Já-já cai outro prédio com gente dentro.
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Já-já cai outro prédio com gente dentro.

Henrique de Carvalho

25 Junho 2018 | 07h00

SÃO PAULO – SP / 04.05.2018 / Bombeiros retiram corpo encontrado nos destroços do edifício que desabou apos incêndio. FOTO AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO

Em 1º de maio desabou em São Paulo o edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paiçandu, centro da cidade. O comprometimento estrutural detectado após avançado processo de degradação — por falta de manutenção — era um dos fatores para que estivesse desocupado.

Vazio, icônico e degradado, o prédio de 24 andares era ocupado por um dos grupos do movimento por moradia na cidade.

Primeiramente, destaco que considero os movimentos sociais, a princípio, todos legítimos e não tenho intenção aqui de desqualificá-los. Nossa sociedade se caracteriza pela precariedade em todos os aspectos e as demandas mais urgentes pedem ações mais radicais.

Sabemos que os ocupantes não tiveram culpa na escolha de um prédio já comprometido. Contudo, se o movimento pudesse escolher um péssimo imóvel para ocupar, escolheria aquele. Além do já citado, era um prédio envidraçado, dependente de ar-condicionado ou da ventilação cruzada em andar livre de divisórias, um desenho muito específico para atender espaços de trabalho e cuja conversão em moradia seria, senão impossível, irracionalmente onerosa e de resultado duvidoso.

O problema do prédio nunca foi o movimento.

Diferente do olhar generalizado com foco na polêmica fácil, que tratou do evento queda versus a ocupação, outras questões me movem até o ponto da queda do edifício. Como um prédio público, de tamanho vulto, chega ao ponto em que sua estrutura está comprometida? A versão original dele é um ícone lindo e preservado, um prédio norte americano que dizem ter inspirado a fachada e a composição de volumes, quando na verdade eles foram quase literalmente copiados. Por quê o nosso ícone cai e o ícone gringo não cai? Como aquele edifício, mesmo precisando de reformas, deixa de servir como base para operações municipais ou estaduais? Sua localização era estratégica, sua arquitetura atenderia muito bem a qualquer uso comercial ou institucional, sua imagem era marcante e trabalhar ali seria inspirador para qualquer departamento. Por que saíram de lá? Por que em determinado momento ele deixa de ser adequado? Por quê essa frescura de os governos ficarem relocando departamentos num processo infinito de ocupar-desocupar prédios. Esse povo não trabalha?

Iniciaram-se nesta hora, num passado bem mais remoto, ações sem sentido e um ciclo de absurdos passou a se desdobrar de dentro pra fora das paredes de cristal.

Edifícios ativos e inativos precisam de manutenção preventiva e devem passar por inspeções periódicas. “Deveriam, mas não passam…” Sim, eu sei, não passam. Mas deveriam. Há muita dormência e desânimo na vida brasileira. É o absurdo que passa a fazer sentido nas desculpinhas cotidianas pra toda vez em que alguém erra o gesto mais elementar, todo o malfeito que embala nossa vida e todas as bizarrices das quais temos de desviar.

Pense em muitas construções mal feitas e algumas bem feitas, ambas sem nenhuma manutenção. Seria alguma novidade pensar que, por alguns poucos motivos, uma coisa dessas, há muito tempo construída, cai?

O estado de dormência e o Estado de dormência

Por quê a esfera pública não faz o que deveria? — Não faz mesmo, já sei; a pergunta é retórica, só pra desfazer nosso estado de dormência. Finjamos apenas estar acordados para exercitar a reflexão a partir de um outro ponto de vista. — Falta algo, como efetivo, dinheiro, equipamento, tempo? Eles dizem que sim e a gente vê que não. Tomemos pois a decisão de nem discutir isto e pensemos no problema que não conseguem resolver. Deixá-lo ali, mofando, acumulando prejuízos pela manutenção nunca feita, sem destino, contribui como para a cidade, para a paisagem e para o bom funcionamento da administração pública nos demais pontos além deste? Será que agora outros prédios como este receberão atenção? Não, é claro que não.

Funcionários da prefeitura não passavam ali em frente no caminho para o trabalho? Eles não passam em frente de prédios no mesmo estado de degradação? Sabemos que vêem e sabem da situação. Por que não fazem nada? Por que nenhuma atitude é tomada? Ninguém tem uma boa ideia que mereça ser implementada? O que, de fato, os planejadores fazem na cidade? Desenham planos nunca implementados corretamente — sempre é “o que deu pra ser/fazer…” — e carimbam liberações para o conserto horroroso de ruas e calçadas? Ninguém faz nada? Estão todos esperando andar aquela denúncia enterrada no sistema? Estou caminhando na beira do simplista e do leviano, mas é proposital. É pra sinalizar o absurdo. Tudo o que é feito é tão pouco e ineficiente que é igual a nada.

O movimento social nunca teve nada a ver com a queda do edifício. Parece-me que a associação ocorre porque nos toca a dramaticidade do fato. Entretanto, a precariedade se junta antes, na precariedade de Estado.

Temos movimentos sociais legítimos demandando a viabilidade de algum tipo de moradia digna porque estamos em ambiente altamente precário. E o prédio cai porque estamos neste mesmo ambiente que cultiva um estado de coisas altamente precário. A tragédia é que ali havia um dentro do outro.

Estamos neste mesmo ambiente que cultiva um estado de coisas altamente precário. A tragédia é que ali havia um dentro do outro.

E agora?

Já passou algum tempo e ninguém fez nada. É óbvio e é isso mesmo.. Ninguém fez nada porque ninguém nunca faz nada. Estamos em estado de dormência (Estado de dormência?) até o próximo absurdo monumental vir se manifestar.

Só espere um pouco e virá um novo absurdo barulhento tentando fazer nosso Macunaíma gigante acordar. Já-já vai cair outro prédio, é só esperar. Por aqui as tragédias são anunciadas em megafone e tratadas como se fossem só mais um assunto pra se conversar, gastando palavras que não geram nada, desfazendo-se ao esbarrar na inércia de quem deveria fazer mas não faz. Há tão poucos fazendo que no reflexo geral ninguém está fazendo nada.

O absurdo se tornou a nossa transcendência. Atingimos a consciência do todo pelo nada. Esgotamos as palavras, todo o mais a dizer será redundância. Resta-nos a ação (alguma que seja, pra começar!), mas não assumiremos este compromisso — a não ser que ele se dê em estado (Estado?) meditativo no qual fazemos o “nada”. Se precisamos melhorar, investiremos esforços reforçando nosso estado dormente, inerte, um elogio à impermanência através da calamidade ao redor.

Só não vá se comover demais quando a tragédia se repetir; fuja da obviedade e deixe passar, siga inerte, porque logo tem mais, e mais, e mais, e tudo o que precisaria ser dito já foi. Não se gaste demais, todo mundo já sabe do que há pra falar. A gente sempre soube e ninguém está fazendo nada.