A cultura de parques no Brasil
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A cultura de parques no Brasil

Henrique de Carvalho

28 de fevereiro de 2022 | 15h19

Ilustração para texto sobre livro Parques Urbanos no Brasil EDUSP 2022

Ilustração do autor (Henrique de Carvalho)

É inegável que todas as nossas cidades precisam de mais parques e áreas verdes disponíveis para uso público como áreas de descompressão, convivência, invenção, liberdade e contato com a natureza.

Reunindo bons exemplos de áreas livres urbanas por todo o Brasil, a Editora da Universidade de São Paulo, EDUSP, reimprimiu em 2021 a 3ª edição do livro Parques Urbanos no Brasil, de Silvio Soares Macedo e Francine Gramacho Sakata.

Fruto de anos de pesquisa do grupo Quapá, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), o volume nos apresenta 111 importantes parques espalhados pelo país, distribuídos em 18 cidades. É uma edição caprichada, bilíngue, com cerca de 215 páginas em formato quadrado, que comporta boas fotos e diagramas sem estarem apertados ou recortados.

O tema é essencial. Nossas cidades precisam de muito mais áreas verdes. Se algumas poucas podem até ter esta necessidade bem atendida, a maioria delas não tem sequer uma boa praça em cada bairro, ou um bom parque na cidade.

O tema é essencial. Nossas cidades precisam de muito mais áreas verdes. Se algumas poucas podem até ter esta necessidade bem atendida, a maioria delas não tem sequer uma boa praça em cada bairro, ou um bom parque na cidade.

São escassas as alternativas de lazer ao ar livre e de contato mais prolongado com um pouco de natureza. Em São Paulo, por exemplo, parques como o do Ibirapuera têm sofrido com a superlotação. Deixou de ser um lugar tranquilo, com espaço para estarmos mais à vontade, para tornar-se um local barulhento e tumultuado, onde anda-se esbarrando e pedindo licença a toda hora. Ainda tem sua graça, algumas áreas ainda são mais reservadas, mas seu congestionamento denuncia a escassez de nossos espaços de lazer e quão sedentos estamos por um oásis urbano.

Exemplo da falta de alternativas é a ocupação do Minhocão aos finais de semana, um viaduto de concreto e asfalto. É louvável a iniciativa. Há ali uma estranheza tomada por charme inusitado, como se fosse uma área verde de mentira. Entretanto, adotar esse espaço como parque é sintoma do desespero pela ausência de opções viáveis e qualificadas.

Diversas saídas são viáveis. De um lado, há inúmeros espaços públicos indisponíveis dado seu estado de abandono, degradação e insegurança. De outro, há diversos espaços que poderiam ser promovidos pela publicidade institucional da cidade. Ao divulgar as qualidades de cada espaço, as pessoas poderiam variar mais o cardápio de parques, encontrar opções próximas ou mesmo alternativas mais compatíveis com seus interesses.

É espantoso ver quase trinta parques no capítulo dedicado a São Paulo. Pensando conhecer muitos, descobri que meu repertório era bem pequeno. Mais da metade nunca visitei. Isso faz do livro Parques Urbanos no Brasil uma obra não só para especialistas, pois as pessoas podem adquiri-lo para montar seus roteiros de passeios pelas cidades.

Um dos atrativos do livro é a capacidade de síntese sem empobrecer a informação. A maioria dos parques é apresentada em uma página, às vezes duas, no formato de uma ficha técnica muito eficiente. Há ali o endereço, fotos, texto descritivo, data de inauguração, dimensões, atrações, nome do autor e um desenho em planta muito elucidativo. Consulto muitos livros de arquitetura, e é difícil o projeto de um parque ser apresentado com tanta clareza em um desenho pequeno como os de um livro de arquitetura e paisagismo. Com facilidade identificamos se há cursos d’água, o volume da vegetação mais alta, equipamentos de lazer, estufas e até características do relevo.

Além da lista de parques, as primeiras 70 páginas constroem um belo panorama que perpassa a conceituação dos espaços livres em contexto urbano, a história do paisagismo, exemplos nas cidades brasileiras, algumas abordagens emblemáticas, reflexões sobre o papel desses espaços e de seu papel no contexto atual de nossa cultura. O interessante é que a explicação é dinâmica, não exatamente cronológica, e logo no início já é citado o Parc de La Villette, um caso paradigmático de parque contemporâneo muito bem-sucedido em Paris, justamente por estar integrado a diversas escalas de uso. Como o texto está organizado em blocos curtos, isso torna a leitura tão agradável quanto a de uma boa revista de interesse geral – que saudade do tempo em que líamos mais revistas do que notícias de internet!

O trecho que trata da evolução das linhas de projeto paisagístico certamente interessará a qualquer pessoa minimamente curiosa. Lembro-me de este ser um assunto fascinante de descobrir em minhas aulas de paisagismo e torna-se facilmente tema de interesse para as conversas entre amigos ou mesmo para aumentar sinapses durante quaisquer viagens.

Se há alguma crítica a fazer, senti falta de uma capa dura na edição, pois  merece – ainda que entenda sempre haver ponderações relativas aos custos de edição –, e talvez um texto introdutório complementando a bela apresentação feita pela grande paisagista Rosa Kliass. Dadas minhas preferências localizadas, adoraria se esse outro texto fosse de algum paisagista internacional, como Peter Latz ou Kathryn Gustafson, pois serviria de contraponto complementar à nossa rica tradição cultivada a partir de Burle Marx.

Vejo, portanto, o quanto gostei da edição, que aqui em casa está sempre por perto desde que chegou. Soma-se ao interesse natural o fato de, onde me formei, na UNESP-Bauru, o ensino de paisagismo e a própria reflexão sobre projeto como paisagem serem assuntos bastante explorados. Isso traz certo sabor nostálgico ao mesmo tempo que retoma um tema de grande interesse.

Deixo minha sugestão para que os pesquisadores da UNESP-Bauru, onde sei haver reflexões consolidadas e originais, produzam um volume próprio, abordando temas complementares – penso aqui em eco-estruturas urbanas no Brasil –, acrescentando suas considerações ao debate. Seria um registro importante, do maior interesse para especialistas e o público em geral, e a qualidade do formato adotado pelo Quapá para a Edusp poderia servir de inspiração.

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