Quarentena, é o que tem pra hoje
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Quarentena, é o que tem pra hoje

Henrique de Carvalho

13 de abril de 2020 | 06h30

Ilustração Henrique de Carvalho sobre coronavírus

Ilustração do autor Henrique de Carvalho

Estaremos ainda muito tempo em quarentena.

No escritório estamos fazendo homeoffice desde o final de março. É a palavra adotada para dar um ar refinado ao trabalhar de casa. Não gosto desses termos e nem de trabalhar de casa. De início fui relutante, não queria, dependemos demais da interação presencial e de sistemas integrados que não funcionam pela internet, precisam obrigatoriamente de conexões físicas, e isso iria gerar a maior improdutividade. 

Acatei. Meus argumentos seriam fantasiosos, quaisquer fossem, pois a resposta precisa vem de consultas à minha esposa, que é médica e, nesses tempos, atende exclusivamente na UTI dos infectados pelo coronavírus. Ela, que sabe das coisas, recomendou-me decretar temporada de trabalho em casa. Contrariado, como criança que não quer tomar banho, decretei, pois era o certo a fazer.

Gosto de sair e ir pro escritório. Ultimamente minha rotina andava bem corrida e muito interessante. Três vezes por semana prestando consultoria no escritório de um grande amigo, com quem é sempre um prazer conviver e trabalhar. Três vezes por semana ia à Cidade Universitária da USP para assistir às aulas do mestrado. Fora visitas às obras, reuniões com clientes, atendimento e trabalho interno na TANTA. Gosto de ficar lá até me expulsarem, no melhor estilo “não deveria, mas faço” — típico dos arquitetos.

Vendi meu carro no ano passado e, desde então, uso o transporte público e os aplicativos. É muito mais prazeroso se deslocar em São Paulo sem precisar estar ao volante. Vou observando com mais atenção as casas, os prédios do caminho, as pessoas pelos bairros, a movimentação subterrânea em diversos horários. Em especial, no metrô, acho uma viagem o deslocamento com uma trilha sonora adequada ao clima do dia e o humor coletivo. Ali muitas coisas se criam sozinhas e basta captá-las para sentir que, de algum modo, tenho a vida integrada à arte. Quando chove, o efeito é parecido. 

Em geral, São Paulo é uma cidade muito feia, mas há pontos de imensa beleza que são como os fios muito finos das teias de aranha. Um deles é quando chove e estamos protegidos por um vidro. Ali a cidade se revela e diz quem é enquanto imagem. Ela nos oferece sensações especiais nessas horas. Esfria, há gotinhas, o vento forte, folhas voam girando, pessoas correm pra se proteger, casais se abraçam, pais protegem os filhos, alguns se abrigam no comércio.

Gosto quando tenho a sorte de estar por aí, parar pra tomar um café, comer um pão-de-queijo, daí o tempo fecha e vejo tudo isso junto. Geralmente boto um som. Se houver pouca gente, fico ouvindo a cidade e o lugar.

Muito do que gosto de fazer está na rua, por mais que contraditoriamente também goste de ficar em casa.

Agora minha alegria em ver a rua transformou-se em ir de máscara ao supermercado uma vez por semana, onde me lambuzam de álcool na entrada e na saída. Na volta caminho uns quatro quarteirões até meu prédio, com as pessoas mudando de calçada e os carros avançando sinais vermelhos — por quê estão fazendo isso? Deve ser medo de ficar parado e vir um vírus. Chego ao prédio, mais álcool gel, o elevador tomo sempre sozinho, deixo o sapato pra fora, entro, mais álcool nas embalagens, lavo as mãos seguindo protocolo médico, guardo tudo e lavo novamente as mãos seguindo protocolo médico.

Há dias em que peço comida e vou buscá-la na calçada. Nesse dia o passeio é mais leve e simpático. Seis andares até o térreo, ida e volta, pelas escadas, para fazer algum exercício.

Também não vejo a hora de sair de casa e poder voltar a ir ao escritório, encontrar os amigos, assistir aulas presenciais, reunir-me com pessoas legais. A vida voltará a se organizar. Em casa, trabalhamos mais para fazer as mesmas tarefas. A carga horária aumenta para vencer a morosidade de certos processos interrompidos por mensagens que chegam o dia todo. 

Essa quarentena me faz ter a sensação de viver um atraso de vida, mas prefiro assim. Não quero que ela se adiante para a morte. Aceito o atraso, contrariado, mas ciente de sua necessidade. E fico em casa, pois o mundo agora precisa disso. Todo mundo precisa disso: ficar em casa.

“Essa quarentena me faz ter a sensação de viver um atraso de vida, mas prefiro assim. Não quero que ela se adiante para a morte. Aceito o atraso, contrariado, mas ciente de sua necessidade.”

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