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Velhinhos, vacina, vida…

Haisem Abaki

06 de fevereiro de 2021 | 17h49

Deve ter sido de tanto ver, e me emocionar, com velhinhos vacinados celebrando a vida: sonhei com meu pai na noite passada. Ele teria 95 anos hoje. Estávamos num carro e eu o levava pra tomar a vacina. Era ele ali, em corpo, alma, papo sério e piadas. A única diferença era a máscara. Começou dizendo que não concordava com o calendário de vacinação: achava que “quem tem mais vida pra viver” devia ser vacinado primeiro. Mas riu logo em seguida e perguntou se depois da primeira dose já poderia me dar metade de um abraço. E riu de novo me chamando pelo diminutivo do meu nome.

Chegamos ao posto de vacinação e ele foi dizendo um bom dia atrás do outro pra todo mundo. Na vez dele, perguntou rindo para a vacinadora se não podia ceder o lugar pra minha mãe. “Ela tem menos de 90, mas não vou dizer quanto”. E deu outra gargalhada. Depois, se virou pra moça com um “por favor, não deixa doer”, e outra risada. E quando terminou perguntou se a primeira dose já permitia dar metade de um abraço. Todos riram, inclusive eu. Ele tinha mania de repetir piadas e tiradas, mas sempre parecia que estava dizendo pela primeira vez.

No caminho de volta, pediu pra passar no supermercado, “só pra pegar pãozinho”. Tentei dizer pra ir pra casa que eu levaria depois, mas ele nem me deixou terminar a frase, dizendo que já tinha tomado vacina e já podia dar pelo menos a metade de um abraço. Entramos e foi mais uma sequência de bom dia pra todo lado. Comprou meia dúzia de pãezinhos e contou pra moça da padaria que tinha tomado a vacina e logo veio a história da… metade de um abraço.

E já que a gente estava ali mesmo aconteceu o que eu já esperava: quis ir “ver outras coisas”. Acabou comprando pinhão pra cozinhar na panela de pressão e amendoim cru pra torrar no forno com bastante sal. E repetiu tudo sobre vacina e metade de um abraço para a moça do caixa e o garoto empacotador.

Saímos e ele pediu pra ver os netos. Fiz uma pausa sem falar nada e lá veio ele de novo com o argumento da primeira dose e da metade de um abraço. Atendi e foi um momento de lágrimas de alegria do qual participei, mesmo que cumprindo meu papel de “fiscal de distanciamento social”. E para os netos, como se fosse a primeira vez, disse que queria dar a metade de um abraço, mas que ia esperar mais uns dias pra tomar a segunda dose e dar um abraço inteiro, bem apertado e demorado.

Fui levá-lo para casa e ele puxou papo todo feliz com o fim do mandato do Trump. Soltou um palavrão em árabe pra se referir ao sujeito e repetiu o palavrão ao falar do governante daqui. Aí, se virou pra mim e disse que gostou da “resposta educada” que dei a alguém que me ouve e me ofende quase todos os dias. Ele sempre ouviu cada palavra minha, do começo ao fim de cada programa. Da última vez, a “fiel ofensora” teve uma memória brilhante pra falar de um episódio envolvendo um político que detesta e uma conveniente amnésia em relação ao político que idolatra.

Depois, ao descer do carro, meu pai disse que a pandemia revelou o melhor do ser humano: a solidariedade e o conhecimento. E também o pior: o egoísmo, o ódio, o fanatismo, a ignorância e a intolerância. E, olhando fixamente nos meus olhos, soltou um “eu te vacinei contra isso desde criança”. E assim acordei com o despertador do celular às 9 da manhã de sábado.

Contei parte do sonho ao amigo André Russo, disse que tive vontade de escrever a história e constatei uma “falta de tesão” que  me fez parar de escrever por um tempo diante de tanta gente brigando e se ofendendo a cada texto meu sobre a pandemia e seus políticos de adoração e de desprezo. “Escreva a crônica de forma leve”, disse o André.

Pensei nisso, mas deixei pra depois. Resolvi fazer a minha caminhada no parque, devidamente mascarado. E só então pude refletir sobre o sonho. Meu pai não veio tomar vacina. Veio me dar um reforço da minha. Aquela contra o egoísmo, o ódio, o fanatismo, a ignorância e a intolerância. Eu aceitaria com muita felicidade a metade de um abraço…