A cidade da destruição
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A cidade da destruição

Henrique de Carvalho

22 de setembro de 2019 | 06h30

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Criação artística de Henrique de Carvalho a partir de foto de Gabriel de Andrade Fernandes publicada no site vitruvius.com.br.

 

Recentemente estudei um texto que traz dois conceitos muito interessantes: destruição positiva e destruição negativa. Inicialmente achei reducionista. Pareceu-me estranho, desnecessário e inútil para a vida cotidiana de qualquer pessoa. Mas, ao lê-lo, me dei conta de ser esta uma síntese da vida. 

Síntese disfarçada de mera explicação acerca de como as cidades se desenvolvem em ciclos de intervenção na arquitetura, trata-se de uma reflexão profunda a respeito da natureza dos lugares em que vivemos que me fez pensar em como isso tem a ver com a vida e como ocorre na construção do Brasil.

Edgar Morin destaca em seu livro “Introdução à Teoria da Complexidade” que, em certos momentos, é preciso isolar e simplificar para estudarmos certos fenômenos em profundidade para, depois, construir um conhecimento maior a respeito deles juntos novamente, a fim de termos uma consciência maior e mais integrada, somatória de complexidades associadas, a respeito do mundo em que vivemos.

O tema da destruição, dividida em positiva e negativa, não é portanto maniqueísmo, mas método no caminho de uma compreensão maior que associe ambas.

Primeira parada

Destruição positiva é aquela empreendida sobre um local que não corresponde mais aos usos feitos pela sociedade, ou seja, que tornou-se problemático, não fala de nossa identidade, não tem valor simbólico ou, ainda, é algo descartável, desimportante. 

Um exemplo prático é a melhoria de um ponto de ônibus. Havia um pau espetado na calçada e ali era o ponto de ônibus. Esse espeto dava sentido a este local. As pessoas se dirigiam para lá para tomar o ônibus, se encontravam, partiam e chegavam dali diariamente. O lugar existe, o sentido existe, a referência existe, mas o toco de madeira estava ali só para sinalizar onde era o ponto de ônibus. Simplesmente tirar este pedaço de madeira pode confundir tudo, pois há todo um código implícito por trás deste elemento reduzido ao mínimo, já na borda do não existir. É até bonito vermos assim, dá vontade de manter todo ponto de ônibus como peça de madeira espetada no chão, mas o fato é que a peça física não tinha nenhuma importância contida nela mesma. Em dias de chuva todo mundo se molhava, gestantes e idosos não tinham onde sentar e, em dias de sol, todo mundo era democraticamente cozido durante a espera.

Um dia resolvem melhorar os pontos de ônibus da cidade e, no lugar do simbólico poste, foi colocada uma cobertura que não esquenta, instalaram bancos confortáveis e proteções laterais para proteger as pessoas em dias de chuva-de-vento. Destruiu-se o objeto anterior para construir algo melhor sem perder o sentido do lugar. O que havia anteriormente não atendia mais às exigências da sociedade. Assim pode ser com uma ponte sem nenhuma importância histórica e ineficiente, quando ela for destruída para que se faça uma nova no lugar. Assim foi com muitas catedrais, hoje protegidas como patrimônio, mas que evoluíram de pequenas capelas, ampliadas, demolidas e refeitas sucessivas vezes até tomar a forma de bem coletivo hoje conhecida. Independente da superada crença cega no progresso redentor da humanidade, a positividade do termo está de alguma forma atrelada a algum progresso que, neste caso, é de outra ordem: do social, do material e da vida prática de todos os dias da qual ninguém se dá conta e simplesmente faz, adapta, empurra, ajeita, até que não dá mais e é preciso por algo melhor no lugar. Daí destruição positiva.

A destruição negativa tem nas guerras um de seus exemplos mais óbvios. Guerras são atitudes muito primitivas, então imaginemos que numa guerra bem antiga um povo invade o território do outro e, para impor seus valores sobre os invadidos, destrói seus monumentos, põe fogo nas casas, arrasa as ruas, derruba os muros, joga sua arte no rio e impede a prática de seus costumes. Mais do que destruir construções, ali está sendo destruída uma cultura com a intenção de apagar algo valioso para impor outros valores e impedir a continuidade dos anteriores. 

Guerras são tão primitivas que, mesmo o exemplo sendo o de uma guerra antiga, fica igual em uma da atualidade. Mudam as tecnologias superficiais, flechas e bolas com fogo viram raio-laser e mísseis controlados por computador, mas a tecnologia mais profunda empregada, a humana, é a mesma: a burrice, a ganância e o ódio — e antes disso o instinto ainda mais primitivo de animais assustados que reagem, com violência excessiva e covarde, diante da insegurança transformada em monstro mitológico a nos assustar.

Há casos de catedrais poupadas na Segunda Guerra Mundial, quando um exército planejava bombardear uma cidade. Tentavam minimizar a negatividade da destruição ali impressa, mesmo que não houvesse nenhuma possibilidade de destruição positiva no que estavam fazendo.

Confundindo as coisas

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Catedral de Santa Sofia (Hagia Sophia), Istambul (Turquia), coletada em https://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Sofia

A catedral de Santa Sofia é um exemplo complexo das contradições que emergem quando aplicamos os conceitos de destruição positiva e negativa à análise das construções muito antigas. Apesar do nome, ela não é dedicada à santa, mas a Logos, entendido por seus construtores como sendo a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Sophia, neste caso, é a transliteração fonética, em latim, para a palavra grega “sabedoria”. Seu nome correto é “Igreja da Santa Sabedoria de Deus”.

Construída pelo imperador Justiniano I entre os anos 532 e 537, sua dedicação a Logos já exemplifica a apropriação do cristianismo primitivo por valores greco-romanos. Esta apropriação teria sido uma destruição negativa querendo anular a religião nascida no primeiro século ou uma destruição positiva por integrar valores daquele povo à então religião oficial do Império Romano do Oriente e, consequentemente, ao edifício erigido?

Em 1204 a cidade foi saqueada e a construção se converteu em catedral católica romana. Destruição negativa. Em 1261 ela retorna à sua função original de catedral do que hoje chamamos de igreja ortodoxa. Destruição negativa de valores ali integrados por quase 60 anos, mas positiva por reintegrá-la à cultura da cidade e de seu povo.

Em 1453 a cidade de Constantinopla foi tomada pelo sultão Maomé II, o Conquistador, que orientou a conversão da igreja em mesquita. Ícones católicos foram removidos, mosaicos cobertos com gesso e acrescentaram-se a ela os quatro minaretes islâmicos. Este é um caso típico de destruição negativa promovida pelo povo invasor. Serviu como mesquita até 1931, quando foi convertida em museu secular — templo contemporâneo do culto ao conhecimento (Sophia), ironicamente — e podemos entender as obras de restauração de seus mosaicos como um tipo de destruição positiva, por trazerem à tona a memória deste edifício, um serviço cultural dos dias atuais. Será que daqui a mil anos não considerarão que a mesquita foi invadida pelo secularismo ocidental num processo de destruição negativa daquela religiosidade islâmica? 

São Paulo, o Brasil e a vida (não nesta ordem)

Assim é com a vida e seus ciclos de destruição. Nossa vida tende a ser, ou desejamos que seja, um contínuo processo de construção para melhor e, se certas destruições são necessárias, que sejam positivas. Contudo, o triturador de esperanças é forte e tenta diariamente destruir negativamente, anular, a realização de nossa originalidade em favor da adequação ao redundante preexistente.

E o que temos visto é o mesmo já visto. Com nosso jeito doce de exercer a violência, sabemos imprimir a destruição aniquiladora simplesmente deixando de fazer. Deixamos de fazer bom uso, deixamos de fazer manutenção, deixamos de fazer direito, deixamos de respeitar, deixamos de educar, deixamos de evoluir. Tudo já nasce deteriorado, ou queima da noite pro dia, como se ninguém imaginasse ou porque ninguém sente falta do que nunca teve de fato. Lembrei do Museu Nacional, perda inestimável. Lembrei do Museu da Língua Portuguesa, do Instituto Butantã, do acervo Hélio Oiticica. Lembrei que no começo de setembro o “Conjunto de Vilas Operárias Migliari”, no Tatuapé, teve 55 de suas 60 casas demolidas para construir no lugar mais um prédio bege com vidros espelhados.

A cidade de São Paulo passou por um processo radical de demolição de suas construções antigas para colocar edifícios mais modernos e mais altos no lugar. Nessa época em que o dinheiro do café veio para a indústria, decisões eram tomadas num espírito de afirmação da cidade moderna, integrada à era da máquina, posta sobre a cultura agrícola, tida por antiga. Precisavam afirmar isto em imagem e espaço para a encenação do progresso paulista, ou seja, para si mesmos. O processo foi longo e acho que ainda segue, tornou-se um modo de fazer “bem à paulista”, meio bandeirante tosco, sem muita reflexão, desprezando a inteligência e o planejamento e, assim, desqualificando a ação e seu resultado.

Somos, talvez, uma cidade em constante processo de destruição negativa. Enquanto núcleos isolados fazem das tripas coração para construir algo positivo ou empregar destruições positivas — como foi a reforma da Pinacoteca, por exemplo –, uma força maior parece querer anular vestígios de conquistas anteriores. Estamos o tempo todo em guerra contra nós mesmos.

Enquanto um objeto físico existe, todos se lembram de sua história, de quem fez, dos debates em torno dele, das polêmicas. Quando ele é destruído, o cultivo diário da lembrança perde espaço para gradativo esquecimento.

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