As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Uma leveza quase insustentável

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h47

Publicado pela 1ª vez em 27/06/2008
Como é bom chegar em casa depois de mais um dia de trabalho!
Pus a mão no bolso para pegar a chave. Nada. Estaria no outro bolso? Nada também. Então no paletó. Também não. Tinha esquecido no trabalho.
Tive o pressentimento de que não adiantava tocar a campainha. Desci e vi que o carro da dona da outra chave de casa não estava na garagem. Ah, mas estamos em tempos de comunicação farta. É só pegar o celular e… estava apagado, sem bateria.
Atravessei a rua já com um segundo pressentimento, logo confirmado pelo porteiro:
– A mãe do senhor não está. Ela saiu com a sua esposa.
Como sei que às vezes elas demoram, tive um terceiro pressentimento:
– Faz tempo que elas saíram?
– Olha, mais ou menos… É, já faz um tempinho.
Era a resposta que eu temia porque não quer dizer absolutamente nada. Se ele dissesse que fazia pouco tempo, já seria uma certeza da demora. Se a resposta fosse que “já faz um tempão”, ainda haveria alguma esperança. Mas o “já faz um tempinho” não dá perspectiva nenhuma e pode significar uma faixa de espera de cinco minutos a cinco horas.
Sem chave e sem celular, fui ao bom e velho orelhão. Liguei a cobrar e tive a confirmação. Só fazia “um tempinho” mesmo. E o pior foi o que ouvi logo em seguida:
– Espera só um pouquinho que já, já a gente está aí.
Tradução: ainda vamos demorar. Sempre desconfio de frases que contenham algum diminutivo porque o efeito é quase sempre o contrário.
Ah, pulei uma parte. Antes disso fui repreendido também no diminutivo:
– Esqueceu a chave? Mas que cabecinha, hein!
Depois, mais duas recomendações no diminutivo:
– Espera um pouquinho na padaria. Come um lanchinho.
Adoro entrar naquele paraíso de aromas e sabores, mas já estou numa idade em que é preciso começar a pensar e agir no diminutivo para não ter problemas no aumentativo. Ultimamente, apesar de não estar de regime, de livre e espontânea “obrigatoriedade”, reforcei a salada e cortei quase a zero os doces e os refrigerantes, agora substituídos por frutas, sucos e água. Acho que os resultados têm sido positivos. Vejo isso por alguns amigos que não se cuidam muito, já deixam transparecer “o centro expandido” e acabam recuando um ou dois buraquinhos (é só um diminutivo!) no cinto. Sinto muito por eles.
Segui em passos firmes e pensamento decidido para a padaria. Um suquinho ou talvez um chazinho para acompanhar um sanduichinho de queijo branco.Tive um novo pressentimento ao perceber que os diminutivos tomavam conta de minha mente. Ainda olhei para os lados, mas vi que aquela voz era minha mesmo:
– Por favor, me faz um “hamburguer egg”.
– Pois não, sai um “hamburguer egg” rapidinho.
Diante de mais um diminutivo, meu cérebro entendeu que ia demorar e emitiu uma mensagem que logo transmiti ao atendente:
– Então me dá uma coxinha enquanto isso, por favor.
De repente, eu, que havia esquecido o molho de chaves no trabalho, me via diante de outro molho: o ketchup. Mas nem tudo estava perdido. Pedi um refrigerante sem açúcar.
O tempinho ia passando e os funcionários saíam lá de dentro com frases e guloseimas prontas:
– Olha o bolinho de cenoura com cobertura de chocolate!
– Tá saindo um bolinho de milho bem quentinho!
No balcão, uma freguesa faz o pedido:
– Duas tortinhas de morango, por favor.
No caixa, a funcionária dá o troco a um cliente e deixa o felizardo babando com a compra que havia feito:
– Esse pudinzinho é uma delícia!
Recobrei a consciência ao ver minha mulher e minha mãe passarem de carro. Paguei a conta, que até ficou baratinha, e saí dali rapidinho.
Fui recebido com beijinhos e o carinho de sempre. Nos despedimos da minha mãe e entramos. Na cozinha, dei de cara com um bolinho de cenoura que minha mulher havia feito. Não sei como aquele garfinho e aquele pratinho foram parar na minha mão.
– Ah, tem mais uma coisinha. A sua mãe comprou essas balinhas de coco pra você!
Não tenho do que reclamar. Engorda, mas tenho provas de amor no aumentativo.
Pensei que esta frase encerraria minha historinha, mas minha mulher saiu para buscar as crianças no colégio e voltou com umas comprinhas porque meu filho teria um piquenique no dia seguinte:
– Paaaai, a mamãe comprou esses copinhos e essas colherzinhas. Amanhã eu vou levar brigadeirinho de colher para a escola. Você vai querer um pouquinho?
Tive outro pressentimento. Só um pressentimentozinho…

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: