Aqui, o fogo e o símbolo
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Aqui, o fogo e o símbolo

Henrique de Carvalho

26 de abril de 2019 | 10h01

Todo incêndio, mesmo que acidental, é a recapitulação do rito do fogo.

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“Incêndio na Notre Dame em Paris.”, soube no meu escritório, TANTA, ao voltar do almoço.

“Que tristeza ver isso.”, disse e ouvi de outros.

“Parece o Brasil.” Será que parece mesmo?

Essas frases me fizeram pensar no dia do incêndio e depois. Como avaliaremos a perda decorrente do incêndio na torre desta importante catedral? Naturalmente é uma perda inestimável, ela não voltará jamais a ser como era. Assim como temos perdido muitas coisas, cada vez mais, sem promessa de tê-las de volta, também não teremos mais a bela catedral gótica de volta. Não como estava até aquela segunda-feira.

As catedrais góticas e as catedrais góticas

As catedrais góticas começaram a ser feitas pouco depois do ano 1000 – por volta de 1030, 1050. Semelhantemente ao momento atual, em que mega construções exuberantes e tecnologicamente super avançadas proliferam nos países ricos, o gótico foi o salto triplo do estilo românico. Como praticamente todas as catedrais, representavam a sofisticação técnica e o poder de quem as construía.

Muitas das soluções estruturais das igrejas góticas, senão todas, já haviam sido realizadas nas igrejas românicas, mas sem a radicalidade gótica de levar tais soluções aos limites. Se antes as igrejas eram escuras e geladas, pesadas, quase sólidas, encravadas no chão, suas sucessoras foram luminosas, banhadas pela luz do dia e enormes lanternas noturnas quando acesas – com luz vinda do fogo, em 1100, 1200 –, e eram leves, levíssimas, como se quisessem levitar. Com as estruturas lançadas para fora, o desafio auto-imposto pelos construtores destas catedrais era o de liberar os vãos para que fossem preenchidos por vidro. Foi uma era de sonho, fantasia, ousadia e experimentação, com suas gárgulas, quimeras e esculturas muito originais por adorno.

Se tomarmos por referência a história recente, a arquitetura moderna iniciada no final do século 19 foi o nosso românico, testando e aprimorando soluções, criando a sintaxe de formas geométricas livres de ornamentação figurativa – às vezes querendo-se livres de qualquer ornamentação, o que é discutível dependendo da base teórica, mas para simplificar o que não é o ponto principal da pauta, digamos “sim, às vezes era livre de qualquer ornamentação”. Passaríamos a usar, desde então e como princípio, a abstração geométrica como principal fonte produtora de imagens em arquitetura. Assim formou-se a arquitetura contemporânea de verdade, feita hoje, cheia de sofisticação e evolução radical do moderno – e não mera reprodução, filhote igual aos pais que ainda vemos por aí.

Tal como o gótico estava (e está) para o românico, a produção contemporânea pós-moderna está para o moderno. Somos o gótico do movimento moderno, queremos fazer construções mais leves, explorando grandes planos de vidro na interface do edifício com a cidade e em seu interior, evidenciando a performance estrutural sem precisar promover a literalidade das partes.

Depois de ter suas bases questionadas infantilmente pelo filho que nega o pai para afirmar sua singularidade, passamos da adolescência da pós-modernidade e voltamos a explorar certos recursos modernos sem culpa, mas sem fazer igual. Hoje a grande arquitetura é radical, aerodinâmica, como se fosse começar a se mexer daqui a pouco. Radicalizamos superfícies, vazios imensos, estruturas em balanço, apoios leves e os reflexos.

O fim do moderno e as catedrais góticas

Wolf Prix, sem dúvida um dos dez maiores da atualidade, citou Niemeyer ao comentar o magnífico Museu das Confluências em Lyon, França, feito ao custo de dois aviões de guerra – uma fortuna não assassina, no caso do museu. Prix disse que há dois tipos de arquiteto. De um lado há aquele que projeta edifícios assentados com seu peso e firmeza sobre o chão, como se afirmassem ter de fato os pés no chão. De outro lado há os que pensam no que está para o alto, querem negar a gravidade, são edifícios leves, soltos, quase amarrados para não voar, onde a cobertura é a própria obra, talvez, de arquitetos com a cabeça nas nuvens. Wolf Prix se diz do segundo tipo, como Niemeyer, e cita a Casa das Canoas projetada por este no Rio de Janeiro para viver com a família. É uma cobertura sinuosa, espalhada pelo terreno, somando a paisagem, uma pedra e um corpo de água (uma piscina, por acaso) ao criar um espaço para a vida livre debaixo de si. Ali, sob a cobertura sinuosa, ser humano seria amplificar-se. Niemeyer amava as catedrais góticas.

Com a crise do movimento moderno, o meio arquitetônico, tal qual profetas do fim do mundo, anunciava o fim de um período essencialmente humanista. Não era o moderno a esgotar-se, mas Auschwitz com sua dureza a provar a impossibilidade de sermos modernos. A modernidade resistiu ainda por alguns anos onde havia criado raízes, por prestar-se bem à reconstrução dos países devastados pela guerra de maneira rápida, otimizada, seriada e em escala industrial. Não passou de 1960. Depois disso, esgotou-se e nos pusemos, nós arquitetos, em crise diante do fim da modernidade. Foi como se o sonho de um futuro positivado tivesse acabado sem ter o que pôr no lugar, mas esta era só a consciência do fim de um sonho, pois o sonho havia acabado antes, entre 1939 e 1945, na experiência radical de destruição humana vivida nos campos de batalha, nos campos de concentração e em duas bombas atômicas lançadas no Japão. Em Hiroshima e Nagazaki explodiram a modernidade e seu sonho de humanização racional.

Um recomeço e o fim de fato

Depois de uns 20-30 anos de crise existencial, iniciada nos anos 1960, veio o nosso gótico, uma era de construções impressionantes, quase transcendentes, de espírito livre e desembaraçadas das bases modernas. Foi um novo patamar de consciência, a incluir de novo a complexidade (da vida e dos fatos) após a tentativa frustrada de se viver dentro do regime recorte moderno e suas simplificações irracionalmente racionais.

Timidamente, as construções contemporâneas de fato começaram a ser realizadas nos anos 1980, expandindo-se vagarosamente ao longo dos anos 1990 até que, perto dos anos 2000, multiplicaram-se radical e intensamente como nunca visto antes. Foi um impulso lindo, megalomaníaco, a imaginação no poder por alguns instantes, esfriado pela crise financeira internacional de 2008, mas que seguiu em sua missão de dispersar mega construções pelo mundo, principalmente nos países ricos. Falo do Parque La Villette de Tschumi, do Museu das Confluências do Coop Himmelb(l)au, do Guggenheim Bilbao de Gehry, do Memorial do Holocausto de Eisenman e do Museu Judaico de Libeskind, para citar cinco exemplos de milhares. São essas as catedrais góticas atuais.

Mais recentemente, como quando se aproximava aquela guerra que apresentaria os burros n’água da modernidade, o mundo novamente voltou-se para o populismo autoritário e, por vezes, fascista. Emergiu a pobreza de espírito irracional que inviabilizou a continuidade, em nosso tempo, do impulso que poderia mudar os rumos da humanidade para algo melhor. Poderíamos tranquilamente nos dirigir a uma condição bem menos precária em nossas formas de existir, mas optamos por outro caminho, ladeira abaixo.

Foi como depois do gótico. Se por um lado continuaram a usar fachadas informativas acerca do que se falava nas igrejas, por outro vieram de novo as construções mais contidas, mais regradas e formalizadas, como as da renascença. Penso muitas vezes que a transformação não foi assim tão proveitosa. Ganhamos um monte de coisas, principalmente a pintura e escultura do renascimento, instrumentos excepcionais para o cultivo de nossos espíritos e nossas ideias. Perdemos o sonho delirantemente belo de uma possível cultura independente de modelos idealizados do passado. Gestada nos anos 1400, a cultura que fomos habitar era firmemente amparada na negação da vida e afirmação de fictícios modelos gregos ressuscitados para, a partir de toda essa ingenuidade, podermos enfim retomar nosso rumo para o esclarecimento libertador, tornando o homem seu próprio deus. Deu em Auschwitz.

As catedrais góticas respondiam ao homem de fora pra dentro porque elas eram o homem que recebe a luz ao invés de emaná-la. Luz e santos, anjos, brilhos, rosáceas, claro e escuro em movimento e seres grotescos a nos assombrar ao mesmo tempo que protegem ao mostrarem quem somos. Aproximam-se de nossos sonhos e por isso nos representam tão profundamente.

Não é à toa que, desde criança, ouvimos falar muito delas e nada, nem do nome dado ao estilo, das românicas, bizantinas ou renascentistas. Destas até citamos exemplos, como é a famosa Capela Sistina, mas não nos referimos a elas com o mesmo valor de conjunto de quando pronunciamos “as catedrais góticas”. Não há o mesmo tom para se dizer “as catedrais da renascença”; elas quiseram se encaixar na matemática e nas regras de beleza dos gregos e romanos e negaram o humano ao tentar desvendá-lo.

O fogo e o símbolo

Com o incêndio na Catedral de Notre Dame parece-me que ruíram outras coisas. Ela, mais o que se deu sobre ela, foram o símbolo; o incêndio em si foi o fenômeno que reforça o símbolo, quando este se apresenta fisicamente. O incêndio foi o símbolo vivo de algo.

Muitas igrejas passaram pelo que se passou naquela segunda-feira. Incêndios são parte da história de grandes catedrais que estudamos, marcos importantes em suas vidas no tempo. Fogueiras são dispositivos acionados para serem assistidos coletivamente. Somos ainda muito primitivos para achar que estamos livres disso. Ainda representamos muitos ritos com fogo, mesmo quando ele está invisível – mas presente, virtualmente – do lado de dentro de bombas mortais.

Diante da experiência de viver o dia em que houve um incêndio numa grande catedral, sei que ela, de alguma maneira, será reconstruída. Não sei como, provavelmente os dados do novo tempo então lhe serão acrescentados e isto fará parte de sua história, daqui a 200 ou 300 anos, como cicatrizes significativas na biografia de uma pessoa. O que é que está sendo queimado em nossa cultura, quando o símbolo se apresenta de fato na queima parcial da Catedral de Notre Dame em Paris? O que é que perdemos, em nossa integridade humana, independente dos itens lá dentro que foram queimados? O que significa a torre dessa igreja, consumida pelo fogo, em seu desabamento? O que é que estamos deixando de ser, enquanto humanidade? Isso parece dizer que não haverá luz de fora pra dentro, mas fogo de dentro pra fora.

Talvez este seja o nosso rito do fogo rumo à barbárie. Resta-nos reforçar os nossos sistemas de prevenção contra o avanço da barbárie, digo, do fogo, sobre todo o patrimônio humano mais elevado até então constituído. Diria, inclusive, que os ambientes propícios à implantação da ignorância são igualmente propícios à presença do fogo queimando bens culturais e intelectuais.

“Parece o Brasil”

Houve quem comemorasse, dizendo que o fogo na Notre Dame mostra que não somos só nós, brasileiros, que deixamos esse tipo de coisas acontecer. No caso deles, foi a falha indesejável numa estrutura de cuidado criada e funcionando para garantir que a riqueza cultural francesa – e humana – seja preservada, com grande eficiência.

Quantos museus há na França? Quantas catedrais, centros culturais e acervos biológicos? Quando foi que soubemos de incêndio tão devastador em algum deles? Se agora a grande catedral queimou, é porque muito foi feito e ali, justamente numa obra de preservação em andamento, algo falhou.

O Brasil é diferente. Já perdemos acervos preciosíssimos, queimamos museus, arquivos, pesquisas e obras de arte por desleixo, pois nada fizemos. Quando foi que soubemos de incêndio – ou inundação, ou desabamento, ou rompimento de barragem – tão devastador em nosso país? Teve um na semana retrasada, um no começo do ano, outro no final do ano passado e outros tantos que podem ser pontuados. Instituto Butantã, Museu da Língua Portuguesa, Memorial da América Latina, Museu Nacional no Rio de Janeiro, índio Galdino, acervo de obras de Hélio Oiticica, nossas florestas – principalmente a Amazônia –, o edifício ocupado em São Paulo, a Favela do Cimento e, se der um Google, aparecerão mais tragédias brasileiras, somente nas categorias fogo ou incêndio.

Um incêndio na França no máximo mostra que algo precisa ser feito com mais eficiência num lugar que, sabemos, vai fazer algo grande a respeito.

Não subimos quando o outro desce, permanecemos iguais, perdemos junto e ainda servimos de parâmetro para, nós mesmos, compararmos a França com nosso país para dizer que ela está pior, porque nós, aqui dentro, de nada melhoramos.

Recapitulando o rito do fogo construiremos uma nova barbárie a partir de nossa civilização, que se desfaz, e não há mistério nisso.

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