não aceitar que passaremos invariavelmente por tristezas, nos torna despreparados para lidar com essas sensações.

E eu diria que é uma atitude infantil, mas foi justamente de uma criança de 90 centímetros que tirei a lição de que preciso agora. A Cecília tem um jeito engraçado de responder quando lhe perguntamos se gostou de alguma coisa e foi assim outro dia quando ela voltou de seu primeiro dia na escola:

– Cici, você gostou da escola?
– Sim!
– Então o dia foi bom?
– Foi muito bom, papai. Mas foi só um pouquinho ruim.

Porque não tem que ser bom o tempo inteiro mesmo. O ruim não invalida o resto, não o mancha. Os maus momentos são parte da experiência e é inevitável que em algumas fases da vida estejamos mais ou menos em algum desses pólos. E mais do que a quantidade de estresse que nos aflige, me diz sempre o Dr. Pedro, tudo depende no fundo de como reagimos ao que nos afeta.

Haverá, invariavelmente, as noites escuras da alma onde a singeleza de uma lembrança feliz será o fio de esperança necessário. As horas que compõem os momentos que nos levam às reflexões mais profundas, em que o silêncio contemplativo se torna o único meio possível para se encontrar o caminho, para seguir em frente, para nos darmos conta, finalmente, de que ser feliz é encontrar sentido para essa vida que levamos sob o sol. E que o momento fugaz, aquele que nos arrebata, aquele que preenche o ser, pode estar ali na esquina, pode estar dormindo agora ao nosso lado na cama, pode estar na comunhão de uma mesa posta, numa folha caída no chão, na prece sonolenta, pode aparecer no desviar do olhar ou no fechar dos olhos, quando paramos de persegui-lo e nos deixamos ser tocados pela satisfação da nossa existência.