As lições de Ruy Ohtake
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

As lições de Ruy Ohtake

Henrique de Carvalho

28 de novembro de 2021 | 23h26

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho)

Recentemente participei de uma conversa com colegas e professores a respeito de Ruy Ohtake. Curso mestrado no departamento de Teoria, História e Crítica, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) e isso se deu durante a aula de uma disciplina sobre arquitetura contemporânea brasileira.

Vínhamos numa sequência de duas ou três aulas que tratavam de habitação de interesse social, analisando casos de conjuntos construídos em seus prós e contras, até que chegamos a conjuntos implantados em Heliópolis. Os grupos haviam selecionado dois conjuntos bem parecidos entre si, por compartilharem da mesma abordagem, formato semelhante e a mesma postura conservadora da arquitetura paulista que vive se repetindo e criando belas histórias para parecer cheia de conteúdo.

Num dado momento, um dos professores sinalizou que seria importante lembrarmos dos redondinhos do Ruy Ohtake, uma espécie de contraponto ao que estávamos vendo ali.

Os primeiros conjuntos eram compostos de linhas retas mal-humoradas, formando um pátio central, com basicamente uns dois pontos de entrada no condomínio. O prédio típico se repetia, com apartamentos típicos e suas circulações, ao redor desse pátio. Um dos professores havia visitado esses conjuntos em mais de uma ocasião e comentou “Esses condomínios têm dono.” E seguiu contando que, quando vão lá, sabem que estão sendo o tempo todo vigiados. Ninguém entra lá sem falar com o chefe, que é quem fiscaliza os fluxos que vão e vêm. O fato de serem fechados em si mesmos favorecia a implantação desse controle por parte dos chefes, digamos, eleitos pela sua capacidade de acuar os demais moradores.

Ruy Ohtake fez um projeto ali, carinhosamente denominados “redondinhos” por motivos óbvios – essa é a forma da planta dos prédios baixos lá construídos.

Lembro-me da época da implantação desse conjunto. Tenho família na cidade de São Caetano do Sul e via os tais do Ruy a partir do outro lado do rio. Pareciam sempre bem, pintados com faixas coloridas, nunca estavam pichados, diferentemente dos outros conjuntos.

Os redondinhos não têm pátio interno, seu pátio é o espaço público fora do prédio. Ao redor deles é tudo aberto, o terreno fica permeável, as pessoas chegam por todos os lados indo cada um direto para seu bloco. Os edifícios separados contêm menos moradores por unidade, oferecendo maior autonomia para se auto-organizarem, uma vez que menos gente vota e decide mais objetivamente. Essa descentralização e a dificuldade de fechar acessos impede que os tais “chefes” tomem conta do pedaço.

Sempre houve as críticas questionando as paredes curvas, alegando dificuldade em se organizar a mobília. Os arquitetos sempre pensam que o único jeito de se organizar os móveis é ao modo burguês-francês-do-século-XIX, que é o ainda adotado na quase totalidade dos projetos residenciais. Mas quando os redondinhos começaram a ficar prontos, foi montada uma unidade piloto para sugerir aos moradores uma boa forma de ocupar o apartamento e tirar o medo das curvas. As pessoas gostaram e aprenderam. Fotos dos apartamentos em uso mostram o bom aproveitamento do espaço disponível e soluções bastante criativas. Partes como cozinha e lavanderia funcionam muito bem, nos quartos cabem as camas, beliches, armários e, em muitos casos, as pessoas dormem em redes porque faz parte da cultura de onde elas vêm.

Dos conjuntos existentes, os moradores dos redondinhos são os que mais têm orgulho de onde vivem. Dizem gostar da arquitetura, porque é diferente. Realmente, esse é um fator de diferenciação que contribui para a autoestima deles.

Quando da construção, comecei a observar e pensava que deviam ser do Ruy Ohtake. Já ouvia essas críticas sobre as paredes redondas, mas é sempre a mesma crítica feita contra as curvas, uma coisa muito superficial. Os arquitetos se repetem demais, com argumentos conservadores e projetos sem coragem alguma. Pessoalmente me interessava o que apareceria ali. De início pensei até que seriam caixas d’água. Depois quis saber como ficariam prontos e, assim que terminaram, passou a ser referência na paisagem do outro lado do rio – “Olha lá os redondinhos”, todo mundo comenta, sempre. Ou seja, é realmente um ponto de interesse. Mesmo o círculo sendo uma forma comum, ali virou diferença. Nunca os vi pichados.

Tempos depois, construíram uns outros blocos horrorosos, bem junto deles. Esses novos eram naquele padrão desinteressante, inclusive sem pátio interno, sem nada, bem ruins mesmo. Enquanto pintavam de amarelo-tristeza, já estavam sendo pichados. Essa é uma das formas de as pessoas dizerem que não está aprovado. Os redondinhos continuaram intactos.

* * * * *

Com suas curvas, Ruy Ohtake criou verdadeiros ícones na paisagem brasileira. Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, há um belíssimo aquário sendo construído. Já teve suas obras paralisadas e retomadas algumas vezes devido àqueles motivos que sempre oneram grandes obras públicas. Espero que em breve comece a operar, contribuindo para a preservação do meio ambiente por meio da educação e da beleza.

Em São Paulo, sou frequentador do Instituto Tomie Ohtake e de seus cursos. Para além das exposições, lá tive aulas de pintura com grandes artistas – com quem aprendi a fazer têmpera a ovo, uma maravilha! –, de física quântica com pesquisador sério que fez experimentos no maior acelerador de partículas do mundo, assisti palestras com artistas e curadores, dentre outras atividades – incluo aí deliciosos almoços. A turma critica o pilar em forma de carambola. Deviam criticar as ruas esburacadas e a violência da cidade. O pilar do Ruy é o maior barato, demonstração da coragem de ser inventivo e buscar um caminho próprio, flertando com o pós-modernismo com muita originalidade. A crítica há mais de uma década vinha sendo injusta com sua obra, reclamando de tudo, como quem cobrava que ele decidisse ser só mais um, adequado ao formato oficial paulista, esquecendo que fora o autor de verdadeiras joias sinuosas do chamado brutalismo paulista – sua embaixada do Brasil em Tokio é uma delas.

Os hotéis Unique e Renaissance, também do Ruy, são os dois mais bonitos da cidade. Pode haver concorrentes com outras características também interessantes, mas os prédios dele são diferentes. Passar em volta deles não é simplesmente circundar uma construção. É um passeio, relacionar-se com jardineiras, com o paisagismo bem cuidado, com o bom desenho arquitetônico, com a curiosidade de olhar o acesso dos carros e ver um belíssimo mural cerâmico na parede voltada para a rua.

Ruy Ohtake era da geração de arquitetos que tinha a generosidade como um valor em seus desenhos e fez belas contribuições para a paisagem da cidade. Foi-se mais um dos últimos arquitetos modernos que temos. Um paulista, descendente de orientais, um homem culto, que sempre procurou fazer da arquitetura uma expressão da alegria e da liberdade, um paulista bastante carioca, devoto de São Niemeyer, bem-humorado em suas obras que flertaram com as artes plásticas ao incorporar cores chamativas – tanto nas partes construtivas quanto no mobiliário especialmente desenhado –, e em invenções como o vidro espelhado lilás contraposto a elementos em concreto aparente e revestimento metálicos.

Deixará saudades a seus entes queridos, mas também nós sentiremos sua falta. Não teremos mais como conjecturar sobre o que estaria desenhando em seu escritório. Ao menos fica o legado e as aulas que são suas obras.

Velhos parceiros não faltarão nessa nova fase de sua carreira. Niemeyer devia estar ansioso para rever o colega e recebê-lo com um belo jogo de lapiseiras carregadas. Agora, além de mais bonito, o céu ficará mais colorido com ele.

* * * * *

Muito obrigado, Ruy!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.