Paraisópolis não se resolve com polícia
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Paraisópolis não se resolve com polícia

Henrique de Carvalho

16 de dezembro de 2019 | 06h30

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho), síntese visual de Paraisópolis.

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho). Trata-se de uma síntese visual de Paraisópolis, cuja explicação encontra-se ao final do texto.

Como resolver os problemas de Paraisópolis? Se os problemas daquele bairro não se originaram pela falta de polícia, por quê alguns acham que dá para resolver com polícia?

Uma ocupação irregular não nasce assim do nada, com pessoas pensando “Não tenho nenhum motivo mas acho que vou morar aqui neste terreno desocupado.” Surge de um contexto mais longo de desenvolvimento urbano que foi restringindo as possibilidades, é uma explicação histórica e deve, como tal, ser analisada desde antes da configuração do problema em si. 

Com o adensamento do centro da cidade na primeira metade do século XX, foram definidos eixos norteadores de sua expansão, eram os Planos de Avenidas de Prestes Maia. Nele identificamos que o vetor de desenvolvimento que desembocará em Paraisópolis começa com a expansão, a partir do Centro, pelo eixo dado pela Avenida Nove de Julho chegando até as bordas do Rio Pinheiros daquela época. 

Ao longo deste eixo surgiram bairros como os Jardins, construído quase todo sobre áreas de brejo aterrado. Terrenos muito atrativos para o desenvolvimento imobiliário, comprados por preço baixo e vendidos por preço alto depois de bem embalar o produto com um belo desenho, sensação de exclusividade e a proposta de uma vida longe da selvageria das áreas mais adensadas — e não é assim até hoje com os condomínios fechados?

Na época, essa experiência romântica de tranquilidade e integração com a natureza era oferecida para famílias mais abastadas, aquelas que já se deslocavam de automóvel —  um luxo que começava a se popularizar –, e poderiam se afastar do centro num movimento similar ao da criação dos subúrbios norte americanos.

Para dentro e para cima

Inaugurada em 1941, a Nove de Julho que aqui chamamos de eixo termina na Avenida Cidade Jardim, mas o vetor de evolução é o mesmo. Por mais que esta esteja geometricamente alinhada com a Avenida Europa e Rua Augusta mais acima, o vetor de desenvolvimento sai da Nove, faz uma curva e segue adiante cruzando o rio Pinheiros. 

Assim chegamos ao bairro que herda o nome da Fazenda Morumbi, loteada pelo engenheiro Oscar Americano a partir de 1948 ao estilo das Cidades Jardim, aplicado com sucesso em diversos setores ao longo do vetor Nove de Julho.

O plano inicial para o Morumbi era restrito ao que conhecemos como Cidade Jardim, em sua porção baixa e próxima ao rio, e Jardim Guedala, no alto do morro. 

O bairro ganhou fama, a demanda cresceu e, com o passar do tempo, outras porções foram loteadas atrás do morro — descendo este e subindo o de trás, depois do Estádio do Morumbi. Sem a mesma qualidade urbana, alguns trechos verticalizados reproduziam a sinuosidade do bairro original, sinônimo de status, em ruas estreitas e inadequadas à verticalização proposta. Outros setores já seguiam divididos em malha ortogonal e construções próximas umas das outras.

Quando nos anos 80 houve ali um grande investimento do setor imobiliário na construção de prédios para a classe média e média-alta, parasitando a boa fama do bairro com construções cada vez piores, e a demanda por trabalhadores crescia exponencialmente à medida que o bairro era verticalizado, ou seja, mais densamente ocupado.

Se inicialmente a ocupação de casas burguesas se fazia com um contingente pequeno de operários, com a verticalização é demandado o deslocamento em massa de trabalhadores para aquela área. Com uma jornada de trabalho exaustiva e horas perdidas em transporte público ineficiente, a falta de planejamento de moradias para a classe trabalhadora na região pressiona a ocupação de lotes vagos ali no bairro, associando economia com transporte e mais horas de descanso, ao morar perto do trabalho, e integração da família à rede econômica local. A precariedade e irregularidade não eram novas, reproduziam as formas de morar de quando viviam distantes do trabalho.

Nesta época, havia um loteamento novo, com ruas já traçadas, cuja ocupação se deu muito mais devagar do que o imaginado, devido às sucessivas crises econômicas que se intensificaram a partir da década de 1980. Somem-se a isto os prédios ao redor já ocupados, o desenvolvimento natural do comércio e a demanda crescente por diversos tipos de serviço, principalmente os domésticos.

É tudo, sempre, falta de planejamento

A ausência de investimentos que permitissem a transição de ocupações irregulares para outras regulares — oferecendo condições de vida mais digna –, consolidou as primeiras, que passaram a se multiplicar criando uma comunidade cada dia mais complexa. A dificuldade de reconduzir a situação seria, então, proporcional ao aumento dos problemas.

Assim, a Paraisópolis de hoje é problema urbano de uma São Paulo elitista e segregadora, que começa no início dos anos 1940 com um vetor de crescimento sem espaço para as classes trabalhadoras de menor poder aquisitivo — justamente as que constroem a cidade calejando suas mãos.

É uma mancha urbana excluída do planejamento, de consideração e das oportunidades. A antiga malha ortogonal do loteamento original persiste, mostrando ser ainda muito viável intervir com investimentos que promovam integração com o bairro ao redor. Não será fácil e nem de uma hora para outra; hoje isso é como montar numa baleia e tentar manobrá-la, mas que opção temos? Saber que é possível já é muito estimulante, então por que não fazer?

O entrave se dá pelo método. Tudo depende de planejamento e investimento e isso a nossa cultura despreza. Se feito com a competência que não temos levaria pelo menos uma década, mas os problemas seriam resolvidos. 

Não há outra opção e o caminho é óbvio: problemas decorrentes da falta de planejamento urbano são corrigidos com planejamento urbano. A polícia tem uma função importante na cidade, que é garantir a proteção do cidadão, mas precisamos entender a redundância de que “todo o perímetro da cidade é a mesma cidade” e transformar esta consciência em ação. Oprimir pessoas é implantar estado de sítio sem apontar para possíveis saídas. São Paulo tem de deixar de reforçar o atraso que se dá com uma gestão urbana que é mera gestão (para manutenção) do subdesenvolvimento.

Paraisópolis também é parte da cidade e, como todas as outras partes, merece ações de melhoria em sua infraestrutura, paisagem e qualidade de vida como estímulo à criação de oportunidades. Investir em violência oficial como estratégia de intimidação e controle social coercitivo é o pior investimento a se fazer em qualquer lugar. 

Enquanto isso persistir, será uma inadmissível sobreposição de violências produzindo mais violência.

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Na imagem que ilustra o texto, há um mapa para entender a implantação de Paraisópolis nos pontos indicados como A, B e C

O ponto A indica a descida do morro no sentido do fundo de vale onde temos hoje o Estádio e o ponto B o sentido da expansão imobiliária verticalizada. Os dois pontos estão ligados por uma linha sinuosa, que é a Avenida Giovanni Gronchi. 

A malha ortogonal (quadrícula) demarcada em azul é ocupada pelo bairro tradicional e pela favela. A mancha com a letra C é Paraisópolis. 

Consulte também o mapa daquele site lá (você sabe qual), na internet. Digite Paraisópolis e dê enter. Dá pra identificar tudo isso direitinho.

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