Depois do fim do mundo
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Depois do fim do mundo

Henrique de Carvalho

19 de outubro de 2020 | 07h00

Ilustração Henrique de Carvalho sobre coronavírus

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho)

Estamos programando o retorno da TANTA para o escritório, mesmo sabendo que o fim do mundo ainda não acabou em definitivo.

Um amigo, que vive na Eslovênia, estava felizão porque as coisas estavam voltando ao normal, seu filho havia retomado as aulas presenciais e até os churrascos haviam ressurgido. Isso há uns dois meses. Agora já estão novamente cheios de restrições. Sua esposa recebeu a recomendação de voltar a trabalhar de casa, seu filho estava apenas fazendo atividades ao ar-livre, pois a escola voltou a encerrar aulas presenciais em locais fechados, não pode mais fazer churrasco.

Até quando?

Dizem que até sair a vacina, mas não é bem por aí. Tal qual cães condicionados que, mesmo soltos, permanecem sentados ao lado da coleira, nós teremos pela frente a superação do trauma do isolamento forçado e da contaminação pairando no ar.

Ao evento catastrófico do COVID somou-se uma assustadora predisposição nossa para a assimilação da morte em grande escala. Quando atingimos 10 mil mortos foi assustador. Depois 50 mil. Hoje estamos em 200 mil e as coisas já parecem normais para muitos. É como se não houvesse óbitos. É como se tudo bem andar de máscara, a vida segue. É como achar normal blindar um carro para passear por aí, sem entender a que ponto chegamos. 

José Padilha, diretor de Tropa de Elite e Robocop, ao sair do país após sofrer um atentado no Rio de Janeiro, declarou em uma entrevista que “Perdemos a noção do absurdo”. Em muitos lugares, o nosso velho normal já era absurdo. Arrastões, tiroteios, sequestros, “saidinhas de banco”, violência cotidiana, corrupção, associações de políticos com criminosos, lavagem de dinheiro (mesmo que não tenha estado em nenhuma cueca…), desvios de verba. Coisas que não são de hoje. Falo de desde a minha infância, quando aos sete oito anos já sabia o que se passava. Então não teremos nenhum novo normal. O normal seguirá sendo o absurdo.

Nossas marcas mais profundas, como povo, afloraram nesse período. Uma delas é a superstição. Por mais que houvesse informação confiável destacando a ineficiência da cloroquina, por exemplo, as pessoas se agarraram em justificativas alegóricas para manter a fé no inútil.

Supersticiosamente, muita gente continuou visitando os parentes, se reunindo, passeando e creditando proteção à sua fé, “Deus há de me proteger, não preciso me isolar porque o Altíssimo cuida de mim”. Pois é, cuida mesmo. Tanto que mandou noticiar em rede nacional, em todos os meios de comunicação, que era pra ficar em casa para não ser pego pela peste, que o remédio empurrado estava mais pra garrafada de ervas sem eficiência alguma, mas você não se atentou aos sinais. Fé cega, faca amolada.

A máscara é outra boa representante deste fenômeno. Serve basicamente para que ninguém cuspa o vírus no ar ou no próximo mais próximo. Entretanto, ganhou força de patuá. Quem está de máscara, está protegido. Pode ir no shopping, saçaricar por aí, bater pernas, fazer compras, se aglomerar, dançar com as amigas. A máscara protege, com a fé de quem está de corpo fechado ao colocá-la. Mas não está.

A construção civil não parou, seguiu operando durante todo este período. Nós do escritório estivemos em home office e o pessoal do canteiro seguiu executando as obras. Credito a liberação do setor a duas pontas que representam bem nossa sociedade. De um lado, operários que não podem ficar sem trabalhar por não terem reservas financeiras ou fontes alternativas de renda. De outro, o enorme lobby das grandes empresas de construção que torce de planos diretores a argumentos, sempre favoravelmente ao setor. Hoje, em obras da vida real como reformas de apartamentos e puxadinhos residenciais, ninguém mais usa máscara. O patuá foi integrado e transformou-se em confiança na convivência com conhecidos descontaminados — até alguém se contaminar.

Agora é nossa vez. Com a liberação e todos os cuidados necessários, usando produtos esterilizantes até para a sola dos sapatos — não é exagero –, meu escritório deve voltar a operar em nossa sede ainda esta semana. Mas está tudo em análise. Decidiremos com a equipe a melhor maneira de voltar, com segurança, mantendo a possibilidade de home-office e o olho nas estatísticas. 

Ainda estamos numa pandemia, só está um pouco mais controlada.

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