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Uma pandemia de ausências

Haisem Abaki

20 de março de 2021 | 13h09

Um ano de isolamento social trabalhando em casa. Sim, sou um privilegiado no meio de uma tragédia que tira vidas, afasta pessoas e enterra esperanças. O pior é a distância dos filhos, que faz o amor transbordar em cada chamada de vídeo e provoca “suor” nos olhos.

Mas a duração do tempo parece ter mudado e no começo foi difícil organizar as rotinas no novo jeito do passar das horas. Aos poucos, veio a distribuição dos momentos do dia entre o trabalho, o aprendiz tardio de cozinheiro, o fazedor desajeitado de tarefas domésticas. E sempre tentando conciliar tudo isso com um olhar para as pessoas que amo (incluindo as caninas), o cuidado com a saúde mental e a voracidade de caminhar, ouvir música e ler livros novos e antigos.

O problema é que acabou sobrando tempo pra cair na armadilha de algumas falsas polêmicas de rede antissocial, até perceber que não valiam a pena. Mas também reapareceu gente que a vida afastou, amigas e amigos de infância que despertaram lembranças e uma busca pelos velhos álbuns de fotos. Foi quando me vi numa delas, tímido, banguela e orelhudo, ao lado da Irmã Clara, a diretora da minha primeira escola. Uma freira enérgica, com forte sotaque italiano e que às vezes falava com a firmeza do olhar, mas que também sabia ser acolhedora.

A memória trouxe uma cena de 1978, aos meus 14 anos, na 8ª série. Eu estava diante dela, na sala da diretoria, pra conhecer o resultado de um teste vocacional. Eu já sabia que queria ser jornalista e me deu um arrepio quando ela mostrou um gráfico com “Comunicação Social” lá no topo.

Na sequência, um pouquinho abaixo, aparecia uma palavra que eu não conhecia: “Persuasão”. Eu era tímido (sim, tímido!), mas Irmã Clara percebeu que eu não sabia o significado daquilo. “Persuasão é a capacidade de convencer as pessoas”. Devo ter continuado com cara de quem não entendeu nada e ela começou a falar de algumas profissões. “Você pode ser advogado, diplomata, publicitário, político…”.  Político ela falou com o canto da boca. “E jornalista?”, quis saber, vencendo a timidez. “Sim, jornalista também”, ela respondeu. E depois perguntou se eu tinha certeza da escolha. Eu balancei a cabeça e, já me levando até a porta, ela me incentivou dizendo pra eu continuar me dedicando aos estudos na nova escola, já que lá não havia o 2º grau.

Antes de eu sair, Irmã Clara segurou na minha mão. “Você tem bons exemplos em casa. Use a persuasão para o bem. Mas presta atenção: não é sempre que você vai conseguir convencer as pessoas. Mas vá em frente e seja sempre correto nas suas ações e palavras”. Balancei a cabeça de novo e ouvi um “vai com Deus”. Depois disso, nos encontramos algumas vezes. Eu jornalista e, numa dessas ocasiões, ela dizendo que eu não era mais tímido. Irmã Clara morreu em 2018 e só a quarentena e o álbum de fotos me fizeram entender as palavras dela.

Foi quando percebi que já estava seguindo aqueles conselhos de 43 anos atrás. A pandemia parece ter despertado o melhor e o pior das pessoas. No começo, passei a responder a gente fanática que enxerga conspiração em tudo. Decidi parar quando senti que estava falando o óbvio e que isso não adianta nada para quem está do lado da doença e acha graça de “piadas de morte” e bravatas. Não há o que argumentar com plateia que bate palmas em cercadinho de palácio e coloca em primeiro lugar a adoração a um projeto de poder e não a valorização da vida.

Resolvi não ser mais escudo contra quem espalha por aí gotículas de ódio, mentiras, desinformação e “ignorância culta”. Mas isso não é uma vitória da turma do cala a boca que cultiva o ego da lacração e vive num mundinho de indignações e amnésias seletivas, alternadas de acordo com a conveniência do momento. Sigo o meu trabalho no Rádio, como profetizou Irmã Clara, apenas não interagindo no contaminado ambiente dos adeptos da “terceirização da culpa”, que é sempre dos outros.  É só a consciência de que a vida é curta e pode acabar de repente se um não cuidar do outro num momento tão trágico e triste. Quem não é capaz de perceber a obviedade do óbvio falhou como ser humano.

Lições de Irmã Clara, que recebeu em sua escola católica um menino de cinco anos, filho de muçulmanos, que só saiu de lá aos 14, cheio de “capacidade de convencer as pessoas”. Se houver uma escola no céu, ela deve estar na sala da diretoria. Será que um dia eu consigo me matricular lá? Talvez com um pouco de persuasão pra passar da porta. Não, mas não é pra já…