Cartas trocadas: Gio Ponti e Lina Bo Bardi
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Cartas trocadas: Gio Ponti e Lina Bo Bardi

Henrique de Carvalho

09 de dezembro de 2018 | 07h30

Colagem de FuGa_Officina dell’Architettura, 2014

Colagem de FuGa_Officina dell’Architettura (2014), unindo o famoso Edifício Pirelli, de Gio Ponti, à torre do SESC Pompéia, de Lina Bo Bardi.

Gio Ponti é um nome que conheci ainda criança. Não sei se houve uma exposição dele em São Paulo, mas lembro-me deste nome soando a partir da TV e, na sequência, grudando em minha memória. O mesmo com Kurt Schwitters, pintor dadaísta, um eco que não sei de onde veio, aos cinco-seis anos de idade, para grudar no interior de meu crânio como um post-it de superbonder. Até hoje tenho isso de uns nomes me virem do nada, e cito esses dois por serem daqueles que não me trazem vergonha.

Na faculdade de arquitetura tomou forma aquele som gravado pelo menino. Gio Ponti. Projetou casas, edifícios, interiores, intervenções em patrimônio histórico, criou ícones do design italiano, fez ilustrações, tapeçarias, pinturas. Sua abrangência é inalcançável. Agitador cultural, influenciou muitas gerações de profissionais através da revista Domus, criação sua, respeitada pela qualidade editorial, sofisticação gráfica e por promover tanto o debate como o desenvolvimento conceitual do projeto em todas as suas variações.

Mais recentemente, travei novo contato com o  nome durante um curso de design italiano com o falecido professor, arquiteto e designer Luciano Deviá. Foi mais intenso. Éramos apresentados aos grandes autores como se estivéssemos com todos eles na sala de estar de uma festa íntima, apreciando e refletindo sobre suas obras, enquanto Luciano fazia o gentil papel de anfitrião introduzindo um a um pessoalmente.

Para além do modernismo, passei a notar o eco da liberdade de Gio Ponti e seu desenho na arquitetura desconstrutivista dos anos 80-90 e na arquitetura holandesa mais recente (1995-2005), especialmente quando envolve caixas com janelas bagunçadas e suas variáveis. Naturalmente, há outras influências até mais evidentes, mas ele é um dos que fez a cabeça dessa gente quando jovem, hoje na faixa dos 50 a 80 anos.

Ele transcende o estereótipo, vigente até hoje, a respeito de um design italiano de formas puras, bastante cartesiano, tendendo ao minimalismo e operando variações de geometrias platônicas. Apesar de ter (também) explorado as possibilidades das formas puras, seu traço foi sempre solto, destacando certa predileção por triângulos e geometrias irregulares. Procure ver como ele reinterpreta o clássico tapete de couro de vaca malhada, reinterpretando-o em manchas retilíneas irregulares, como se a vaca tivesse saído de um quadro cubista de Picasso.

Descobrir a correspondência de Gio com sua jovem colaboradora, Lina, traz curiosidade a respeito do conteúdo das cartas ao mesmo tempo em que destaca naturais convergências. Menos pelo traço e mais pelo método, ambos compartilhavam — não nas cartas, mas nas obras — o gosto pela informalidade, pelo imprevisto e pela percepção de poesia e beleza no caos aparente de estruturas formais pensadas para serem assim, simultaneamente belas e caóticas.

Digo menos pelo traço porque aproximações formais até existem, mas seus projetos são bastante distintos entre si e precisaremos cavar bastante para começar a aproximar a produção de ambos pela forma do objeto final. Isso porque cada um foi, naturalmente, contaminado pelo ambiente que habitava. Se do lado de lá do Atlântico sente-se o peso da história, inescapável, ainda mais na Itália, do lado de cá esta ausência é ocupada pela investigação de caminhos possíveis, influenciada pela pulsação de uma cultura em gestação.

Mais pelo gesto digo porque o gesto do arquiteto nem sempre se reflete no traço, pois não reside necessariamente na transposição de uma idéia em desenho sobre papel. O próprio desenho, quando a ele nos referimos, é muito mais amplo. O gesto deles reside mais no processo, que em ambos é alimentado pela gestão da informalidade, pela tradução do imprevisto como qualidade expressiva e invenção. Gerir esta informalidade, aí sim voltamos ao rebatimento do gesto, é desenhar um processo, que só depois se apresenta em traço, objeto e seu resultado no espaço.

Em Gio Ponti, a informalidade se dá na acomodação de peças de pedra polida formadas por triângulos irregulares, pelas descontinuidades, pela aplicação de mosaicos nada convencionais e cujas geometrias precisam ser acomodadas ao passo em que a peça é realizada, pela aceitação da desordem aplicada sobre arranjos de linhas duras, como acontece em algumas fachadas de seus edifícios e nos azulejos — que este autor que vos escreve nomearia como expressão de um construtivismo informal, tal como os de Athos Bulcão aplicados às obras de Niemeyer, a convite deste, sempre.

Em Lina, a informalidade aparece no valor que ela dá ao vazio. Há sempre o vazio sendo ocupado por uma aparente bagunça. No MASP isso ocorre no vão-praça e nos salões com os famosos cavaletes para obras flutuando em lâminas de vidro. No SESC Pompéia há um índice de informalidade por todos os lados. O deck, por exemplo, foi feito no pátio onde as pessoas da vizinhança costumavam tomar sol, ou seja, esta apropriação informal foi mantida porque a vocação e a cultura já existiam antes de ela chegar. Muitas vezes o gesto do arquiteto se dá no reconhecimento dos significados de um lugar e em aceitar suas qualidades preexistentes. Nos blocos aparentes das paredes, os operários foram instruídos a apertar e não recolher a massa entre-peças, num vazamento controlado, cujo resultado plástico é uma apropriação expressionista do processo de assentamento. Lá ainda, há as aberturas irregulares, de inspiração pré-histórica, fechadas por muxarabis emocionados, vermelhos, históricos, oriundos da ocupação árabe na península ibérica. Há as passarelas cruzadas, o grande galpão minimamente mobiliado — o suficiente para funcionar –, o espelho d’água irregular como nascente de rio e os paralelepípedos da fábrica, que torcem suavemente os passos e põe todos pra rebolar.

Descobrir a correspondência dos dois, Lina e Gio Ponti, faz refletir sobre as afinidades que há para além daquilo que é dito nas cartas — que nem li e não sei se lerei. A arquitetura brasileira poderia reaprender, com isso, a explorar sua identidade como fator de diferenciação. Ainda há um ou outro que faça isso, mas ela anda muito chata, muito burocrática, tentando posar de certinha, e é em recursos como essa informalidade responsável, envolvida no processo, que ela poderá se reencontrar com a potência da invenção que já teve. Só assim para repensarmos, de um modo mais generoso, nossa produção cultural, o país em que vivemos e o cotidiano tão maltratado pela arquitetura sem graça de nossas cidades.

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