Amílcar de Castro, fundido e pleno
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Amílcar de Castro, fundido e pleno

Henrique de Carvalho

12 de julho de 2021 | 06h30

ilustração Amílcar de Castro

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho)

Com muito receio, fui ao MuBE, o Museu Brasileiro de Escultura, em São Paulo. A exposição, já sabia, não teria como ser ruim — era do Amílcar de Castro. O receio era pela pandemia e as possibilidades de contaminação. 

Minha esposa é médica especialista em UTI, intensivista, atende os casos graves de Covid-19 desde o início da pandemia, em 2020, e ficou de avaliar se estaríamos seguros lá na exposição. O cuidado do museu é excelente. Orientam tranquilamente, verificam o agendamento, todo mundo respeita, todo mundo se afasta, havia uma quantidade bem restrita de pessoas e tudo correu às mil maravilhas.

Mal sabiam Los Hermanos que um dia o “pra nós dois // sair de casa já é se aventurar” se realizaria tão literalmente.

O jardim de ferro

Ao chegar, contra o vão horizontal que há sob a cobertura do museu, está a escultura mais vertical do conjunto, monumental, deslocada de Uberaba pela primeira vez para dar-se a conhecer pelos paulistanos. Lembra o Franz Weissmann monumental e também vertical da avenida Paulista. Não é à toa. Ambos os autores participaram do Movimento Neoconcreto, resposta mais poética, mais solta, mais subjetiva e mais carioca (por que não?) ao dogmático Concretismo paulista. Penso que, enquanto o Concretismo explorava a lógica da forma como lógica poética, o Neoconcretismo dirigiu-se à poética da forma como forma poética. Os neoconcretos foram mais sintéticos, menos mecânicos e elevaram a sintaxe da abstração a um novo patamar.

Começar a frase assim “Amílcar foi um mestre da síntese” soa demasiadamente formal para falarmos deste mineiro boa praça, que não conheci pessoalmente, mas tenho como amigo do peito. O certo, o mais fluente, portanto, é dizer “O Amílcar”, com o artigo masculino antes do nome. O Amílcar foi um mestre da síntese. Exemplo disso são as dezenas de esculturas, em sua maioria compostas de uma única chapa grossa de metal, cortada e dobrada com precisão, de modo a fazer com que aquele objeto ganhe o espaço tridimensional e pare de pé.

O Manifesto Neoconcreto, publicado por Ferreira Gullar no Jornal do Brasil em 1968, era claro em suas proposições. A arte deveria ser participativa, tendo no espectador seu coautor, relacionando-se com a obra de maneira anti-estática. Lygia Clark, por exemplo, propôs esculturas que mudavam de forma o tempo todo, conforme fossem manipuladas. Chamaram-nas “bichos”. Já Amílcar faz com que nos voltemos para dentro de nós mesmos. Por mais que estejam estáticas e não possamos movimentá-las, o movimento está implícito em seu processo. É um movimento preciso e forte, capaz de dobrar placas de 6 a 10 cm de espessura, retomado por nossa imaginação, que logo passa a manipular a peça virtualmente, sem lado certo, elaborando outras possibilidades de disposição. “Como seria de cabeça pra baixo? E com aquela perna pra cima e não pro lado? Ficaria mais bonita apoiada aqui na pontinha desse triângulo.” Visitar esse amigo leva nossas mentes para passear pelo jardim da abstração geométrica e da inteligência em ferro manchado posto sob o Sol. 

Ao caminhar em torno das obras, elas, como o ferro quente, derretem-se formando um novo volume. Diferem de obras figurativas, estas bem mais previsíveis porque na figuração há o tema. A abstração as torna imprevisíveis e, portanto, renovadas a cada segundo. São duras e dançam.

Amílcar e o todo

As esculturas do Amílcar são como a criatividade mineira. O ferro é o que há de mais presente naquela terra, e é justamente de sua manipulação que brota a inspiradora novidade. O homem pega a matéria bruta, que é derretida e novamente ganha uma forma rígida, placa moldada pela vontade humana. Feita para ser manipulada, com toda a dificuldade que isso implica, move-se até virar poesia. 

Operar transformações na cultura é um processo semelhante. Somos originalmente brutos, sem nenhum molde. A cultura, uma tecnologia de agregação ordenada do grupo, serve de molde. Chato e quadrado. Empreendendo uma tarefa que exige força, persistência, lapidação e precisão, aquela parte nula torna-se única. O mesmo processo se dá em escala, na massa humana resistente a qualquer modificação, operando transformações lentamente nos contornos de um povo. Quando andamos em volta de algo, notamos que a rigidez da forma só existe a partir de um único ponto de vista. Tendo isso claro, a rigidez se converte em metamorfose, que recapitula o processo material e mental de sua conformação. Logo, todas as culturas são duras, multifacetadas e fluídas. Tal como todas aquelas esculturas — duras, multifacetadas e fluidas. Cada pessoa é como cada uma daquelas peças. São basicamente a mesma coisa, repetida mil vezes, variando nos traços e na força que incide para modificá-las. 

É assim que o Amílcar nos ensina sobre pessoas, culturas e esculturas. Ainda que neoconcreto, localizado em seu momento histórico, ele nos leva para fora do tempo, para um desde sempre e para sempre contínuo, continuum, duro e fluido, estático e dançante, em suspensão não-dialética onde opostos coexistem harmonicamente.

Não sei se há algum outro movimento artístico mais didático do que o Neoconcretismo, que é didático, sem ser ingênuo, e vai fundo na busca do significado essencial. É essa capacidade de falar para além de seu tempo que configura a grande arte. 

Isso é lindo porque embaralha a linearidade do tempo, os estilos e coloca tantos de nossos amigos em comum simultaneamente em primeiro lugar: o Amílcar, o Ziraldo, o Rembrandt, a Lygia, o Tom, o Miró, a Betânia, o Machado, o Nuno, o Gilberto, a Iole, a Bia, o Man Ray, o Yamandú, o De Kooning, a Dorothy, o Cildo, a Lina, o Oscar, o Calder, o Geraldo, o Ferreira Gullar, a Lygia, a Gal, o Caetano, o Beckett, a Bia do Antônio, a Adriana, o Gil, a Mônica, o Milton, o Sorrentino, a Elis. Uma lista seletíssima e infinita.

Quem diria que o Amílcar, moderno, seria tão pós-moderno ao fundir contradições aparentemente tão inconciliáveis.

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Para saber mais desses meus amigos, dou seus nomes completos e sem o artigo que precede o nome, indicador de afeto no português do Brasil. Sem o artigo, diria serem artistas que cito:

Amílcar de Castro, Ziraldo, o Rembrandt, Lygia Clark, Tom Jobim, Miró, Maria Betânia, Machado de Assis, Nuno Ramos, Gilberto Mendes, Iole de Freitas, Beatriz Milhazes, Man Ray, Yamandu, De Kooning, Dorothea Lange, Cildo Meireles, Lina Bo Bardi, Oscar Niemeyer, Calder, Geraldo de Barros, Ferreira Gullar, Lygia Pape, Gal Costa, Caetano Veloso, Samuel Beckett, Beatriz Bracher (referi-me ao seu livro Antônio), Adriana Calcanhoto, Gilberto Gil, Mônica Salmaso, Milton Nascimento, Paolo Sorrentino, Elis Regina.

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