PARA QUE SERVE UMA CIDADE? _ (Parte III)
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PARA QUE SERVE UMA CIDADE? _ (Parte III)

Henrique de Carvalho

06 de outubro de 2019 | 06h30

Construção sobre camadas de cidade em Roma, Itália. (intervenção sobre foto; autor: Henrique de Carvalho)

_ E pra que serve uma cidade? Talvez ela exista para servir de suporte.

Se elas surgem informalmente, para abastecer quem passa por elas, o passo seguinte é tornarem-se locais onde ocorre a produção e envio de produtos para outras cidades, recomeçando o ciclo e favorecendo o surgimento de novas ao longo do caminho. Por isso, dizemos, cidades nascem de cidades.

A condição de estar na cidade é uma condição posterior, uma etapa do processo civilizatório — se bem que não sei se estar na cidade seja um reforço civilizatório ou uma máquina de fazer malucos. Certas pulsões instintivas são radicalmente reprimidas sem possibilidade de vazão por outros meios equivalentes. Precisariam ser sublimadas, mas não são. Vazam pelos poros. Diria então que civilização e não-civilização andam de mãos dadas, são irmãs siamesas.

O mito de formação do superego tenta justificar a vida eternamente contingenciada, oferecendo conformismo (ou adequação, como preferir) como antídoto para a frustração do sujeito consciente diante da impossibilidade de existir plenamente como fruto da natureza. Seria possível um modelo de análise semelhante, tentando explicar a vida na cidade e como isso ocorre?

Se for por Freud e a teoria da formação do superego, talvez as cidades exijam isso também delas mesmas, um superego da convivência coletiva, que suprima a vida natural para viabilizá-la em assentamentos mais estáveis (ou menos instáveis), tornando-se futuramente cidades. Se o mito edípico fala do sujeito que quer tomar a mãe pra si e mata o pai, será que o Édipo da urbe quis um dia tomar a cidade para si e matou todas as pessoas que nela habitavam? Só a conjectura já vale pela diversão, sem preocupação com a resposta de fato.

A cidade é mero recorte de análise — e nosso tema aqui. Poderia ser substituída por outros núcleos: família, igreja, partido, aos amigos do futebol de quarta à noite, o grupo no aplicativo do celular, operários de uma fábrica, associação de bairro. É um modelo de estudo supercomplexo ao ponto de ser impossível descrevê-lo em todos os detalhes. Mas talvez um pouco de história nos ajude a entender melhor.

As muralhas das cidades antigas eram feitas prevendo seu crescimento. Ou seja, no início, os sujeitos estavam longe dos limites. Havia espaço para o improviso, para a criatividade, para propor modos de fazer estando lá dentro. Na medida em que cresciam, essas cidades, feitas de pedra, tornavam-se rígidas, literalmente duras em suas estruturas físicas e sociais. Como acontece com os átomos, quando comprimimos uma porção de ar, por exemplo, compactamos seu volume sem modificar a massa. É a mesma quantidade de átomos, agora vibrando mais próximos uns dos outros. Do mesmo modo, nesta cidade mais compacta (mais adensada), deixa de haver espaço para a criatividade, é uma condição mais densa e mais tensa.

Sempre houve quem se agregasse pelo lado de fora. Gente que ia grudando suas construções na muralha ou perto dela. Se ali fora havia menos garantias, havia também mais espaço para o improviso, para fazer diferente. Uns estavam ali por contingência. Faltavam-lhes algumas condições que permitissem a entrada no espaço de estruturas mais estabelecidas. Nem queriam estar ali fora, preferiam a rigidez intra-muros, mas não havia opção. Outros não. Estavam ali por coragem, com mais acesso à liberdade. Com o tempo o conjunto todo cresceria, integrando os agregados, alargando os limites e pondo um novo muro mais para fora.

Superar o muro é ir além do adestramento, da falsa vontade, da introjeção de limites não escolhidos; é movimento desejante em favor da vida a pulsar verdadeiramente. Para o espírito livre, a realidade não é o que há, mas o que é possível a partir do desprendimento, desatrelando-se de contornos imaginários e convencionais — superstições para as quais somos cegos –, explorando os movimentos de uma imaginação generosa, criadora da realidade e capaz de produzir, a partir da realização de si, um campo expandido para todo o corpo social. 

Não é simples. Conformar-se ao que está dado e às opções disponíveis, limitadas, é ser cativo do mito fundador. É preciso coragem para colocar-se fora dos muros da cidade. Há quem diga não haver meio de se livrar do desenho anterior, por tratar-se de uma existência há muito cristalizada. Seria mera variação repondo o mesmo sistema, disfarçado de novo, na versão seguinte. Mera duplicata da versão anterior. Se assim for, é porque ainda não surgiu o novo.

Feitas umas sobre as outras, cidades muito antigas já enterraram repetidas vezes sua versão anterior. Sepultá-las é uma prática. A base original do muro do templo, em Jerusalém, está 20 metros abaixo da cidade atual, cujo calçamento do centro histórico encontra-se já há uns 700 anos no mesmo nível de hoje. Há vezes em que os limites da cidade não se encontram diante de nós; estão sob nossos pés.

A cidade na qual se deseja viver é feita de cada gesto, com coragem e consciência. Só assim se constrói o mundo no qual se deseja habitar, a vida na qual se deseja estar, o ar que se deseja respirar, a paisagem que se deseja ver. Não assumir esta responsabilidade é deixar a cidade para o inconsciente e entregá-la àquilo que vaza pelos poros. Talvez fosse prudente abrirmos uma Secretaria da Gestão do Inconsciente Municipal, porque a coisa não está fácil. Aquilo que as pessoas fazem a partir de seus conteúdos reprimidos — violência, mesquinharia, desleixo, raiva, desesperança, coisas que ninguém quer encontrar dentro de si — tomaram conta da produção de nosso habitat.

Cidades são representações da própria cultura em suas dinâmicas, ou seja, são expressões de nosso funcionamento mental coletivo desdobradas no território. Cidades são cérebros, sistemas nervosos complexos, consciente e inconsciente em movimento, como numa dança de cardumes. Não são o que são, mas o que queremos que seja. Podemos até achar que algo não é o que queremos, mas é. Ou podemos achar que não fomos nós quem fizemos, mas fomos. Freud explica. Jung explica melhor.

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Leitura recomendada: “A metrópole e a vida mental” de George Simmel.

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