Vão do MASP – e o que fizemos dele em 50 anos
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Vão do MASP – e o que fizemos dele em 50 anos

Henrique de Carvalho

04 Dezembro 2018 | 06h30

MASP por Lina Bo Bardi em 1968, ilustração disponível em

MASP por Lina Bo Bardi em 1968, ilustração disponível em “Sutis substâncias da arquitetura” de Olivia de Oliveira (Romano Guerra)

Em 08 de novembro de 2018, o MASP completou 50 anos. Anos bem vividos de uma juventude glamourosa. Contudo, sua vida madura não tem sido nada fácil. Dá pena de ver e lembrar seus anos recentes. Se continuar neste ritmo, ele periga não chegar aos cem, o que será uma perda irreparável. Se não pegar fogo antes, consumindo todo o acervo, já será bom sinal.

Lá pelos 40 anos de idade, todo endividado, chegou a ser manchete ao puxar um gato de energia elétrica por falta de dinheiro para que a conta fosse paga.

Ainda antes disso, arquivaram seus cavaletes de vidro, concreto e madeira, premiados, elogiados e copiados no mundo inteiro, substituindo-os por paredes de gesso, redundantes, sob a justificativa de serem mais adequadas ao controle da luz. É o tipo de simplificação que usa uma verdade parcial para justificar uma incoerência geral. Sabemos, bastaria querer que os cavaletes continuassem e chegar-se-ia a uma solução que não descaracterizasse os painéis de vidro da fachada, sem prejuízo do projeto original e da experiência original proposta pela autora do museu, Lina Bo Bardi.

O projeto original previa o térreo livre, abrigado parcialmente pelo vão de 74 metros entre pilares — parcialmente porque o térreo livre é maior que o vão entre pilares. Não esqueçamos que embaixo do vazio também há muito espaço do museu. E é ali, no intervalo da arte acadêmica protegida em ambientes restritos, haveria a efervescência cotidiana, a alegria e a aglutinação sem pudores da cultura popular. Os esboços da arquiteta mostram crianças brincando, esculturas como as do Miró servindo de escorregador, cataventos, circo, artistas de rua. Ali, o vão já é museu, mas um ambiente no qual pulsa a vida.

Era pra ser um museu anti-museu, diferente daquele museu genérico que habita nosso imaginário.

Desde sempre, manifestações populares fazem pouso ali no vão. O ambiente, durante a obra, foi protegido por tapumes mais para servir de ponto de encontro seguro para os comunistas perseguidos pela ditadura militar do que para isolar a obra da rua. Manifestações a favor ou contra alguma coisa sempre usam o vão como ponto de referência: “saída do vão do MASP”, “terminando no vão do MASP” ou simplesmente “localização: vão do MASP”. O vão passou a ser um lugar tão cheio de significados quanto o próprio museu que o abriga. A Lina foi genial. Talvez nem tivesse noção da dimensão que a coisa tomaria, mas fez dois projetos fazendo um: o MASP e o Vão do MASP.

Ocorre que, como em praticamente tudo, quando a ideia avançada é mal compreendida, a cultura se move para distorcê-la até se parecer com alguma coisa que se possa compreender a partir de referências passadas ou mais cotidianas.. Para merecermos o MASP, precisamos ampliar nossa capacidade de compreensão sobre arquitetura e cultura, aceitar seus avanços, e explorá-los com desenvoltura.

Hoje, contudo, o quadro da vida emoldurada pelos pilares e pelo entrelajes não inspira poesia. O que há é a nostalgia da imaginação, de um futuro que não é. Colocaram um barraco ali debaixo, para servir de bilheteria provisória, que se mantém em permanente improviso, com seus fios puxados sem plano algum, reproduzindo o caos indesejável dos postes da cidade. Divisórias improvisadas simulam organizar algo que elas destroem, que é o espaço fluido e livre ali debaixo. Ficam tortas, capengas, arrematadas por fitas elásticas bancárias a separar fila da compra e fila da entrada — esta, outro recorte fechado por barreiras improvisadas.

No lado oposto do vão, mendigos, inspirados pela arquitetura da bilheteria, às vezes fazem casas de papelão, outras dormem só com seus cobertores sujos e em grupo, estratégia que os deixa menos vulneráveis à violência da cidade, compondo silencioso protesto contra o estado das coisas.

Uma feira de hippies estende seus objetos, à venda em panos e esteiras, enquanto queimam incensos e palo santo, este com um fedor dos infernos a questionar seu nome e sua origem divina. Ficam geralmente na mesma extremidade oposta ao acesso, perto dos mendigos, e formam uma barreira de chão, tão improvisada quanto a de vidro do outro lado, que precisa ser contornada para se chegar aos bancos. Notem que o acaso (acaso?) vai, aos poucos, construindo um acesso central para o vão, cujas laterais passaram a ser bloqueadas pelos eventos citados.

Às vezes, pessoas dormem o dia todo nos bancos ao fundo. Simultaneamente, outras pessoas fumam seus baseados, compartilhando a fumaça indesejada por quem só queria apreciar a vista, tirar fotos e namorar sem muita interferência. No limite do vão e junto à vista de uma cidade dos buracos escavados, os limites do permitido e das convenções ganham novos contornos.

No quadro emoldurado pelo vão, hoje, pulsa mais a morte do que a vida da cidade. Ali é a pulsão coletiva, expressão popular por excelência, e tudo o que se abriga ali no vão é indício antecipado do futuro. Com toda a liberdade que nos foi oferecida, há somente o elogio de nossas mazelas: o improviso construtivo, nossa maior instituição “a fila”, fios puxados representando a vocação para ignorar a beleza em troca de apenas funcionar — parecer funcionar, mais precisamente –, a miséria, a pobreza cultural de certa expressão popular das grandes cidades, o desconforto, as impossibilidades, os impedimentos e a fumaça que se esvai enquanto há muita sujeira sendo pisada e relevada, debaixo de nossos pés.

Acima deste quadro, na caixa de concreto e vidro, persianas velhas, bagunça e móveis burocráticos apresentados pela transparência. Inicialmente pensada para iluminar a arte que, como sol do espírito, nos ilumina de volta, hoje serve para expor a decadência do que deveria ser nossa expressão mais elevada.

Talvez seja de propósito haver, acima da fila, da miséria e do improviso, a burocracia e a decadência como expressão mais elevada de tudo o que somos. Aos poucos, nos esquecemos do que o vazio e a arte tem a nos ensinar

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Removidos em 1996 do espaço expositivo do MASP para dar lugar a paredes brancas de gesso, em 1998 os cavaletes apareceram em solo holandês, no projeto do escritório Mecanoo para a biblioteca de Delft — obra emblemática por apresentar o escritório ao panorama internacional de arquitetura.

Os autores se conheceram na faculdade, faziam trabalhos em grupo e conheciam o trabalho de Lina pessoalmente. Vieram em excursão, ainda estudantes, conhecer a arquitetura moderna brasileira e foram ao museu projetado por ela em São Paulo.

Posteriormente, o grupo de alunos virou o citado escritório, e adotaram os cavaletes com o plano de vidro levemente adaptado para servir de suporte a revistas e jornais. No memorial de projeto, citaram a peça seguida do nome da autora, a designer Lina Bo Bardi.

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Para quem quiser conhecer melhor a biblioteca de Delft, há um interessante vídeo no link https://www.youtube.com/watch?v=EV_kp7ELHII&feature=youtu.be.

Os cavaletes não aparecem na filmagem, mas a biblioteca é linda e vale a pena assistir para conhecer um pouco mais.