Ano novo, cidade nova? ___ 01 | Mais árvores
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Ano novo, cidade nova? ___ 01 | Mais árvores

Henrique de Carvalho

02 Janeiro 2019 | 06h30

Pôr-do-Sol em campo Grande, MS, dezembro de 2018 _ foto Henrique de Carvalho

Pôr-do-Sol em campo Grande, MS, dezembro de 2018 _ foto Henrique de Carvalho

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Feliz Ano Novo!

Para comemorar, publico esta série de cinco pontos relevantes e simples de implantar, com o intuito de inspirar pessoas e administrações municipais a revolucionarem suas cidades nestes dois anos que ainda lhes restam até as próximas eleições para prefeito.

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Introdução

Uma das fórmulas para se ter uma vida interessante e agradável é viver em uma cidade que nos permita usufruir da vida tomando-a por suporte, por meio do qual construímos relações, significados e damos sentido à vida.

Cidades são como pessoas, às quais o pensamento de padronizações empobrecidas não servem mais de nada. A mentalidade industrial antiga, herdeira de Ford, simplificadora, mesmo que ainda seja aplicada em larga escala para tentar resolver problemas complexos (é claro que nunca resolve), é só uma pista do atraso metodológico de quem coordena o processo.

É inviável detalhar o que poderia fazê-las boas, pois são dinâmicas e têm suas próprias personalidades, riquezas, possibilidades, problemas e desafios. Por isso cada cidade necessita de um plano próprio, que trate dela mesma e das relações que estabelece local, regional, nacional e globalmente.

Alguns itens, porém, são básicos e repetidamente mal resolvidos em todas as cidades brasileiras. Pensando nisso, decidi iniciar 2019 propondo cinco pontos que poderiam ajudar qualquer cidade a, com economia e à sua maneira, começar o ano com o pé direito.

01 | Mais árvores

Não é novidade que as árvores fazem nossas vidas melhores e mais agradáveis. Filtram o ar, embelezam a paisagem, eliminam resíduos poluentes do solo, mantém (e às vezes até restituem) nascentes próximas, servem de abrigo para pássaros e outros animais, algumas fornecem frutas, outras flores e todas, sem exceção, oferecem aquela sombra à qual o paisagista Burle Marx gostava de se referir dizendo “A sombra de uma árvore sempre será mais fresca do que a sombra de qualquer marquise.”

A maioria das prefeituras ainda têm dois anos de serviço pela frente. Pra quê deixar tudo pra perto das eleições? Essas obras de última hora nunca acabam bem, geralmente são desnecessárias e de péssima qualidade, só servem para tentar fazer estardalhaço com o mínimo de grana. Querem que tudo seja barato para fazer mais e mais volume, contudo o barateamento é tanto que a qualidade acaba sendo ridícula. Será que os prefeitos não sabem que todo mundo já sacou essa estratégia há, digamos, uns 150 anos? Ninguém mais leva isso em conta na hora de votar.

Hoje os cidadãos hoje são muito conscientes a respeito de aspectos ambientais diretamente ligados à arborização, tais como aquecimento global, recursos hídricos, regimes de chuva, proteção de mananciais, assoreamento, preservação da biodiversidade, qualidade do ar. As pessoas querem que as gestões deixem legados positivos para serem continuados pelas administrações seguintes. É uma postura mais generosa, motivo de orgulho para a cidade a partir de, por exemplo, sua cultura de arborização iniciada em 2019. A gestão que começar naturalmente será beneficiada e lembrada, mas a que continuar também, pois a população reconhecerá nela uma continuadora desse aspecto tão positivo.

Preste atenção nesta conta rápida: um ano tem 365 dias e dois anos 730. Se o plano de arborização intensiva de sua cidade levar três meses para começar, foram gastos aí 90 dias com trâmites de contratação e sobram 640 dias trabalhados de segunda a domingo. Uma cidade pequena que plantar 10 árvores por dia terá, ao final dos 640 dias, 6.400 árvores plantadas. Se 50% delas forem frutíferas, teremos 3.200 pés-de-alguma-coisa distribuídos pela cidade, dando frutos, abrigando vida, fazendo sombra, reduzindo enchentes e retirando carbono do ar.

Uma cidade que plantar 20 árvores por dia incrementará o município com 12.800 espécimes ao longo de dois anos. Estou usando esses números de 10 ou 20 por dia para vermos que qualquer operação reduzida de arborização urbana pode gerar resultados incríveis.

Se numa cidade de 25 mil habitantes for posto em prática o plano de 10 árvores por dia, teremos praticamente uma para cada quatro habitantes, ou seja, uma para cada casa. Isto quer dizer que uma rua com todos os lotes construídos seria um corredor verde. Consegue visualizar o impacto deste plano básico?

Cada um pode fazer suas contas, mas para facilitar adianto aqui um último cálculo de botequim. O plantio de 50 árvores por dia renderia 32.000 árvores, numa cidade de 300.000 habitantes, oferta uma muda para cada nove habitantes — numa rua residencial é uma árvore a cada 2,5 casas, o que quer dizer uma árvore a cada 12,5 metros em bairros com lotes menores ou uma a cada 25 metros em bairros com lotes médios, de 10m de frente. Plantando 100 por dia, são 64.000 espécimes incorporados à cidade ao longo de 640 dias de trabalho.

Obviamente, há que se cuidar do tipo de arborização que será feita. Não adianta plantar gravetos ressecados que vão morrer, só para vender espaço publicitário na cerquinha em volta. Os espécimes precisam ter pelo menos 7 centímetros de diâmetro, 2 metros de altura e um estoque equivalente para reposição dos que morrem. É possível implantar árvores formadas, adultas, mas vou desconsiderar porque custaria caro para a cidade. O foco aqui é no baratex revolucionário.

Pense aqui comigo, qual cidade não perceberia este avanço? Que cidadão não iria notar? Qual escola não se animaria a colaborar plantando umas mudas pelo bairro no dia da árvore?

O pessoal está vacilando. Deveriam parar de falar em asfalto, lombada, semáforo e focar no plantio de árvores.