Nunca mais encostam no meu carro
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Nunca mais encostam no meu carro

Henrique de Carvalho

01 de dezembro de 2019 | 06h45

Ilustração para blog inspirada no episódio

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho)

Repare nas ruas e em como as relações andam se dando meio tortas. Relações simples, às vezes sem palavras. Motoristas e pedestres, pedestres e carros estacionados, ônibus e motoqueiros, motoqueiros e leis de trânsito, como as pessoas se comportam no metrô lotado, o jeito como alguns motoristas de ônibus dirigem desprezando os efeitos da inércia sobre os passageiros. 

E não é só no trânsito. Observe o modo como as pessoas falam com os garçons, com os caixas, com os atendentes, vendedores, com os pais, com os filhos, com os colegas de trabalho. Perceba o semblante das pessoas atravessando o farol, esperando o ônibus ou já dentro de algum transporte coletivo, entrando no táxi, na fila do aeroporto, lavando a mão no banheiro público, almoçando em dia de semana.

Há uns quatro anos venho observando a aridez se intensificar até sobre o que é inanimado. A pracinha perto de casa, cuidada por uma academia, foi ficando cada vez mais suja e tornou-se malcheirosa de tanto lixo depositado ali irregularmente. 

Nos semáforos, motoristas aceleram ainda parados, impacientes com a luz verde que não acende logo. Motoqueiros andam na contramão, sobre a calçada e em ciclovias, sem cerimônia.

Caminhões barulhentos começaram a passar pela rua de trás do prédio em que morava, importunando o mundo inteiro às três, quatro da manhã. Diariamente. Carregavam caçambas vazias, empilhadas, batendo umas nas outras, apanhando das grossas correntes usadas para erguê-las, tudo batendo em tudo, mais o caminhão barulhento a chacoalhar. Um som muito agradável, música para quem dorme, como podem imaginar. Trafegavam só por determinadas ruas onde lhes era permitido circular, porque nas outras, diziam, estariam proibidos de fazê-lo. Difícil ser verdade, mas sei que independente de onde estivesse meu quarto, ali mesmo é que seria o caminho deles, toda madrugada, debaixo da minha janela e por dentro da minha cabeça.

Meu carro sempre parei na rua e, mesmo à noite, ele era bem tratado. Nunca riscavam, nunca batiam, nunca roubavam partes. Até que, de uns anos pra cá, a coisa mudou e começaram a aparecer índices de hostilidade por todo lado. O coitado, vermelhinho, tão bonito, passou a ser riscado, amassado, raspado. Roubaram até a palheta do limpador traseiro. As pessoas começaram a estacionar pressionando seu pára-choques — pra quê? — e na mesma época um caminhão desses das caçambas bateu nele.

“Conte-me mais sobre isso.”

Quando na vaga, da frente ou de atrás, não cabia o carro dos fulanos, eles perdiam a vergonha e literalmente empurravam o carro da frente encostando seus para-choques e acelerando. Além de amassar e estragar a pintura, quem é a anta que imagina ser possível sair dali estando preso por outro carro? Pra mim, isso é prova de mau caratismo. Entrevistas de emprego deveriam, no lugar do bobinho “Conte-me um defeito seu”, perguntar “Você acha certo estacionar encostando no carro dos outros em alguma circunstância?”. Se a pessoa não achar um absurdo, está fora, não tem boa índole, não é confiável.

Acho hilário o episódio de Friends em que o carro clássico esportivo do Ross fica trancado dessa mesma maneira e os amigos vão ajudá-lo gritando “Vem!” e, logo em seguida, “Pára!”, repetindo imediatamente um após o outro. Minha esposa tem todas as temporadas do seriado — que mulher! Não cansamos de rever a cena. Só de lembrar nós sempre caímos na risada. 

É engraçado porque é o Ross, uma ficção, e eles são palhaços mostrando como a vida é inconveniente. A gente ri do personagem, mas ele ali é vítima do caos e da insensatez. A gente ri porque é pra chorar e não dá. Daí rimos de raiva. O ridículo está justamente na situação com a qual ele tem de lidar, e não nele. Ele é professor PhD em paleontologia atuando em Nova York e condenado à imobilidade pela burrice, pela inconsequência e por outras características prejudiciais que, ao mesmo tempo em que são muito grandes e pesadas, são as engrenagens do sistema. Nós rimos com a cena porque amamos o Ross, e amamos o Ross porque odiamos quem gruda em nossos carros ao estacionar.

Sou, como o Ross, um pateta. Mas passar pela mesma experiência não tem nenhuma graça para qualquer ser humano real. Até pra rir de si mesmo tem limite. Rir de si mesmo é bom quando a gente tropeça, gagueja, fica ansioso, dá um fora, cumprimenta errado, pinga molho de tomate na camisa branca. Disso a gente ri, é saudável. Mas não dá pra rir da burrice maldosa a nos prejudicar com violências sutis, mas recorrentes. 

Ao volante a gente descobre que todo mundo é malandro e desrespeita a lei porque “É só de leve, só pra eu dar um jeitinho aqui e resolver meu lado”. Isso faz das ruas de São Paulo uma arena romana. Uma arena romana e um simulador de cágados. Essa lerdeza, que dizem ser civilizatória, veio para ruir o pouco da paz de espírito que nos resta. É o castigo pelo que fizemos da cidade. Condenamo-nos a aceitar o ridículo como última alternativa para reduzir os engarrafamentos. Funciona, mas dá raiva.

Hoje, como moro perto do trabalho, vendi meu vermelhinho. Estou muito melhor sem carro, e que economia! Não pago mais seguro, não tenho o desprazer de pagar cinco contos na gasolina ou quase quatro no etanol, livrei-me de recusar as sugestões de aditivos desnecessários, de palhetas novas para substituir as minhas palhetas novas que sempre estavam velhas, das revisões, dos consertos, das trocas de pneu e de ouvir da oficina “Olha, fui mexer no câmbio e vi que vai precisar trocar também os amortecedores, o freio, as lâmpadas, o óleo, o chassi, os bancos, o escapamento e o parafuso do volante”.

Os tempos andam bicudos demais pra gente ficar se relacionando sem precisar. É hora de se recolher, falar menos, se afastar, observar mais, pensar mais, refletir mais, desviar de ondas sonoras propagadoras de bobagens, voltar aos livros, ao estudo, à escola, ao respeito silencioso. Ninguém mais estaciona colado em meus para-choques, pois não os tenho mais. Mesmo quando a ignorância quer se aproximar, afasto-me dela. O Ross também vendeu o carro alguns episódios depois.

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