Muros e mais muros (aquilo que há entre nós)
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Muros e mais muros (aquilo que há entre nós)

Henrique de Carvalho

23 de maio de 2019 | 06h30

Muro de Berlim. A maior materialização, depois da muralha da China, do que é o medo do outro — esse desconhecido e, hipoteticamente, incontrolável. Muro que não cai na realidade se não cair antes em nossas mentes demarcadas pelo medo do que não sabemos.
[Imagem do autor / Interferência sobre foto disponível em http://infograficos.estadao.com.br/especiais/muro-de-berlim/]

Muros e mais muros. Cada vez mais a paisagem da cidade é feita de muros, muros, muros, muros e mais muros. É o papo mais anos noventa que eu poderia levar por aqui, mas ele segue pertinente. 

Antes dos anos noventa o aumento de muros feitos para aumentar a privacidade e proteger pela altura já era criticado. Casas grandes de muros inexistentes quando construídas, a partir dos anos 70, começaram a subir seus muros e colocar portões gradeados nas garagens. Nos anos 80 o fenômeno foi se intensificando e a “vanguarda da segurança”, nos bairros mais chiques, caminhou no sentido de fechar mais as frentes das casas, adotando planos de madeira ou metal que deixavam ver já bem pouco do que estava dentro.

Nos anos 90, as residências começaram a se fechar mais radicalmente e veio a primeira subida de muros — ainda hoje esse remendo para o alto é bastante visível nas casas do Morumbi. Passaram a ter entre dois metros e meio e três metros, quando baixos. Crescendo tal qual torres de Babel, hoje muros de seis metros ou mais são recorrentes nos bairros em que residem as classes mais abastadas.

Não é incomum a TANTA (meu escritório-ateliê) receber clientes que, durante a entrevista para o projeto, preocupam-se em saber quão alto pode ser o muro para tê-lo o maior possível. Muitas vezes precisamos explicar que um muro excessivamente alto acaba sendo ruim, pois bloqueia demais o sol, deixa a casa escura, úmida, prejudica a circulação de ar. Nem sempre a percepção do outro sobre o que é excessivamente alto coincide com a minha, mas conversando mais a respeito sempre encontramos uma saída criativa.

Sem perceber, as pessoas vão se protegendo tanto que acabam voltando a morar em cavernas, retomando a ambientação de grutas paleolíticas, com a diferença de terem os desenhos do lado de fora, feitos com spray. O medo tem dessas coisas, é um instinto muito primitivo. Está na base da sobrevivência das espécies animais e, no limite, nos leva de volta aos esconderijos subterrâneos — sejam eles literalmente subterrâneos, como no caso de abrigos contra bombas, terremotos e tornados, ou metaforicamente subterrâneos, como no caso citado de casas que recapitulam uma atmosfera arcaica decorrente do medo — demasiado e inconsciente.

Desde o início dos anos 2000, o tamanho por si só tornou-se insuficiente para aplacar o medo de sabe-se lá o quê que o outro possa fazer — o outro, esse desconhecido hipotético e incontrolável. Às muralhas rudimentares somaram-se cercas de barricadas, câmeras, sensores de pressão, alarmes com raio laser e a terapia de choque (ora denominada cerca eletrificada) contra a invasão da barbárie — a barbárie do outro, aquele desconhecido hipotético e incontrolável. Diante da hipótese, mera hipótese, de um outro sem limites e fora de controle, os de dentro se protegem sem limite de meios e sem controle sobre as próprias emoções. Assim, nesse trabalho que não é de formiguinha mas de cupim devorador, a paisagem da cidade torna-se cada vez mais horripilante.

Nos anos 90 as cidades passaram a ser criticadas pela crescente altura dos muros. Falar disso hoje é falar o mesmo que se dizia naquele tempo e até antes. O fim dos portões baixos nos anos 70 e 80 mudaram a paisagem dos bairros. Ruas sem visão para os lados tornaram-se cada dia mais parecidas com túneis abertos só no topo. No limite dessa experiência está Manhattan, que só deixa ver uma nesga de céu por entre seus prédios gigantes.

Lembro-me sempre de uma entrevista com o artista plástico Guto Lacaz, que ouvi na Trip FM. Nascido em 1948 e formado em arquitetura e urbanismo, conta que quando menino saía para passear com a família e caminhar pelos bairros da cidade, onde via belas casas sem muros ou de muros baixos e frente ajardinada — como se dissessem delicadamente “ó, o limite é aqui, tá bom?”. Guto seguiu contando que, ao caminhar, podia-se aprender intuitivamente sobre proporções, composição de formas, arquitetura, estruturas, texturas, paisagismo, escultura, ornamentos, campo visual. A cidade permitia aprofundarmo-nos nela ao mesmo tempo em que permitia a ampliação — o aprofundamento — do campo visual. Aos passantes concedia-se acesso a certos caprichos e belezas privadas, tal como o desenho das casas e seus jardins mais sofisticados. Era uma condição de vida mais elaborada, pois pressupunha a civilidade do outro — o outro, esse desconhecido hipotético, vejam só, nem sempre esteve fora de controle.

A arquitetura faz a cidade num jogo de ver e ser visto. Mesmo quando o mostrar-se é ostentatório, só o fato de ter o que mostrar — que não seja um muro ou portão opaco — torna a experiência da caminhada mais positiva. Assim como quem usufrui o jardim do Museu do Ipiranga aprende alguma coisa, também um belo jardim anônimo, exposto em frente a uma residência particular, nos faz melhores à medida que reincidem momentos de alumbramento estético. Quando o acesso à beleza é negado, normalizamos o que é precário e depreciamos aquilo que, um dia, foi objeto de nossa apreciação por não sabemos admirá-lo e aprender com isso. Mas quando se nos oferece este acesso, pensamos-passamos pra fora da paisagem de nossas bolhas e imaginamos que todo fazer pode ser fazer algo belo — belo por princípio e não por exigência adicional.

Tendências: