Habitando muros
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Habitando muros

Henrique de Carvalho

26 de agosto de 2019 | 06h00

[ou “Sobre o fenômeno das casas-parede em São Paulo”]

Ilustração do autor sobre casa paulista de muro alto

Ilustração do autor

Conforme o século XX avançava e iniciava seu último quarto, brotou das profundezas do brasileiro um impulso antigo e colonial. Um movimento explicado por sabemos quais inseguranças promoveu a retomada de nossa vocação para marcar os limites dos lotes com matéria pesada, peso físico mesmo, muito bloco, tijolo, concreto e argamassa, tornando antigas casas ajardinadas em grandes lotes em verdadeiros fortes, intransponíveis para qualquer um que não fosse o homem-aranha. Nossa forma de tratar o lote, enfim, voltara a ser a mesma do Brasil colônia.

As casas coloniais urbanas eram construídas no limite do lote, com muros sobre as mesmas linhas onde nenhuma parte da casa pousava sobre elas. Nosso impulso cultural sempre foi o de tornar objeto físico qualquer coisa que precisasse ser imaginada, numa lógica literal muito ligada ao fazer manual e pouco afeita ao pensamento abstrato. E não pense que era assim em todo lugar porque não era não. Basta pensar naquelas casas sem muros que povoam nosso imaginário trazidas pelo cinema. Há lugares em que aquilo que fica na imaginação já é respeitado.

Até houve um choque, no fim do século passado, advindo de uma primeira consciência do que a paisagem estava se tornando. Veio uma onda de críticas à cidade super-murada e suas ruas (e calçadas) ladeadas por muros cada vez mais altos. Foi manifestação do estranhamento inicial que, com o tempo, foi assimilado porque a gente se acostuma. Como no poema “Eu sei, mas não devia”, de Marina Colassanti, a gente sempre se acostuma.

Assim como nos acostumamos a viver em lugares protegidos por mecanismos que ferem os outros que estão fora, aqueles que não são o “nós” de um núcleo muito reduzido, também nos acostumamos à subtração da beleza, do campo visual, do verde, dos jardins que apreciávamos, da arquitetura e da paisagem construída em uma conformação mais delicada, complacente, cuja expectativa era de civilidade em relação ao outro — neste caso, o sujeito “nós” é o que estava andando na rua e desfrutando a paisagem. Perdemos, naquele momento, a oportunidade de sermos o Guto Lacaz menino, curioso, andando com a família por ruas calmas e aprendendo espontaneamente com a cidade. (leia a história aqui neste link)

Conformadas e achando tudo sempre normal, as pessoas seguiram a vida trabalhando, circulando, reclamando e se reproduzindo como sempre fizeram. Passamos a nos educar nesta nova paisagem linear, mais bidimensional, sem profundidade, aprendizado ou beleza, circulando por corredores ladeados por barreiras, acostumando-nos a pensar a cidade de planos sem profundidade, de volumes muito elementares, redundantes, testas enormes bloqueando a paisagem, o campo visual e os jardins das casas. 

Como num refluxo deste fenômeno cultural, desta formação visual torta, passaram a nascer casas feitas para serem muros nelas mesmas, casas-barreira impostas no limite do lote ou no limite do afastamento mínimo de cinco metros. Claro, vieram adaptadas à vida de agora, ao novo modo de circular sempre dentro do carro, mas ainda assim recapitulação da casa colonial na forma de ocupar o lote. Saíamos de um longo período de volumes dispostos soltos no terreno para a retomada do medo como forma de habitar. Passamos a morar dentro de muros, aplicando profundidade óbvia, banal, sem imaginação, aos planos bidimensionais. Retângulos dentro de retângulos, retângulos puros com um buraco no meio, retângulos revestidos com um mesmo material, retângulos com um retangulinho no canto com umas mini toras de madeira para enfeitar e muitos, mas muitos retângulos de concreto impondo a exuberância de seu bunker duro como a pedra.

Paredões de oito metros de espessura por trinta metros de largura e sete ou oito de altura. Assim são as casas grã-finas nas São paulo de hoje. Mesmo quando estão recuadas, criam fachadas portões em um grande plano uniforme, bidimensional, de frestas secretas a esconder até por onde se entra na casa. São superfícies platônicas idealizando o impenetrável, o limite absoluto da segurança contra um mundo lá fora que não querem deixar entrar nem por uma fresta, configurando uma barreira a partir da qual só se olha pra fora por um recorte periscópico na guarita. Já dentro da parede tornada casa, câmeras mostram tudo o que acontece do lado de fora para pessoas que escondem tudo o que acontece do lado de dentro.

A uniformidade dos muros da cidade, enfim, saiu do incômodo para, por meio dos filhos nascidos já com a existência deles, tornar-se forma, cultura e expressão — tosca, pobre, subdesenvolvida, limitada, mas ainda assim, expressão cultural produzida com naturalidade.

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Opinião que ninguém pediu

Chega a ser engraçado quando, ao explicar tais projetos, seus autores ou analistas caem redundantemente na relação fácil entre simplicidade e minimalismo para justificar tais formas. Este suposto minimalismo, promovido como sofisticação da arquitetura brasileira, nada mais é do que a expressão de nossa pobreza teórica e formal atuais. Não tem relação com o Minimalismo de fato, expressão artística com densa e rigorosa teoria por trás.

Falam sempre nos mesmos dois ou três arquitetos paulistas para justificar o concreto e as empenas cegas (aquelas paredes sem janelas), citam as mesmas referências teóricas brasileiras e repetem as mesmas frases de efeito cunhadas pelos modernistas. É como se tivessem parado de estudar depois de ler isso que cabe em 30 páginas. O exemplo é quase caricato, mas sua encenação é recorrente. 

É preciso subir a régua das narrativas. Os arquitetos com acesso aos veículos de comunicação precisam qualificar melhor as reflexões levantadas e a exposição do pensamento por trás dos projetos, falando coisas diferentes, originais, escapando de dizer o sempre dito.

Eu sei que eles não são apenas isso; mas é essa a impressão que fica.

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