Já já cai mais alguma coisa
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Já já cai mais alguma coisa

Henrique de Carvalho

18 de novembro de 2019 | 06h30

Ilustração representando queda de passarela em São Paulo, novembro de 2019

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho)

Há um tempo escrevi sobre isso de que, já já, ia cair mais alguma coisa (link). Só não imaginava que seria tão rápido e em quantidade.

Recapitulando de memória: caiu um prédio no Rio, pegou fogo no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, Museu Nacional queimou inteiro e foi ao chão, prédio ocupado pelo MTST em São Paulo cai após incêndio, caiu um prédio  no Rio construído ilegalmente, caiu aquela ciclovia carioca duas vezes (aquela suspensa em frente ao mar), um viaduto em SP “rompeu”, uma alça de acesso na Marginal Tietê caiu, um prédio em Fortaleza caiu, um prédio em João Pessoa caiu. Aí essa semana caíram uma passarela na Marginal Tietê e a marquise de um prédio no Jardim Paulista.

Dá pra ver que nossas estruturas de concreto vão bem, obrigado. Mas só por precaução, não seria a hora de fazer uma inspeção rigorosa na Marquise do Ibirapuera? Ela já apresenta focos de infiltração, mesmo tendo passado recentemente por uma restauração eterna — quase me fez acreditar que a Marquise havia se tornado uma obra “em restauração” e ponto. Lembremos que no passado a estrutura já teve o anúncio de trechos condenados e depois voltaram atrás. Em breve a OCA, também no Ibirapuera, começará a apresentar algum problema. Nem pintam a coitada! É “o museu mais bonito do mundo”, segundo Paulo Mendes da Rocha, arquiteto que cuidou da restauração. Parece que os responsáveis pelo prédio discordam.

Não mexe que não dói

Quando minha esposa era criança e alertava “Pai, quando mexo meu braço assim ele dói, ó”, ouvia dele “Então não mexe o braço assim que não dói”. É um ótimo método para sanar problemas nas partes. Faça como se não existisse e isso passa a não existir. Não olhe e aí você não vê. Não mexa e então você não nota. Imagino que com as pontes das cidades seja da mesma maneira. Alguém diz “Precisamos urgentemente fazer uma inspeção nas pontes, pois há décadas não recebem manutenção adequada” e ouve “Então não vamos mexer nisso não, pois é pedir pra achar problema”. Lembrou também o pai de um amigo, ao justificar sua aversão aos médicos, “Sinto-me bem, então vou lá pra quê? Não quero ficar caçando doença.” Ninguém quer caçar serviço onde sabe que tem.

Agora, em São Paulo, foram dois desses eventos trágicos na mesma semana. Passarela e marquise — pública e privada, respectivamente –, pouco tempo depois de eventos semelhantes com um viaduto e uma alça de acesso nas marginais.

Todos os profissionais que passam por nossas pontes e viadutos vêem que são cheios de infiltrações. Até em túneis elas se apresentam — vai dizer que nunca caiu uma gota no seu carro dentro de um túnel? No meu sempre cai. Passo muito por todas essas estruturas, mas não vejo quase nenhuma obra de manutenção.

Os conselhos de classe relacionados à construção civil e planejamento urbano também parecem não dar muita bola para que inspeções, laudos e manutenções sejam levados a sério. São responsabilidades da gestão pública para a segurança e o bom funcionamento da cidade, mas tais conselhos profissionais têm de acompanhar de perto para alertar sempre que necessário. Preocupam-se mesmo é se estamos com a anuidade paga. Boletos sempre chegam e ai daquele que der uma de samambaia.

Antes de o prédio cair, em Fortaleza, o CREA havia sido notificado de uma obra de manutenção. Provavelmente o engenheiro responsável pela reforma que seria feita não é culpado, apesar de já ter quem queira responsabilizá-lo por questões burocráticas ligadas à data do atestado de responsabilidade. O coitado deve ter apenas pego o serviço e deu o primeiro passo que é registrar o serviço no CREA. O prédio caiu logo depois, mas por outros motivos — motivos esses que ele estava lá para resolver. Entretanto, se foi contratado, é porque algo havia de ser feito e, infelizmente, não havia mais tempo.

Um prédio não cai assim do nada, ele avisa. Vai trincando, dá uns estalos, apresenta bolhas na massa, o recobrimento de concreto da estrutura começa a soltar devido à corrosão da ferragem, cuja oxidação também pode ser detectada por manchas de infiltração alaranjadas. Só que quando o prédio avisa, o que as pessoas fazem? Chamam um pedreiro, refazem a massa e pintam. “Se não vejo, não existe.” Fica assim por anos, nesse faz e refaz de reparos inúteis. Um dia o prédio cai “sem explicação”, ninguém sabe o porquê, torna-se um grande mistério. Na foto publicada dá pra ver inúmeros pontos, já antigos, de infiltração (link). O prédio não caiu porque a maresia da cidade é agressiva, mas por negligência, manutenção precária, preguiça, mesquinharia, gambiarras, falta de planejamento.

Em João Pessoa (link) caiu o anexo de um hospital local, cinco andares ainda em construção. Não se iluda se você acha que os hospitais fazem tudo certo na hora de construir. O que mais tem é puxadinho feito pelos mesmos caras que fazem as obras de quem lá trabalha, sem projeto nem cálculo estrutural. Não sei se foi o caso, mas se caiu é porque houve falha já na contratação. Nunca entendi como pessoas esclarecidas sobre temas complexos e tecnologia de ponta não entendem a importância de se contratar profissionais qualificados na hora de planejar e construir. Não sei se foi o caso lá na Paraíba, mas é o caso da maioria das construções.

No Rio de Janeiro, há uns meses, a imprensa toda cobriu o caso de prédios que vêm sendo construídos ilegalmente (link). A ocupação é ilegal e a construção também, pois não dá para projetar e aprovar um prédio onde nem construir é permitido. Sobem cinco, seis andares na raça, ou seja, no achismo. Ao menos tiveram o discernimento de apoiar o prédio em bases rochosas, feitas de pedras que esfarelam como casca de pão. “Aprendeu fazendo, sabe mais que muito engenheiro!”, já ouviu essa frase? Quando cai, saem atrás do porquê, mesmo diante de sequência tão autoexplicativa.

Depois do incidente com um desses prédios do Rio, chamaram o representante do conselho de engenharia para ir até o local. Nesta hora, senti vergonha alheia. De que serve o conselho de engenharia ir até o local depois que o prédio caiu? Só para mostrar que a construção é uma porcaria? Mesmo que os erros fossem indetectáveis, um edifício sem técnico responsável, sem planejamento, sem fiscalização, sem aprovação, seria alguma coisa além de péssimo? Além disso, por que ninguém foi lá antes? Ninguém vê o terreno irregular sendo ocupado? Ninguém fiscaliza as ocupações? Ninguém se espanta com um prédio sendo feito ali? O representante foi lá passar vergonha com atestado.

Jura? Juro. 

Já vi gente sem habilitação fazendo os projetos “de fato” e coordenando-os dentro do escritório de um arquiteto onde fui procurar estágio quando estudante em Bauru, também no interior de São Paulo. Ninguém ali parecia se incomodar, uns até elogiavam, mas o cara era ruim demais, nunca aceitei essas coisas. O arquiteto titular era quem orientava seu coordenador, que aprendeu fazendo, a respeito de qual projeto alheio iriam copiar daquela vez. Desisti assim que vi tais absurdos, poupando-me de outros, antes de iniciar o estágio.

Certa vez denunciei ao CAU um rapaz que havia enganado um conhecido, dizendo-se arquiteto. Não se tratava de uma casinha, mas de uma construção de uso coletivo, com dois ou três andares, abrigando cerca de mil pessoas. Depois de problemas por não conseguir entregar o projeto, assumiu não ter diploma. Disse que atuava há anos no interior de São Paulo, sem mais problemas, sempre vinculado a um mestre de obras experiente que construía para ele. “Faço um esboço, aí vou explicando e ele constrói, a gente não precisa de projeto. Somos mais práticos, tenho as coisas na cabeça.” Em resumo, tudo errado. Diante de tal absurdo, espantado por ainda estar atuando, denunciei-o ao conselho de classe. Isso foi há uns três anos e ele segue dando golpes por aí, principalmente no interior de São Paulo — Jundiaí, Campinas, Sorocaba, Indaiatuba. Ninguém foi atrás. Mas lembraram de me mandar os boletos da anuidade.

Nós somos tudo isso

Ninguém se responsabiliza por nada. Responsabilidade é entendida como uma burocracia e não um compromisso profissional dos supostos responsáveis pelo que é feito. Negligenciar é uma atitude cuja responsabilidade ninguém assume. A culpa é da chuva, do peso, da maresia, da idade da construção, da infiltração, da altura do caminhão que bateu, da maré que subiu, do solo ruim, do impermeabilizante, do aquecimento global, da chuva ácida. Qual a responsabilidade daqueles que nunca fizeram a manutenção? E qual a responsabilidade daqueles que jamais fiscalizaram? Quem assume a culpa pelas consequências da denúncia que não foi investigada?

A execução de nossas construções é assim. A manutenção delas também é assim. Nossas cidades são feitas e mantidas assim. O Brasil é feito assim. Nós somos assim. Entendeu?

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