Desapareceram quatro importantes cidades do interior de SP
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Desapareceram quatro importantes cidades do interior de SP

Henrique de Carvalho

25 de outubro de 2021 | 03h00

ilustração 605.000 mortos covid

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho)

Não foi noticiado, mas quatro importantes cidades do rico interior do Estado de São Paulo desapareceram do mapa desde o início da pandemia de covid-19.

Bauru, Jaú, Lençóis Paulista e Duartina não existem mais. Sucumbiram completamente, levando consigo toda a riqueza e todo o amor que eram capazes de produzir.

Morreram todos seus habitantes. Crianças que iam para a escola diariamente e se tornariam engenheiros, médicos, professores, padeiros, mecânicos. Jovens em idade produtiva, trabalhando para fazer a vida, sustentar suas famílias, estudando para ter um futuro melhor. Idosos queridos por suas famílias, cheios de histórias, de netos, de filhos, filhas, genros, noras e amigos pela cidade que viram crescer e prosperar.

Foram-se os professores de grandes universidades, cientistas, pesquisadores, educadores, jornalistas, psicólogos, autores de livros. Desapareceram inúmeros comerciantes locais e os que atuavam regionalmente, levando consigo representantes de vendas, prestadores de serviços e funcionários de lojas e indústrias. Muitos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, recepcionistas, motoristas de ambulância também desapareceram, juntamente com um exército de funcionários empenhados na limpeza da cidade, de escritórios, escolas e hospitais.

Não há mais todas as mães que buscavam seus filhos na porta da escola, que preparavam almoço gostoso, ou os pais que faziam o mesmo. Também não há mais os filhos que abraçavam mães e pais chegando do trabalho, nem os avós que cuidavam deles com muito amor e carinho quando não havia creche ou escola integral para tanta gente.

Morreram os casais de namorados, os frentistas dos postos, os motoristas de ônibus, o pessoal da sorveteria, do supermercado, das lojas de óculos, das gráficas, das farmácias. Todos seus restaurantes fecharam, pois seus donos e funcionários também foram dizimados.

As fábricas fecharam. Não há mais a loja de bijuterias bonitas para os rapazes comprarem presentes para suas namoradas e esposas. Tampouco há os rapazes, suas namoradas e esposas. Morreram até aqueles que ainda estavam tomando coragem para se declarar.

As quatro cidades foram completamente dizimadas. Não restam sequer as mulheres grávidas, carregando sonhos e esperanças em suas barrigas.

Não há quem projete casas, quem as construa, não há engenheiros, arquitetos, calculistas. Morreram todos, até quem vendia os terrenos se foi. E ninguém viu problema,  porque não há mais quem more nas casas. Estavam todos mortos. Morreu até quem veria problema.

O mais triste é que essas pessoas tinham família em cidades que não desapareceram do mapa. Todas as pessoas destas cidades morreram, deixando inconsoláveis seus filhos, primos, irmãos, esposas, maridos, amigos, avós, netos, bebês órfãos que não foram atingidos pelo que ali se abateu.

Bauru soma 370 mil habitantes. Jaú 150 mil. Lençóis Paulista 70 mil. Duartina 13 mil. Ao todo, desapareceu um riquíssimo polo regional com seus 603 mil habitantes e seus afetos — eram todos pais, mães, filhos, netos, avós, amigos. E olha que a conta não inclui outras cidades menores que também desapareceram do mapa como se houvesse a explosão de uma bomba atômica. 

Ao todo já são mais de 605 mil mortos. Talvez seu filho não tenha morrido, mas morreu o filho de alguém. Talvez seu amigo não tenha morrido, mas morreu o melhor amigo de alguém. Talvez sua esposa não tenha morrido, deixando as crianças sem mãe, mas morreram as esposas de muitos maridos e mães de muitas crianças.

Mas o que tem isso de relevante, não é mesmo?

Não se preocupe, estas cidades às quais o texto faz referência seguem lindas e prósperas, não foram dizimadas. Se seus habitantes tivessem todos deixado de viver, aí sim, haveria uma comoção mundial.

No atentado do 11 de setembro às torres gêmeas morreram cerca de 3 mil pessoas. Foi uma comoção mundial. Quando jogaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, foram liquidadas as vidas de cerca de 200 mil pessoas comuns e o mundo trabalha, desde aquele dia terrível, para que essa tragédia não se repita.

No Brasil, até o momento, morreram mais de 605 mil pessoas de covid-19 em um contexto de subnotificação, ou seja, o número real é ainda maior. O impacto dessas mortes é exatamente o mesmo da alusão ao desaparecimento de importante polo regional, no meu querido oeste paulista, onde me formei arquiteto e urbanista e para onde gosto de voltar. A única diferença é que a população dizimada está pulverizada, um pouquinho em cada cidade do país, e isso se tornou mera estatística. Especialistas declaram que se providências tivessem sido tomadas a tempo, corretamente, todas essas cidades ainda existiriam, pois as mortes teriam caído pela metade, restando ainda 70 mil habitantes em Bauru — uma tragédia –, e Jaú, Lençóis Paulista e Duartina estariam intactas.

Atualmente, no Brasil, já morreram mais de 605 mil pessoas sufocadas, sem conseguir respirar, em decorrência da contaminação por covid-19. O equivalente a quatro cidades de um importante polo regional no Oeste do Estado de São Paulo.

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Nota do autor: adotei como referência estas quatro cidades porque estudei na UNESP-Bauru por cinco anos e sou fascinado pelo interior do Estado de SP. Admiro muito a força regional que estas cidades têm juntas e, por isso mesmo, decidi adotá-las como metáfora para melhor compreendermos o impacto de tantas vidas perdidas para a pandemia de covid-19.

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