Sobre os muros (é chocante!)
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Sobre os muros (é chocante!)

Henrique de Carvalho

05 de maio de 2019 | 06h30

Ilustração produzida por Henrique de Carvalho.

Ilustração produzida por Henrique de Carvalho.

Perto do ano dois mil, a Grande São Paulo começou a ver linhas de limite dos lotes serem reforçadas por linhas dolorosas não pontiagudas. Cercas elétricas começavam a ser instaladas em larga escala. Tornaram-se solução popular.

Não que os muros não contivessem violência antecipada antes. Desde que o mundo é mundo, as barreiras entre territórios são reforçadas por espinhos, lanças, galhos afiados e variações sobre a forma do perigo anunciado. Tal qual forçamos a ponta do lápis para vincar a folha, para escrever mais forte, as pontas apontadas para o alto reforçam a demarcação do território propondo a aplicação de dor física àquele que se dispuser a passar dos limites. Para cada situação há variações desse mesmo gesto de usar o vinco dolorido aplicado ao corpo para grafar, com força, os limites impostos pela cultura.

Ainda em dois mil e um pouco depois, dois mil e dois, três, essas aberrações que anunciam a destruição do inimigo começaram a ser também instaladas em cidades do interior, cidades nas quais eu caminhava tranquilamente até as três ou quatro da manhã, à toa, tirando fotos, com amigos ou mesmo sozinho. O medo veio antes do inimigo. Chegou pela mesma eletricidade que se desdobraria, de um lado, na janela paranóica da televisão com seus noticiários trágicos, e de outro, nas próprias linhas ameaçando gatunos e malfeitores com choques.

Os choques, expulsos dos manicômios por serem usados como reforço da desumanização daqueles postos do lado de fora da civilização, migraram para os muros das casas. Representam o medo que os organizados e adaptados ao código geral sentem do habitante do lado de fora. Temem que invada seus territórios civilizados, iludem-se. Os do lado de fora, à margem da cultura, seriam não-participantes do código compartilhado. Dizem que há um acordo social, de entendimento mútuo, que existe sabe-se lá desde quando, criado sabe-se lá por quem — também não sei. Só sei que isso fez com que quisessem dar choques naqueles que tentassem adentrar o território demarcado por acessos alternativos à porta principal.

Variação conceitual mais primitiva das cercas elétricas são os arames do Vietnã — é como costumo chamar aquele arame farpado mais elaborado, enrolado, com espinhos recortados em fita metálica desenrolada em espiral, uma evolução do arame farpado. São itens desenhados para ferir, postos por cima de muros e portões, deixando os lugares mais aconchegantes para os que convivem com isso diariamente. Vejo até em escolas infantis. Em frente ao meu escritório há uma, e penso “Que formação psíquica essa imagem violenta produz na criança que convive diariamente com ela?”

Sem precisar aceitar, dá até pra racionalizar o porquê neurótico de os espaços habitados virarem máquinas de machucar pessoas ao adotarem sistemas de defesa contra o que vem de fora. O que não dá pra entender é como seguimos assimilando isso.

Sem reflexão a respeito, as cidades permitiram, a coisa foi se alastrando e já nos acostumamos a mais esta variação do absurdo que tem se tornado a paisagem de nosso cotidiano.