João Gilberto, a estrela e o grão de areia
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João Gilberto, a estrela e o grão de areia

Henrique de Carvalho

13 de julho de 2019 | 15h49

Imagem do autor (Henrique de Carvalho)

Fui pego de surpresa pela partida de João Gilberto.

Toda vez que perdemos alguém de sua geração, penso que foi-se ali o representante de uma outra civilização, mais amorosa, mais sensível, mais ousada, para a qual não há peças de reposição. Diante da barbárie de nossos dias, essas perdas tornaram-se mais assustadoras. Cada vez que um deles se vai, corro novamente a lista em minha memória: Oscar Niemeyer, Ferreira Gullar, Eduardo Coutinho, Antunes Filho, Abujamra, Miúcha. 

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João Gilberto foi pai de todo mundo, Caetano, Gil, Chico, Tom Zé, Gal, Bethânia, Elis, Zimbo Trio, dos deuses do Olimpo à gente aqui de baixo. Com sua batida estranhamente sedutora por sua diferença, influenciou muito além daqueles que ouviram Chega de Saudade quando de seu lançamento. Ainda criança, sua música fez minha cabeça de pobre mortal antes mesmo de os Beatles aparecerem em minha vida. 

Chego a inventar uma lembrança bastante plausível, mero devaneio, com Tom Zé exaltado, alegre e pasmo, a indagar “Como é que uma pessoa ousa criar uma coisa assim tão maravilhosa? Talvez João nem soubesse, mas o que ele fez é de uma beleza tão grande que chega a nos envergonhar diante de nossa vida miserável, de nossa capacidade tão limitada para inventar o que é bonito, incapazes que somos de transformar o violão numa experiência transcendente e sublime, num canto de sereia, a hipnotizar quem ouvir até um chiado que ele fez sem querer.” 

Realmente a Bossa Nova é uma afronta. Eu também achei.

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Descobri João Gilberto nas serestas familiares, devia ter uns oito anos. Não sabia dele, mas já gostava do estilo. Naquele tempo Tom Jobim ainda era vivo e de vez em quando aparecia na televisão. Assim aprendi o que era bossa nova, associando o nome à coisa. 

Lá pelos dezesseis anos decidi dedicar-me seriamente ao estudo de guitarra. Achava que tocava desde os doze, mas não sabia fazer nada além de uma dúzia de solinhos principiantes. Mestre Ivan foi me apresentando os clássicos da Bossa Nova no meio das aulas em que aprendia acordes básicos e noções de harmonia. É claro que inicialmente eu queria tocar rock, pensava, mas ao ouvir acordes tão dissonantes e ver os dedos da mão esquerda em aberturas estranhas e precisas, músicas de notas que não se repetem, com uma batida quebrada, aparentemente difíceis, pensava “eu quero é tocar isso aí, essa bagunça de sons que amei desde sempre e procurava reencontrar”. Bossa Nova, pra mim, era o nível hard da guitarra, mas uma hora consegui. Ali aprendi também a manejar o violão e a tocar a tal da batida diferente inventada por João Gilberto. Enlouqueci. Estudava de quatro a seis horas de guitarra todos os dias e até Guns n’ Roses comecei a tocar em ritmo de Bossa Nova.

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Nunca mais larguei meu violão.

Na faculdade de arquitetura projetava ouvindo Bossa Nova, pra cultivar a relação e aprofundar a intimidade sensível com a sinestesia daqueles sons. Queria criar atmosferas que retomassem as criadas pelo estilo do baiano, desdobrado por tanta gente boa em tantas músicas irretocáveis. 

Uns amigos caretas nem entendiam direito, “essa música antiga, de uma cidade que já foi ou nem existiu”. “Que se dane”, pensava, “não estão entendendo nada.” Estava ali estudando a poética de uma atmosfera brasileira muito significativa com a qual me via obrigado a dialogar, dada a monumentalidade de sua calma beleza. Falava de Francis Bacon pintando o papa Inocêncio X a partir de Velázquez, mas eles estavam presos demais à representação figurativa de idéias fonéticas para entender.

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A atmosfera bossanovista sempre foi muito elegante, sempre me remeteu a espaços generosos, abertos, desimpedidos, à beleza, à sensualidade. Bossa Nova pra mim era o Burle Marx, o Aterro do Flamengo, Reidy, Irmãos Roberto encaixando o condomínio Pedregulho ao pé do morro, Lucio Costa no Parque Guinle, com aqueles apartamentos geniais e jardins imensos conduzindo aos acessos, Niemeyer falando de mulher na Casa das Canoas, o MAC Niterói, o Pavilhão da Bienal entrando e saindo do meio das árvores, as plantas livres do Paulo Mendes da Rocha, Rino Levi, as fachadas vivas de Franz Heep, o projeto de Brasília, a casa do Joaquim Guedes no Morumbi, os croquis do Acayaba, aquelas casas horizontais do Oswaldo Bratke e o próprio Le Corbusier — não há estilo musical que o represente melhor do que a Bossa Nova.

Gosto de lugares onde se pode sentir o vento, onde as plantas fazem barulho e a areia no chão se move. Mesmo que seja no centro de São Paulo. Imaginar que a praia pode estar por perto é minha fuga pra tranquilidade. 

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Fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez ainda aluno da UNESP, para conhecer a cidade e sua arquitetura moderna. Ao adentrar a sinuosidade de seus caminhos de pedras e florestas com incrustações edificadas, entendi a cidade transformada naquela experiência sonora. Foi simples e ao mesmo tempo uma epifania reveladora. Estava ali no Rio pra conhecer tudo aquilo, o monumento que foi o modernismo carioca — estudei incessantemente os modernismos ao longo de todos os anos da faculdade –, e isso pra mim era estudar, também, a Bossa Nova.

Nunca quis imitar o modernismo, ou variar a sua forma repetindo-a numa espécie de botox arquitetônico que temos visto redundar em nossas cidades. Estudava-o para compreender importantes valores humanos ali colocados e porque queria me enfronhar na pós-modernidade, entender do que se tratava e caminhar a partir dela. 

Mas o modernismo carioca foi nossa vanguarda mais significativa, leve, poética e generosa como os paulistas raramente conseguiram ser. Talvez tenha sido assim porque o Rio é assim, a beleza carioca é assim e a Bossa Nova é assim. A Bahia tem um jeito — ainda mais quando é no Rio de Janeiro.

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Depois de formado, voltei pra São Paulo e fui trabalhar num escritório carioca, com Cecedo e Thiago. Sentia-me mais à vontade ali do que nas estruturas formais e rígidas dos escritórios da capital paulista. Ali, naquela embaixada do Rio de Janeiro, produzia-se uma espécie de minimalismo adoçado pelo espírito da Bossa Nova. Ali sentia-me perto do mar, trabalhando numa arquitetura mais solta, mais aberta, mais integradora e de atmosfera menos Batman.

Os cariocas parecem saber no corpo que a arquitetura precisa ressoar o barulho do mar. Precisa ser como pular na água em dia de sol e estar à sombra de uma árvore. Na falta de um nome, passei a chamar essa atitude diante da vida de “espírito aberto”.

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Um dia me apaixonei por Maria Bethânia. Escrevi sobre ela no texto de um trabalho grande que fazia. Procurei algo pra dizer que na voz de Bethânia qualquer suspiro é obra de arte. Caetano Veloso havia escrito que “melhor do que o silêncio, só João”, frase repetida no título das matérias recentes sobre a morte do gênio. 

Naquele dia, escrevi, “Na voz de Bethânia qualquer cochicho é monumento.” Naquele dia, pra mim, Bethânia era João Gilberto.

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Sinto-me endividado com o mestre e não sei como pagar. Não tem como. 

Tal Niemeyer, João ensinou que a sensualidade é um muito dentro de muito pouco — uma linha curva, um desenho musical. 

Pensei em dedicar-lhe um minuto de silêncio, mas desisti. Elevarei o minuto de silêncio a algo maior, infinitamente mais exuberante, tal qual estrela em relação ao grão de areia. 

Ouvirei João Gilberto que é melhor.

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