A Família Lima vai te ensinar a salvar o Brasil
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A Família Lima vai te ensinar a salvar o Brasil

Henrique de Carvalho

25 Dezembro 2018 | 19h30

Reflexões natalinas propiciadas pela Família Lima (ou “Isto é sobre Brasil, modernismo, pós-modernidade e valores culturais”)

Campo Grande, Mato Grosso do Sul. É meu destino recente para as festas de Natal. A família de minha esposa vive aqui e pra cá vêm meus cunhados e sobrinhas — de quem sou escravo devoto. Está virando tradição, e tenho achado interessante acompanhar a movimentação da cidade todo final de ano, observando suas transformações gradativamente. Em 2018, contudo, surpreendeu-me positivamente o investimento que a cidade faz, incorporando a cultura de estar do lado de fora, estar na rua, desfrutando de espaços abertos.

Diferente do que seria meu programa fora daqui, fomos a uma montagem cenográfica chamada “Cidade do Natal”, para passear com as crianças. Ali é colorido, fica ao lado do parque das nações indígenas, tem um mini-parque-de-diversões e pratos típicos como sobá, uma espécie de yakissoba sul-mato-grossense, e churrasco acompanhado de mandioca cozida. Também é comum haver shows, onde podemos conhecer os músicos locais e também convidados de outras cidades do país. A organização é exemplar.

Antes preciso falar de minha percepção geral da cidade.

Campo Grande e, principalmente, o campo-grandense

O campo-grandense tem por cultura desfrutar das áreas externas. A cidade é quente, eles gostam de encontrar pessoas e parece que tomar tereré gelado tem mais graça na rua do que dentro de casa. Para quem não conhece, tereré é uma espécie de chimarrão gelado, com um pouco de limão na água e tomado em cuia de chifre de boi. Já vi gente tomando no interior de São Paulo, mas aqui disputa em orgulho da terra com o sobá.

Próximo ao aeroporto há grandes espaços livres abertos dos dois lados da avenida e entre as pistas que vão e vem. Estas áreas são espontaneamente ocupadas por uma multidão, que se organiza informalmente e leva pra lá cadeiras de armar. Ficam sentados, conversando, tomando alguma coisa, jogando bola, enquanto os filhos brincam ali perto com outras crianças que encontram. Naturalmente, vem na seqüência o comércio informal para dar suporte e aproveitar o potencial de consumo deste público.

Imagino que este hábito se dê por ser Campo Grande uma cidade jovem e ainda cheia da memória dos pastos abertos de grandes fazendas e dos planaltos e chapadões habitados pelos povos originários daqui. A cidade, hoje capital, foi fundada como campo de cultivo, desbravado em 1872 por um mineiro, 105 anos antes do desmembramento da porção sul do Estado do Mato Grosso em Mato Grosso do Sul, que por pouco não foi nomeado Estado de Campo Grande.

A maioria dos habitantes daqui têm relação direta com a vida no campo — são filhos e netos de agropecuaristas, e alguns ainda vivem entre o campo, com fazendas em cidades próximas, e a casa na capital do Estado. Existe aqui não uma nostalgia, mas uma cultura viva da vida no campo e em contato com a natureza, desdobrada no hábito urbano campo-grandense por meio do gosto pelos espaços abertos. É onde eles se reconectam com suas origens ou, pra ser mais preciso, com suas matrizes culturais.

A herança indígena é também muito forte no modo de ocupar a cidade, na alimentação e na cultura popular. Diferente de outros grandes centros, aqui são consumidas muitas frutas diferentes — exóticas só pra quem é de São Paulo –, oriundas da rica vegetação local e integradas ao cardápio e aos quintais da maioria das pessoas. Como devia ser com os indígenas habitando as matas, aqui a gente anda olhando pro alto querendo saber que fruta é aquela pendurada na árvore próxima. Eu, claro, sempre quero provar e as surpresas são bastante positivas.

Há o Parque das Nações Indígenas, um dos maiores parques urbanos da América Latina, com equipamentos esportivos, vasta área verde, lago, capivaras, árvores frutíferas, o Museu de Arte Contemporânea, o Museu das Culturas Dom Bosco, projeto muito bonito lembrando a fase dos tijolinhos de Mario Botta, e o aquário sempre em construção — no caso, sempre com a construção parada por polêmicas orçamentárias, dessas que a gente conhece bem, presentes em muitas obras públicas. O projeto é uma nave espacial moderníssima, em forma de ovo, desenhada por Ruy Othake. Todo ano torço para que esteja pronto, queria visitar, mas está sempre parado. Se toda cidade tem sua catedral, esta é a deles, levando séculos para ser terminada. Independentemente da finalização desta obra, o parque é lindo, usado pelas pessoas, sem a muvuca do Ibirapuera, livre de administração bancária carimbando seus “modos de usar”, com árvores exuberantes, cigarras e, uma de minhas paixões aqui, as araras. A experiência de estar junto àquela massa de penas coloridas, com cerca de dois metros de envergadura, pairando a 15 metros de altura enquanto voa de uma copa a outra, é indescritível.

É neste parque, em sua porção junto à Avenida Afonso Pena, uma das grandes avenidas arborizadas e equipadas com ciclovia independente da via de automóveis, que podemos encontrar a Cidade do Natal — sim, dá pra ir de bike e em segurança.

Impressiona a organização que a cidade imprimiu ao espaço. É fácil circular por entre a decoração luminosa, com monitores sempre educados, fácil ir aos quiosques de alimentação, pedir, sentar e ainda conta com espaço coberto para shows, promovidos durante todo o período de festas.

O show da Família Lima, erudito popular

Anteontem fomos até lá para o show da Família Lima. Já esperava um bom show, sei da qualidade dos músicos e acho interessante que tenham agregado muito ao seu repertório sem perder a identidade de um grupo que nasceu criando arranjos modernos para clássicos da música erudita. Tocaram músicas populares e também apresentaram arranjos instrumentais para belíssimas peças do Led Zeppelin, por exemplo, mas foi incrível ver a capacidade que eles têm de lotar um recinto de espetáculos com pessoas interessadas em vê-los (e ouví-los) tocar Vivaldi, Puuccini, Beethoven, músicas tradicionais espanholas, nosso grande Carlos Gomes, entre outros.

Eles atuam num segmento da arte que se conecta ativa e interativamente ao público presente, com grande capacidade de contagiar as pessoas e dividir com elas um pouco da beleza que sabem produzir em sons, gestos, luz e nuvens de fumaça. Quando envoltos por gente externalizando a animação em apreciar tão boa performance, tudo ali fica ainda melhor. E assim foi, com jovens dançando Vivaldi, velhos gritando com Puccini, crianças batendo palmas com Carlos Gomes e famílias animadas com Led Zeppelin em arranjos para violino, violoncelo, piano, violão, guitarra, baixo, bateria, escaleta, sintetizadores e ukelelê.

Gosto de imaginar os autores destas peças clássicas felizes com os arranjos para a nova tecnologia, com a receptividade do público e, ainda, abismados com a capacidade dos músicos que tocam tudo sem partituras — “Como eles decoram tudo isso?”, diria Mozart. Lembremos que houve experimentação de tecnologias recentes tanto em Bach como em Pink Floyd. É emocionante ver o carisma deles e sua capacidade de juntar cerca de mil pessoas, num dia de chuva, para ouvir e curtir música clássica, da melhor qualidade. Pela primeira vez achei positivo ver tantos celulares levantados para filmar e gravar, pois faziam isso pra ouvir de novo, depois, e mostrar essas coisas boas aos amigos.

Atentemos que não se trata aqui de sacralizar o que é popular. Longe disso. Sou crítico desse tipo de postura que atravanca avanços importantes. A sabedoria popular tem pouco de sabedoria e muito de popular no sentido de uma irracionalidade empobrecedora que o termo pode conter. Há, mais do que nunca, muita coisa ruim sendo consumida sem moderação, tanto na música como no setor alimentício — ou, mais recentemente, nas urnas eleitorais. Esse é o mundo em que vivemos, um mundo pós-moderno que entende haver qualidade depois ouvir um milhão de vezes que há qualidade, independente do discernimento essencial do ser humano indicar não haver qualidade alguma.

Para além do belíssimo show, fez-me refletir sobre aquela arte que demanda alguma relação com o público. E antes que fale de arte, fala de relação com o público.

Impossibilidade de ser moderno: a relação da arquitetura com a cultura popular (… já-já eu retomo à Família Lima)

A arquitetura moderna teve, em alguma medida, um processo de crise e assimilação em sua relação com o público, ou seja, em sua relação com a cultura em geral. A modernidade em arquitetura começa no final do século XIX e tem seu esgotamento conceitual no início dos anos 60, quando as primeiras manifestações pós-modernas sinalizaram o interesse em constituir algum tipo de relação com o público sem querer transformá-lo em operadores conscientes de uma nova realidade — o sonho com uma nova realidade, positivada, liberta pelo progresso, acabou junto com a Segunda Guerra Mundial; em arquitetura durou um pouco mais, porque a arquitetura moderna serviu bem à necessidade de reconstrução dos países devastados, mas perdeu o sentido diante das elaborações contraculturais dos anos 60.

Enquanto na Europa os pós-modernos resgatavam informações da arquitetura clássica e de extratos antigos presentes no desenho das cidades, interessados em recriar conexões aparentemente perdidas pela abstração hermética da arquitetura moderna, nos Estados Unidos esta relação se deu associando certas referências construtivas tradicionais à cultura de massas — entendendo tanto a mass media como promotora cultural quanto o consumo de massas como cultura a partir do consumo.

Por aqui, nós passamos de um jeito estranho por tudo isso. Chegamos com quase 50 anos de atraso à arquitetura moderna — final do século XIX na Europa (por volta dos anos 1880) contra final da década 1920 no Brasil. Em uma sociedade que nunca se modernizou de fato, como aconteceu na Europa, por exemplo, nosso modernismo era a expressão de uma vontade e tentativa de sermos modernos sem implementar efetivamente os recursos necessários à modernização social (por exemplo: acesso à educação de qualidade, desenvolvimento industrial, produção de tecnologias, investimento em infraestrutura, exportação de produtos de alto valor agregado, urbanização maciça, dinamização da economia, integração da cultura de planejamento).

No Brasil, grandes arquitetos modernos estiveram ligados ao departamento de patrimônio histórico juntamente com Lúcio Costa, seu fundador, que antes de se dizer modernista defendia o estilo colonial como representante oficial de uma arquitetura genuinamente brasileira.

Por um lado, nosso modernismo nasceu impossibilitado de ser verdadeiramente moderno por não estar em ambiente moderno, uma vez que o país nunca incorporou os avanços e regulações sociais, humanistas e civilizatórios da modernidade mais plena. Por ouro lado, incorporou muito de nossa tradição construtiva colonial, antecipando em trinta anos o debate da primeira fase pós-moderna que estaria por vir. É como se nosso modernismo, impossibilitado de ser moderno, sem querer, virou pós-moderno como um modo de ser moderno — e não para estar fora do movimento.

O modernismo arquitetônico brasileiro, mesmo dentro das limitações apresentadas, encontrou saídas tão interessantes, inclusive plasticamente, que influenciou de volta todo o modernismo Europeu. Niemeyer foi o nosso Miró e, mais do que isso, o Miró mundial da arquitetura. Quando falamos dos grandes nomes da arquitetura moderna mundial, a lista é, sem ordem de importância, Frank Lloyd Wright, Mies van der Rohe, Le Corbusier e Oscar Niemeyer. Há controvérsias? Claro que há. Eu mesmo substituiria FLW por John Lautner, sem pestanejar. Mas deixemos assim porque este não é o tópico.

A aula da Família Lima

E o que tudo isso tem a ver com a Família Lima? Se nosso modernismo, agindo por instinto, incorporou à arquitetura moderna a comunicabilidade brasileira, a displicência como leveza criativa (e não como desleixo), como um músico de jazz mais livre a improvisar, os músicos citados incorporam aos clássicos eruditos as mesmas qualidades de comunicação e leveza criativa.

Talvez seja isso o que mais nos tem faltado. O país se perdeu em seus defeitos ao invés de desfrutar de suas qualidades. Tornamo-nos bravos em nossa burrice, falta de educação e argumentos irracionais, frutos da mesma matriz geradora de qualidades: nossa comunicabilidade espontânea e de nossa informalidade (neste caso, uma displicência tomada como desleixo mesmo, e não como da leveza criativa).

Agora que a coisa está grave e parece não haver saída, na Cidade do Natal (imagine só!), aprendo que resta-nos a disponibilidade pessoal para agir a partir de nossas qualidades, capazes de transformar o erudito em popular, com alegria e carisma e acrescentando conteúdo ao invés de subtraí-lo. Assim foi nossa arquitetura moderna, ensinando todo mundo a desenhar melhor. Em uma construção a partir da iniciativa individual e independente do mito do pai nacional (que não há), a Família Lima tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e tudo o que ainda podemos ser, se realmente quisermos.

 

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Para quando vier à cidade de Campo Grande:

http://www.fundacaodecultura.ms.gov.br/

http://www.mcdb.org.br/