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Uma voz inesquecível

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h42

Publicado pela 1ª vez em 03/09/2010
Num dia de dezembro de 1998, ainda no meu início na Rádio Bandeirantes, ouvi uma voz que vinha do corredor e logo a identifiquei. Só não conhecia a pessoa e esperei alguns segundos para ver a fisionomia. Apareceu um sujeito alto, careca e com jeito de bonachão.
Fui cara de pau e me apresentei. Logo recebi um abraço e tapinhas no ombro. Depois, ele tirou o “h” e o som de “r” do meu nome e repetiu várias vezes “Aisem Abaki”. Contou também que gostava de me ouvir até poucos dias antes, quando eu ainda trabalhava na CBN.
Achei a situação engraçada, aquele homem demonstrando alegria e dizendo “seja bem-vindo”. Não tive decepções com o dono da voz das notícias do Primeira Hora que ouvia quando era criança. Mais tarde, já adolescente, acompanhava com expectativa a crônica do dia do Lourenço Diaféria, sempre interpretada de maneira inconfundível pelo cara que (eu nem imaginava!) um dia seria meu amigo.
Mais que amigo, foi companheiro de microfone e de alegrias e desilusões palmeirenses, incentivador, conselheiro nas más horas, enfim, um paizão. Posso dizer que tínhamos cumplicidade no melhor sentido da palavra. Por muitas vezes, ele foi a maior “vítima” das minhas brincadeiras.
Quando passamos a apresentar o Primeira Hora juntos, ele fazia cara de espanto com alguns comentários meus, não continha a risada e, fazendo de conta que estava bravo, soltava uma frase que inundava os nossos ouvidos com a letra “r”. Depois do jornal, sempre me dizia que o bom humor na medida certa era o caminho, mas repetia que não conseguia se controlar e soltava um “r” atrás do outro de novo.
E era assim mesmo. Ele ficava de costas, se abaixava e começava a rir depois de alguma observação minha. Sem olhar para nós, levantava o braço, fazendo sinal para que o Walker Blaz e o Júlio César Aredes (depois o Dimas Aguiar entrou no time) continuassem a leitura das notícias enquanto ele se recompunha. No intervalo, soltava o bordão do “r”, enquanto ainda tentava conter as gargalhadas.
Fiquei triste quando, com problemas de saúde, a voz dele me disse que era hora de parar. Do alto da minha “inexperiência” recomendei que desistisse de desistir, mas ele foi teimoso e ao mesmo tempo humilde. Perdi a convivência diária e ganhei de novo um ouvinte que sempre me mandava e-mails espirituosos. Nas visitas que ele fez à rádio nesses últimos anos, sempre me cumprimentava com um abraço apertado e beijos no rosto.
Tudo isso voltou à memória quando, pelo rádio, ouvi Zé Paulo de Andrade dar a notícia da morte do Lourival Pacheco. Estava parado num congestionamento na Dutra e não segurei as lágrimas, deixei rolar mesmo. A lembrança trouxe também, palavra por palavra, a força que ele me deu há pouco mais de dois meses, quando me transferi para São José dos Campos.
O choro passou e, alguns metros adiante, já estava rindo dos bons momentos que compartilhamos. Acho que era o Lourival, soprando lá de cima a frase que repetia quando eu provocava um ataque de risos nele: “Mas porrrrrrrrrra!”.

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