Morre Paulo Mendes da Rocha
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Morre Paulo Mendes da Rocha

Henrique de Carvalho

24 de maio de 2021 | 00h44

ilustração para texto do blog Henrique de Carvalho

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho)

“Paulo Mendes da Rocha foi um poeta da forma, da linha reta e da precisão, contraponto complementar ao Oscar Niemeyer de curvas e informalidade. Hoje, infelizmente, perdemos o arquiteto do concreto flutuante. É a vida nos lembrando que os gênios da sensibilidade também partem. Paulo Mendes fez de seus edifícios, cidade. Devemos ser gratos ao seu trabalho, seu esforço, sua generosidade e por sua arquitetura também generosa, que permanecerá como exemplo de um mundo melhor, mais aberto, mais justo, sem barreiras para o olhar.”

Soube hoje à tarde (domingo, 23 de maio), da morte de Paulo Mendes da Rocha. Um dos dois arquitetos brasileiros a receber o Pritzker (2006), uma espécie de Nobel da arquitetura, e o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza (2016), um Oscar da profissão. O outro foi Oscar Niemeyer. Ganhou também o Prêmio Mies Van Der Rohe (2001), o Prêmio Imperial do Japão (2016), e a medalha de ouro do Instituto Britânico de Arquitetos (2017).

Autor de inúmeros projetos de destaque, despontou como jovem talento em 1958, quatro anos após sua formatura, ao vencer o concurso para o ginásio do Clube Atlético Paulistano, premiado na Bienal Internacional de São Paulo em 1961. 

Ainda nos anos 60 e 70, envolveu-se em outros tantos projetos nas mais variadas escalas: casas, prédios, edifícios de uso coletivo, prédios para o governo, agências bancárias, escolas. Caçado pela ditadura militar em 1969, durante a vigência do AI-5, contou certa vez que passou mais de dez anos como corretor de imóveis, fazendo poucos projetos neste período.

A segunda fase mais pujante de sua carreira talvez tenha começado com o projeto para o MuBE, Museu Brasileiro de Esculturas, concluído em 1988 e, infelizmente, pouco explorado como equipamento. Atualmente está com uma belíssima exposição comemorativa ao centenário de Amílcar de Castro (https://www.mube.space/), com data de encerramento inicialmente programada para hoje, 23 de maio, e que espero seja estendida por mais uns 2 anos, pois merecemos conviver mais tempo com algo tão excepcional — ainda mais nesses tempos bicudos.

Em 1998 a Pinacoteca do Estado de São Paulo foi reinaugurada, com reforma de Paulo Mendes da Rocha em parceria com Eduardo Colonelli e Weliton Ricoy Torres. Este talvez tenha sido seu projeto mais bem-sucedido, uma intervenção cuidadosa em edifício do século XIX, totalmente rearticulado pela inserção de pontes metálicas cruzando o vão central, originalmente um pátio descoberto. Exemplo de sua delicadeza, neste projeto, foi a adoção dos mesmos contornos das barras metálicas sob os vagões de trem no desenho das vigas para as passarelas de um museu em frente à Estação da Luz, e num contexto em que boa parte do aço produzido no país provém da reciclagem de antigas estruturas ferroviárias.

Nos anos 2000 projetou a reforma com ampliação do Centro Cultural no Edifício da Fiesp. Toda em estrutura metálica, instala-se como clara e respeitosa acoplagem ao prédio de Rino Levi. Mais recentemente, desenhou o Museu dos Coches, em Portugal — parceria com Bak Gordon Arquitetos e MMBB, escritório parceiro no suporte ao desenvolvimento técnico de seus projetos –, e o SESC 24 de Maio, importante equipamento cultural e esportivo no centro de São Paulo.

Diferente da impressão que alguns possam ter, Paulo Mendes era bem mais jovem do que Oscar Niemeyer. Se este nasceu em 1907, aquele era de 1928. Ou seja, tinha trinta anos em 1958, data do Clube Paulistano, contra 51 do carioca que viria projetar os edifícios de Brasília em 1960. Assim, se Oscar Niemeyer foi o modernista contemporâneo à juventude deste movimento em arquitetura, Paulo Mendes da Rocha inicia sua prática quase simultaneamente aos primeiros rompimentos pós-modernos nos Estados Unidos e Europa. Foi, de certo modo, um modernista tardio, como grande parte do nosso modernismo em arquitetura, que segue vigente por atuarmos ainda com base naquelas fundamentações do final do século XIX e início do século XX.

Paulinho, como o chamavam os mais próximos — grupo do qual infelizmente não cheguei a fazer parte –, reforçava em seus projetos a preocupação em ser cidade. Há tempos não se interessava mais por casas unifamiliares em grandes terrenos por achá-las obsoletas diante da necessidade de urbanidades mais adensadas e conectadas. Gostava de falar da maravilha que eram os tubos levando água até o trigésimo andar de um prédio, do engenho ali contido. Neste ponto, sua arquitetura tem mesmo muito de engenhosidade — e até de engenharia –, fosse pela influência de seu pai engenheiro, com quem aprendeu a maravilhar-se diante da mecânica das eclusas fluviais, pelo seu espírito modernista jamais abandonado ou mesmo pela abordagem essencialista que a escola paulista — essa da arquitetura em concreto aparente — emprega em seus projetos com crueza de infraestrutura viária nas soluções técnicas, expostas quase didaticamente em suas obras. Muito elogiosamente, incluo como engenhosos aqueles gestos precisos que definem sinteticamente suas intervenções na Pinacoteca e no Edifício da FIESP, por exemplo.

Sua obra é a de um humanista como a de poucos que nos restam em tantas áreas do pensamento. Em seu projeto maior, a obra é o homem: íntegra e pensada para que o ser humano possa potencializar-se nela e a partir dela. Dificilmente vemos isto nos projetos em geral, inclusive naqueles pretensiosamente acima da média — que é bem baixa, devido a fatores que pularei hoje. Costumam ser geometrias óbvias, contendo espaços meramente funcionais e tentando fazer graça na fachada ao confundir talento em arquitetura com populismo — e não falo aqui dos gigantes da arquitetura mundial, mas de nossa produção brasileira mesmo, pobre e inexpressiva no contexto planetário. 

Em 2020, seu acervo foi doado à Casa de Arquitectura de Matosinhos, na região do Porto, em Portugal. O evento dividiu opiniões, alegando que o Brasil é quem deveria conservar uma coleção como a dele. Infelizmente, se já dizíamos que nosso país ainda precisa poder merecer Oscar Niemeyer, é também necessário chegarmos às condições de conservar acervos como o de Paulo Mendes antes de nos anteciparmos ao que não conseguimos fazer — Instituto Butantan, Museu Nacional, Museu da Língua Portuguesa, acervo do Hélio Oiticica e UFRJ que o digam; e não por culpa das instituições, que se desdobram heroicamente para seguir existindo.

Se a pós-modernidade veio nos apresentar uma nova e rica matriz de pensamento, nossa geração terá de conviver com o triste fenômeno contemporâneo que é assistir à partida dos últimos modernos, homens que acreditaram em um plano para melhorar o mundo, com a razão a nos livrar da barbárie.

Há alguns anos, numa entrevista, o arquiteto comentou que “a cidade serve para que a gente possa conversar”. Todo mundo replicou, achou bonito, poético, singelo. Na época pensei ser uma frase bonita e sem muito sentido. Fiquei pensando em São Paulo e a gente saindo na rua pra conversar por onde passa, falando com todo mundo na padaria, no supermercado, no banco, na loja de sapatos, na calçada, nos peitoris das janelas, no metrô. Para mim, foi como se tivesse afirmado que a cidade existiria como elogio ao chato da fila da farmácia Não fazia sentido.

Mais recentemente, andando na Avenida Paulista, avistei há um quarteirão de distância Paulo Mendes da Rocha em sua versão Paulinho. Muito elegante, com seu indefectível bigode, casaco e guarda-chuvas, conversava com uma senhora que parecia ter sua idade — uns 65 anos, pois ele jamais pareceu ter 92. Quis fotografar, mas minhas recordações irregulares dizem que a bateria do celular acabou naquele exato momento. Ainda que esteja errado e a foto exista, não era para existir por estar tão aquém do momento. Vi ali uma outra dimensão. Uma São Paulo romântica, como a dos anos 40, 50, 60, gentil, animada, gostosa de se morar, interessante, boa praça, onde as pessoas se encontram e conversam. Uma cidade como todas as outras, feita de gestos, onde temos tempo para conversar, para a troca e para a construção de relações interpessoais saudáveis. A cidade do Paulo era muito civilizada e fiquei com inveja. Claro que não fui lá interrompê-los, quem sou eu pra interromper o sagrado?

Diante da cidade do Paulinho, percebi-me tosco, parte dos defeitos dela, uma ostra, um silvícola, e vi como fui burro ao não entendê-lo. Na verdade,  queria era viver na mesma cidade que ele. 

Paulo Mendes da Rocha viveu numa cidade muito melhor do que a minha, ainda que estivéssemos ambos numa demarcação chamada São Paulo. Foi um gênio que saiu da lâmpada, para dividir conosco, nos gestos contidos em sua obra, o mundo melhor trazido dessa outra dimensão na qual vivia.

Leia AQUI matéria com depoimento do autor.

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