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Zé Paulo ao pé do ouvido

Haisem Abaki

18 de julho de 2020 | 12h25

O momento é de tristeza, mas em meio às lágrimas dessas últimas horas me vieram boas lembranças e até algumas gargalhadas “mentais”. Tudo isso provocado por um cara que está em minha vida há 47 anos. Assim mesmo, com o verbo no presente para sempre, nunca no passado.

Todo mundo conhece o Zé Paulo da voz forte, impetuoso, incisivo, desafiador, canhão do Rádio. Talvez pouca gente conheça o Zé Paulo da voz mansa, carinhoso, suave e das palavras em forma de flores. Convivi com “os dois” e o “segundo” reapareceu agora em duas memórias inesquecíveis.

Um dia, estávamos na rotina de trabalho quando a querida Silvânia Alves, produtora dele, veio avisar que o Zé estava passando mal. Ele sentia dores no peito, mas dizia que iam passar. Teimoso, queria ficar apenas alguns momentos na sala dele enquanto o programa estava no ar. Foi a nossa vez de ser “Zé Paulo” com ele. Deu risada com tanta preocupação, mas obedeceu e aceitou que eu fosse com ele ao Hospital Dante Pazzenese.

No caminho, parecia que era eu que sentia as dores e ele me confortava. Dizia pra  eu não me preocupar, que não seria nada e que logo estaríamos de volta. Chegando lá, encontramos o Dr. Nabil Ghorayeb, cardiologista dele. Como sempre, o Dr. Nabil descontraiu o ambiente e puxou uma conversa comigo, parte em árabe e parte em português. E logo veio uma bronca do Zé, achando que a gente falava em outra língua pra ele não entender. Rimos muito.

Aí, ele tirou a camisa e se deitou em uma maca. Fiz menção de sair da sala, mas o Dr. Nabil disse que eu podia ficar e o Zé concordou com a cabeça. Exames feitos e algumas broncas amáveis do Dr. Nabil depois dizendo que estava tudo bem e mandando ele se cuidar mais, já estávamos sozinhos de novo na sala quando surgiu o “segundo” Zé. Pediu que eu fizesse uma promessa.

– Se um dia eu ficar doente e internado num hospital, prometa que nunca vai me visitar.

Desconversei dizendo que aquilo não ia acontecer, mas ele insistiu e afirmou que não queria ser visto se estivesse debilitado. Fiz a promessa, mas dei o troco, pedindo pra ele prometer que ia se cuidar mais. Ele riu, mas falou um “tá bom” e um “você e o Nabil, juntos, hein!”. E eu devolvi com um “você tá ferrado, não queira saber o que acontece quando um sírio e um libanês se unem”. Ferrado não foi bem a palavra…

No dia seguinte, na Bandeirantes, na troca de horário dos nossos programas, ele me puxou, deu um abraço e colocou a mão no meu rosto. A vinheta de abertura correndo solta e nada de o Zé se sentar diante do microfone. “Obrigado, mas não se esqueça do que me prometeu”, cochichou, enquanto a trilha subia e nada de o programa começar. “Nem você, tá ferrado comigo se não se alimentar direito e se não fizer exercício”, respondi. Ferrado não foi bem a palavra. Ele riu e correu pra dizer “Bom dia, Gente…”.

O outro momento “cochichador” foi anterior à “aliança sírio-libanesa”. O Zé entrou no estúdio no final do meu programa e ficou à espera do dele.  Eu fiz um comentário qualquer do qual os colegas acharam graça. O saudoso Lourival Pacheco teve mais uma de suas crises de “choro de riso” e quase não conseguiu encerrar o jornal. Todos nós ríamos ainda quando a vinheta da abertura do programa do Zé já começava e o saudoso produtor Guilherme Degani berrava do outro lado à procura dele. O Zé me puxou pelo braço e de repente a gargalhada se transformou em cara séria.

– Não deixa esse humor se perder nunca, nem nos piores momentos. Nunca seja azedo.

Balancei a cabeça, espantado com a coincidência, porque já tinha ouvido aquelas mesmas palavras da boca do meu pai, com a diferença de que o seu Mohamed havia colocado duas frutas na conversa, a tâmara e o limão. Disse isso na hora e ele respondeu com um “seu pai tá certo”. Deu um sorriso e correu pra dizer “Bom dia, Gente…”.

Nesses anos todos, foram vários os momentos de “sumiço” do “primeiro” Zé enquanto o Zé cochichador e carinhoso estava em cena. A trilha de abertura subia e o pessoal da técnica e da coordenação, do outro lado do estúdio, nem sempre tinha a visão de onde ele estava porque o Zé puxava o alvo do carinho para um canto que era um ponto cego. “Cadê o Zé?”. “O Zé sumiu!”, ouvíamos pelo intercomunicador. E logo aparecia o “primeiro” Zé pra abrir o programa como se nada tivesse acontecido.

O Zé nunca sumiu. E nunca vai sumir. As boas lembranças vão ficar para sempre na memória, no coração e nas ações. E nada de lágrimas e de ser azedo. Fiz essa promessa duas vezes…

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