A nova onda de contaminação, covid e o que faremos dele _ parte 1
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A nova onda de contaminação, covid e o que faremos dele _ parte 1

Henrique de Carvalho

29 de novembro de 2020 | 07h30

Ilustração de Henrique de Carvalho sobre pandemia coronavírus

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho)

A nova onda de contaminação, covid e o que faremos dele _ parte 1

[ou, parafraseando Sartre, “e o que faremos com o que ele fez conosco”.]

Chegamos à segunda onda de contaminação pelo coronavírus. Anuncia-se mais forte do que a primeira e, em nosso território, chega sem termos passado pela baixa radical no gráfico de contaminações e mortes, que só teria sido possível como decorrência de um isolamento que, na escala da população, não praticamos.

Minha esposa é uma heroína. Médica intensivista (especialista em terapia intensiva), é professora de técnicas de ventilação mecânica e, justamente por suas competências, foi a primeira designada para a ala de pacientes graves contaminados pelo covid no hospital onde trabalha. Na segunda-feira passada, assim que chegou ao plantão, ela me escreveu assustada, “Está pior do que em maio, não há mais leitos, devem até abrir uma terceira UTI no hospital”. No pico, em maio, atenderam só com duas UTIs.

Muitos não fizeram a quarentena corretamente — seja por imposições da vida ou por puro descaso mesmo. Observamos atividades serem suspensas na proporção inversa à força do lobby de seus setores. Muitos segmentos sequer pararam, como a construção civil e o transporte de passageiros em geral (metrôs, ubers, táxis, ônibus). 

Agora vivemos displicente e normalmente em um falso normal, dada a reabertura gradual de serviços. É bem provável que sigamos assim, com altas taxas de contaminação e óbitos, até a imunização geral decorrente da vacina que garantirá a retomada da vida mais próxima do que vínhamos experimentando como normal.

Voltaremos à normalidade?

E como será no depois? Retomaremos a vida normal? Haverá um normal “normal” mesmo?

Tenho a sensação de que por mais uns dois anos seguiremos usando máscaras e ressecando nossas mãos com álcool gel a cada maçaneta ou botão de elevador acionado. Não é uma verdade, mas um sentimento meu este. Nossa estrutura psíquica certamente terá se desestruturado. Não estaremos no nosso normal ao voltarmos à rotina com a retomada geral.

Não haverá um novo normal. Essa expressão, além de falsa, é ridícula. Não há mais o novo. No estágio de pós-modernidade em que nos encontramos, o que há é o outro, não o novo. Inclusive considero a possibilidade de o novo nunca ter existido e ter sido mera ilusão coletiva, ficção compartilhada no século XX e disseminada, contaminando profundamente todo o mundo ocidental e boa parte do oriental. Pondero que a ficção do novo pode ter matado mais gente do que o covid com suas imposições de renovação e assepsia existencial a qualquer custo. A ideia de novo foi uma “fake news” que sustentou conceitualmente o moderno — arquitetura moderna, arte moderna, vida moderna.

Se a metáfora para o período entre o final do século XIX e segunda metade do século XX foi a fumaça da queima de motores, usinas, geradores e, mais tardiamente, tecnologia nuclear, a metáfora para o início deste século XXI são as nuvens, tanto as de gotículas de água em suspensão gelada como de gafanhotos famintos e vorazes.

Entraremos portanto num outro normal. Outro, não novo. Nele teremos vontade de voltar ao nosso velho hábito, mas estaremos traumatizados, condicionados pelo medo, cheios de cacoetes e tiques. Estaremos sempre sob alguma forma de suspeição biológica pois, a qualquer sinal de encontro, acionaremos uma consciência defensiva quase palpável, alertando-nos do risco iminente de morte por algo invisível e indeterminável, literalmente pairando no ar. E não será então o coronavírus, mas algo outro, indefinido ainda, e com potencial para nos afetar.

Sempre estivemos sob risco — ainda mais no Brasil –, mas é possível que saiamos desta pandemia sendo ainda menos convincentes no fingir estar tudo bem, tudo normal. Não teremos mais o nosso conhecido normal e nem teremos um novo, porque de novo ele não tem nada, não houve nenhuma revolução para o designarmos como tal. Teremos sim um outro normal e, desta vez, contaminado pelo covid por meio de nossas experiências traumáticas.

Real?

Uma vez que nossa cultura estará desestabilizada, como na dispersão de partículas em uma tosse, e nos faltará fôlego, como será tratado o real? 

A realidade, que nunca existiu e foi sempre composta de pontos de intersecção comuns entre topografias de realidades que se tocam, terá se desencaixado mais do que de costume. A disjunção que havia em suas camadas estará ainda mais evidente.

Pessoas sensíveis a estes eventos — justamente aquelas sempre menos adaptadas a qualquer normalidade de qualquer época que seja –, manifestarão os sintomas disso que em breve estaremos vendo mais nitidamente. Seja na economia ou nas sensibilidades humanas, precisaremos de um reforço biônico até a restauração de nosso fôlego. Não será fácil. 

Assim como numa internação em estado grave, a introdução da ventilação mecânica pode nos tranquilizar e nos fragilizar ao mesmo tempo. Muita coisa vai falhar, nesse processo, em nosso corpo social e precisaremos ser fortes para sair bem ao final. Por exemplo: estímulos externos já se fazem necessários para que a economia possa retomar certo ar de normalidade — não que ela seja um fenômeno natural, obviamente não é, mas seu funcionamento flui com certa organicidade uma vez que é impossível determinarmos as ramificações de todos os seus processos.

Imaginário?

Estaremos muito fragilizados e os artistas terão um papel importantíssimo nesta retomada da vida em seu formato mais expansivo. Será preciso responder ao esgarçamento do tecido social. Não haverá normal porque ele nunca existiu, mas haverá a retomada do fôlego que nos leva adiante na vida.

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