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Quarteirão-parque, uma aula sobre fazer cidades

Henrique de Carvalho

28 Agosto 2018 | 06h30

Ilustração do autor do blog sobre foto da internet

Na virada do ano escrevi, a convite do jornalista Edison Veiga, a respeito de minha utopia de cidade. Minha utopia, quem me conhece sabe, é morar numa cidade-floresta. O texto está aí na sequência de postagens para quem se interessar em ler meus delírios mais sinceros e bem intencionados.

Nesta semana que se passou, fui positivamente surpreendido ao saber dos planos de construção de um empreendimento chamado “O Parque” aqui em São Paulo. Em um terreno de 40.000m², serão construídas 4 torres — três residenciais e uma comercial — e um parque público de 25.000m², mantido por uma gestão privada que cuidará dele para a cidade.

Quantas vezes não conversamos, entre nós arquitetos, sobre as mesquinharias urbanísticas repetidas pelo hábito em incorporações predatórias, que se encerram ao venderem metros quadrados em algum pavimento do edifício construído? Quantas vezes, desde a faculdade, não falamos a respeito do modelo falido empregado na produção das cidades em que vivemos? “Qualquer aluno de segundo ano faz um projeto melhor do que o que vemos implementado nas cidades que conhecemos” é um tipo de comentário bem recorrente.

Não vou aqui escrever um texto de arquiteto para arquitetos. Não se preocupe, isso não é papo de metier. É sobre construir a cidade pensando em criar um ecossistema habitável, mais amistoso, no qual todos têm a ganhar. A Mariella, certa vez, fez um comentário que nunca vou esquecer. No meio de um debate institucional, postulou “Você não acha que do jeito que está há problemas? Então vale a pena pelo menos experimentar um modo diferente de fazer as coisas”. Mesmo que não se dirigisse a mim, fui tocado por sua sagacidade. É claro que precisamos optar por caminhos melhores, todo mundo ganha com isso.

Parques de mentira

Os empreendimentos usuais oferecem áreas verdes residuais e sem qualidade, feitas para cumprir a cota mínima necessária para aprovação do empreendimento. Sabe quando vemos um conjunto de prédios parecidos e no meio deles há um bico que sobrou dos terrenos, com um barranco, um gramado e meia dúzia de ipês? É disso que estou falando.

Por alguns anos, bem recentemente, morei perto de um desses resíduos da incorporação e gostava bastante de tê-lo por perto. Qualquer contato com a natureza, com árvores, é restaurador para qualquer ser humano. Já vira abrigo de pássaros e outros animais, ali algumas sementinhas caem e brotam. Não era um pocket park porque não era um parque, não era nada. Era um barranco com árvores do qual extraíamos o máximo de desfrute do pouco que estava ali disponível. Isso já era bem melhor do que nada.

Talvez a maioria das pessoas, habituadas a tão pouco (ou nada) em termos de qualidade urbana, nem percebesse que aquilo de que até eu gostava era descaso, mas nós arquitetos sabemos que o havia sido feito ali era muito pouco, praticamente nada, diante das possibilidades do recorte ali disponível. Bastaria um bom projeto e aquele barranco poderia ser um parque de verdade ou o tal do pocket park, como devem ter escrito no panfleto anunciando os apartamentos.

Um parque de verdade

Diferentemente deste modelo defasado entregue pelos empreendimentos em geral, o “O Parque” da Gamaro Incorporadora inverterá a pegada. Seus edifícios serão inseridos em um parque público, no Brooklin, com tamanho equivalente a 20% da área do Parque da Aclimação. Implantado no filé do terreno, atenderá a demanda inesgotável por áreas verdes de qualidade em São Paulo ao mesmo tempo em que inaugura no Brasil um modelo de negócio realizado com sucesso em outros países há mais de 40 anos, mostrando que a incorporação imobiliária também pode contribuir com projetos duradouros, comprometidos com o ecossistema no qual se inserem, qualificando os espaços que habitamos e restaurando a natureza de forma consciente e consistente.

Coordenado pelo botânico e maluco-do-bem Ricardo Cardim, o projeto paisagístico fará a reinserção de mais de vinte espécies nativas e raras, compondo jardins de árvores frutíferas e pomares indígenas ao longo de todo o parque.

Revivendo condições pesquisadas diretamente na mata atlântica, como fez um dia nosso grande artista, botânico e paisagista Burle Marx com as plantas de todo o Brasil, teremos uma remontagem fiel do bioma apartado de nossa experiência de cidade, com corredeiras, quedas d’água e suas ambientações mais peculiares, aclimatando paisagisticamente as espécies vegetais dispostas com naturalidade e trazendo de volta uma parte significativa da fauna e flora que até então não tinha mais lugar perto de nossas casas.

A sensibilidade do projeto chamou minha atenção ao saber que, durante a demolição da antiga fábrica existente no terreno, os profissionais envolvidos notaram brotos aparentemente espontâneos e levaram para um laboratório especializado para saber do que se tratava. Eram brotações de sementes antigas, adormecidas sob a construção demolida. Espécies extintas naquele trecho de cidade, algumas extintas em toda São Paulo, pelo crescimento desordenado e sem contrapartida ambiental, estavam a rebrotar. Convocaram uma equipe para coletar todas as sementes do terreno que, após serem catalogadas e cuidadas, foram levadas para o viveiro criado para abastecer o parque, onde puderam germinar por uma causa nobre depois de todo este tempo em espera.

Vida do parque, vida da cidade

Sabemos que a natureza do planeta guarda uma interdependência de fatores, onde todos os seres e coisas estão integrados e interagindo, o que chamamos de “sistema” em diversas modalidades de planejamento — e aqui falo em planejamento urbano, mais especificamente.

Ao planejamento integrado, considerando o máximo de pontos de interdependência, chamamos “planejamento sistêmico”, uma derivação do termo que inspira esta abordagem, o “pensamento sistêmico”. Veremos, portanto, o nascimento de uma obra muito bonita, projetada como sistema ao integrar natureza, comunidade, cidade e economia.

Inspirados pelo livro “Morte e Vida de Grandes Cidades”, da jornalista estadunidense Jane Jacobs, os idealizadores do empreendimento foram conversar com a comunidade para entender se, e como, toda a comunidade próxima poderia se beneficiar na medida em que ela e o parque interagissem de maneira integrada. Aplicavam, desta forma, uma das lições da autora ao reforçarem a unidade de vizinhança e o senso de comunidade, evitando assim problemas urbanos como a gentrificação, fenômeno recorrente quando toda a comunidade em torno de uma melhoria urbana é substituída pela alta de preços e pressão imobiliária exercida de fora para dentro.

Neste caso, à medida em que houver um reflexo do parque no entorno — e vai haver –, a comunidade estará pronta e integrada para receber este reflexo, positivo para ambas as partes, e todos saem ganhando.

Prédios Jane Jacobs

Jane Jacobs demonstrou que lugares ativados por usos diversos são mais seguros do que setores monofuncionais, justamente porque o alto fluxo de pessoas, o tempo todo, dirigindo-se aos seus interesses distintos, inibe naturalmente crimes e violência urbana. Ela analisou vizinhanças vivas, sadias, e vizinhanças mortas, degeneradas, e propôs que se rompesse com a setorização rígida adotada pelos urbanistas modernos em seus planos, pois ela estava matando as cidades.

A rigidez de setores promove picos de ativação e picos de desativação. Em uma região estritamente comercial, por exemplo, quando todo o comércio está aberto há muito movimento e quando está fechado as ruas ficam vazias e, portanto, propícias à delinquência e crimes. Pense com o que acontece na Rua 25 de março após as 18h da tarde. A cidade morre ali e só revive no outro dia pela manhã.

Por outro lado, uma vizinhança que mescle a maior diversidade de usos possíveis será mais saudável em todos os aspectos, porque não haverá picos de ativação. Esta área diversificada é viva ao longo de todo o dia; as pessoas vão para o trabalho, buscam filhos na escola, vão até o ateliê de costura fazer barra na calça, vão e vem da padaria, saem para jantar, passeiam no parque, fazem exercícios, circulam com seus animais, cortam cabelo, compram presentes, tomam ônibus, descem de táxis, fazem compras para a casa a pé, levam computados para consertar, vão à sorveteria. A multifuncionalidade enriquece a experiência destas vizinhanças, reforça os laços de comunidade, promove a segurança e estimula a prosperidade de pequenos comerciantes.

Os prédios também serão pensados para promover uma interação saudável entre os os moradores e reforçar os laços de comunidade. São prédios “Jane Jacobs”, usando a autora americana aqui para adjetivar algo que é mais atual do que ela mesma.

Como em bons projetos contemporâneos, a importância do que é realizado aumenta à medida em que aumentam os laços de interdependência entre todas as partes, constituindo o sentido do espaço habitado. Um bom lugar não se faz imaginando, ingenuamente, haver qualidade alheia às suas interdependências, pois elas são obrigatórias e exercem influência umas sobre as outras. Não há apartamento que se baste por si, assim como não há garantia de segurança que se baste por si ou qualidade do parque que se baste por si. A qualidade da cidade e a qualidade da arquitetura são uma mesma coisa, à medida em que habitamos toda esta rede de peças interdependentes. Viver em um lugar é viver o lugar; sem esta possibilidade, vive-se em cativeiro.

Do lado de cá, só posso torcer para que a experiência deste novo empreendimento contamine positivamente todo o mercado imobiliário, renove o pensamento dos construtores, crie oportunidades para projetarmos usando tudo o que sabemos fazer e vejamos mais iniciativas como esta reproduzidas em todas as cidades.