Esse é pra Carol
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Esse é pra Carol

Henrique de Carvalho

08 de março de 2021 | 13h51

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho)

[Esse texto é uma homenagem à arquiteta Carol Bueno, sócia do escritório Triptyque e que nos deixou em 04 de janeiro de 2021. É também um agradecimento por ser a inspiração de jovens arquitetos e ter representado tão bem nosso país na cena contemporânea internacional, mostrando que sempre é possível.]

Entrei na faculdade em 2000, um período de enorme prosperidade nos países desenvolvidos que durou até a crise de 2008 — o que era muito estimulante para qualquer aluno em qualquer faculdade de arquitetura do mundo. E assim foi pra mim, na UNESP Bauru, onde passei 5 anos bem acompanhado por excelentes mestres e colegas, gente de espírito aberto e gosto pelo risco.

Naqueles anos, tendo no Guggenheim Bilbao a pedra de inauguração, investimentos de mais de 400 milhões de dólares, antes um absurdo, tornaram-se usuais na construção de todo tipo de espaço relacionado à cultura: museus, faculdades, parques, praças, salas de concerto, memoriais, edifícios para o governo, estações intermodais, centros culturais, teatros. Isso devolveu à arquitetura internacional condições para o financiamento de um experimentalismo há muito ausente. Nas décadas anteriores, mais precisamente antes de 1995, tais exemplos eram esparsos.

Metade dos alunos se formava apresentando um projeto de centro cultural, porque lá dentro cabia tudo e isso levava sempre a um mega projeto integrado à cidade. Nos divertíamos imaginando-nos parte desse grupo seleto. Queríamos nos formar e ir trabalhar na Holanda, Espanha, Áustria. Ambientes bastante receptivos a proposições mais radicais.

Todos queríamos ser Rem Koolhaas e MVRDV. A Holanda vinha de um período de investimento estatal — algo nunca antes visto em qualquer outra parte do mundo –, para fazer de sua arquitetura um artigo de exportação. E conseguiram. Multiplicaram-se também os escritórios internacionais. Faziam, por conta própria, o mesmo movimento dos holandeses.

Do início dos anos 80 até meados dos anos 1990, houve uma enorme produção teórica em arquitetura, atualizando a literatura para a pós-modernidade “de fato” — diferente daquela fase inicial, ainda ligada ao modelo anterior. Nesse período, os arquitetos aproximaram-se de ambientes filosóficos distintos da fundamentação canônica moderna. O cardápio passou a incluir Deleuze, Derrida, Pierre Levy, Maffesoli, Morin, Paul Virillio, Marcus Novak, Chomsky. Certos arquitetos, como Peter Eisenman, alçaram estatura de filósofos, lidos por filósofos, tamanha a profundidade de suas reflexões e formulações conceituais.

Os arquitetos sempre consideraram projetar uma espécie de prática filosófica, mas Eisenman foi além e passou a produzir filosofia escrita e projetada, num denso sistema de retroalimentação. Ele e seus contemporâneos são fruto da intensificação dos estudos semióticos ocorrida desde fim dos 70 até início dos 90 nos Estados Unidos e Europa. Neste período formaram-se nossos professores desta disciplina, e a onda brasileira veio a partir dos anos 90.

Em 2000 a pós-modernidade já estava bem explicada. Desde o início dos anos 1980 pesquisadores como Lyotard, David Harvey, Jameson, Bauman, Baudrillard, pra citar bem poucos, a haviam destrinchado. Estávamos mesmo num fluxo cultural distinto da modernidade objetiva que imperou até as reconstruções do pós-Segunda Guerra. 

Se a arquitetura moderna sabia o que fazer, os pós-modernos não sabiam mais. Não havia mais o plano para um novo mundo. Sabiam, entretanto, o que não queriam fazer e, baseados nisto, iam fazendo cada um sua arquitetura teoricamente bastante especulativa. Buscavam caminhos para construir de volta algum sentido no fazer da arquitetura. Uma simplificação que gosto de fazer a respeito daquele momento é que havíamos chegado ao futuro e ou alguma coisa havia dado errado ou então fomos enganados.

No Brasil, anos 1990, o filósofo Nelson Brissac inicia os eventos Arte-Cidade, que fizeram a cabeça de mais de uma geração ao colocar o Brasil no mapa da crítica mundial, por meio de proposições artísticas e filosóficas baseadas em edifícios estrategicamente posicionados, significativos e subutilizados. As discussões ali promovidas e que dali fermentavam subiam a régua de qualidade do debate arquitetônico brasileiro.

Na cena internacional, surgia o “star system” da arquitetura. Em todo tempo houve os grandes expoentes, mas estes, os autores das novas catedrais, assumiram status de líderes de banda de rock junto aos arquitetos. Rem Koolhaas era uma espécie de U2. Estávamos na platéia com nossas guitarras de ar, imaginando o dia em que teríamos nossas próprias bandas. De novo, sempre houve essas figuras, mas o ambiente cultural havia mudado. Se nos anos 1920 vieram os profetas da era da máquina, no início do século XXI a coisa variava entre profetas do cyberspace, promotores da anarquia e embaixadores do desencanto. 

Nesse contexto entrei na faculdade, em 2000, e logo de início via uma enorme discrepância entre a produção nacional e internacional — que ainda existe e segue enorme. Não havia referência local equivalente, isto é, intensas e provocantes. Estávamos órfãos e ainda hoje é assim. A teoria basal brasileira parece estar ainda localizada entre 1920 e 1950. Quando a aparência é diferente, o que vemos é um vocabulário plástico daquela época, com botox, usando sintaxes mais conservadoras ou alheias a qualquer reflexão mais profunda. E também há as imitações, versões tardias e esquemáticas do que era feito nos países desenvolvidos há 20, 30 anos atrás, trazendo alguma novidade tardia para nossa paisagem.

De um lado estudávamos os cânones brasileiros, revolucionários em seu tempo — Niemeyer, Joaquim Guedes, Reidy, Irmãos Roberto, Lina Bo Bardi e tantos outros nomes de nosso modernismo heróico difundido mundo afora. De outro, os estrangeiros Frank Gehry, Eisenman, Tschumi, OMA, MVRDV, Coop Himmelblau, Morphosis, Owen Moss, Zaha Hadid, Diller-Scoffidio antes de Renfro, Herzog-De Meuron, Mecanoo, Steven Holl, NOX, muitos deles formados tendo debaixo do braço o livro Brazil Builds e Modern Architecture in Brazil, feitos para divulgar nossa arquitetura moderna mundo afora nos anos de 1943 e 1956, respectivamente. Foi o Brasil que alimentou o “star system” da arquitetura mundial, então seria natural alimentarmo-nos deles de volta. Era o que fazíamos.

Formei-me no comecinho de 2005 e, alguns anos depois, apareceu um escritório diferente em São Paulo. Eram três franceses e uma brasileira, todos bem jovens. Eles contavam que haviam começado no Rio de Janeiro, inicialmente fazendo modelos 3D para outros escritório, mas logo decidiram montar o próprio escritório e mudaram-se para cá. O mínimo de familiaridade que havia despertou-me o interesse em acompanhá-los — usava o mesmo programa 3D que eles para projetar mais experimentalmente, isso de começar fazendo 3D tinha a ver com uns freelas que fazia e acabara de iniciar meu trabalho na base paulista de um renomado escritório carioca.

Um amigo muito talentoso, que fazia lindos projetos e modelos 3D desde a faculdade, começou a trabalhar com eles e, de vez em quando, trocávamos uma ideia, pelo MSN. Ele me mostrava projetos recém feitos, como a estante que lançaram pela Micasa naqueles anos. Também uma amiga, talentosíssima, trabalhou alguns anos por lá. Depois um rapaz de quem fui banca examinadora na graduação. Todos eles eram formados pela UNESP, como eu, e o interesse ia crescendo em acompanhar seus trabalhos.

Esse escritório, Triptyque, começou a aparecer e eles eram diferentes. Seus projetos conversavam diretamente com aqueles escritórios que eu (e meus amigos) estudávamos há anos, sem ver oásis similar no Brasil. Entendíamos muito bem a arquitetura deles, o que estavam querendo dizer, a forma de experimentar, suas referências, como faziam e valorizei desde então o espaço que abriram, a partir daqui, na cena internacional. 

Quando veio a IdeaZarvos, uma incorporadora diferente que apostou na boa arquitetura como diferencial em seus prédios. Eram edifícios autorais, marcos na paisagem bastante propositivos, que traziam para o mercado nacional aquilo que víamos no exterior e projetávamos quase clandestinamente nos concursos e bienais. O prédio tinha apartamentos com tamanhos diferentes, pilares em X, um belíssimo jardim contemporâneo, sistema de irrigação nas paredes externas para serem cobertas por plantas. Era o que queríamos fazer, e eles estavam fazendo.

E seguiram. Vez por outra, sabia de amigos que lá estavam e contavam as novidades que haviam entrado no site ou sido publicadas em portais e revistas. O escritório cresceu, ganhou sede na França, e hoje é um escritório internacional, mantendo sua base no Brasil e há uma parte bastante nossa em seu DNA.

Dia 04 de janeiro deste ano soube do falecimento de Carol Bueno, a sócia brasileira junto de Greg, Gui e Olivier. Foi triste saber. A arquitetura nacional já é um deserto tão grande, um sertão tão difícil, por vezes tediosa, e perdemos justamente aquela que tocava num escritório que era como uma banda de rock. O Triptyque sempre me anima com seus projetos, são lindas inspirações para quem um dia também quer ver seu escritório internacionalizado como eles fizeram. Com a partida da Carol, que infelizmente nunca conheci pessoalmente, descobri que, quando olhava para o Triptyque e sentia orgulho por eles, sentia esse orgulho olhando mais especialmente para ela, uma grande arquiteta brasileira, e meus amigos que passaram por lá.

À Carol do Triptyque, dois meses depois, presto esta homenagem e faço meu agradecimento. Não chamo de atraso, porque comecei esse texto no dia 04 de janeiro, quando tive a triste notícia, mas não queria que fosse mais um obituário. Queria falar da Carol grande arquiteta, criativa, sofisticada intelectualmente, integrada, junto com seus sócios, à cena internacional de arquitetura contemporânea, experimental e propositiva. 

À mina da banda de rock, meu muito obrigado.

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