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Uma história muito cabeluda

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h35

Publicado pela 1ª vez em 16/05/2008
Era mais um dia normal de trabalho. Cheguei cedo como sempre, fiz os últimos ajustes no material do jornal e fomos para o ar. Às 8 da manhã, estava encerrada a primeira etapa da jornada e começava uma outra rotina diária que os ouvintes não acompanham: pautas para os programas, reuniões, decisões. Antes de iniciar a segunda parte fui tomar café com dois amigos. As revelações a seguir são constrangedoras e por isso vou omitir os nomes verdadeiros. Chamarei um de “Tadeu” e o outro de “Cristóvão”.
Cada um pediu uma média e duas fatias de pão de forma integral. As de Tadeu eram com requeijão. As de Cristóvão com pouca manteiga e as minhas com “manteiga normal”.
Enquanto comíamos, Tadeu olhou para mim e percebeu que eu estava com o cabelo comprido:
– Tem até um rabo aí…
Imediatamente, Cristóvão se associou a ele na gozação. É sempre assim. Dependendo do assunto, dois de nós se unem e elegem a “vítima”. Há um certo revezamento nisso, mas nesse dia eu era a bola da vez.
Com as madeixas bem cuidadas, sem mais nem menos, Tadeu fez uma confissão. Revelou uma traição, uma tremenda infidelidade que havia cometido. Tudo por causa de um novo amor.
Cristóvão e eu quisemos saber mais detalhes e ele revelou sem nenhum pudor. Por influência da namorada, havia abandonado um relacionamento de mais de 20 anos. Deixou de procurar a pessoa e quando a encontrava fingia que nada tinha acontecido.
Tadeu tem mania de falar alto e todos que tomavam café naquela hora ouviram aquelas bombásticas declarações. Ele ria desavergonhadamente e ainda dizia que estava gastando mais dinheiro com a troca. Já havia até inventado uma desculpa para usar caso a pessoa resolvesse perguntar a razão do sumiço.
Não reprovamos explicitamente a atitude do nosso amigo porque respeitamos a individualidade de cada um, mas dissemos a Tadeu que seria mais honesto se ele abrisse logo o jogo e contasse toda a verdade. Cristóvão e eu somos fiéis e vivemos felizes por isso. Não nos deixamos seduzir pela tentação de procurar novas experiências.
Decidi não crucificar o Tadeu nem deixar a amizade de lado. Apesar do deslize, ele continuava a ser um bom sujeito, bem-humorado, ótimo profissional. E afinal de contas, quem não comete erros? Subimos e cada um foi cumprir suas tarefas.
À noite, ao me olhar no espelho, vi que Tadeu tinha razão pelo menos numa coisa: meu cabelo estava comprido mesmo. Na tarde do dia seguinte, passei pelo salão do Antenor. De repente, enquanto fazia o corte, ele me lembrou de uma data importante:
– Em julho, o salão completa 20 anos e você está comigo desde o começo.
– Vinte anos… quanta coisa aconteceu nesse tempo todo…
E o papo seguiu animado, com a lembrança dos endereços por onde o estabelecimento passou até chegar ao atual. Não disse isso a ele, mas o Antenor foi uma espécie de “grito de liberdade capilar” para mim. Na época, aos 24 anos, aproveitei a aposentadoria do barbeiro que cortava o cabelo do meu pai (e o meu desde criancinha) para declarar minha independência.
Nos despedimos e ao ir embora não pude deixar de me lembrar do meu amigo Tadeu, que escolheu um novo caminho, bem diferente daquele trilhado por mim e pelo Cristóvão. Eu, fiel há 20 anos. Cristóvão, prestes a comemorar bodas de prata: 25 anos sem trocar de tesoura.
Que Tadeu seja muito feliz com seu novo cabeleireiro, que é famoso e cobra mais caro.
Mas pelo amor de Deus, meu amigo! Aparecer no salão do velho companheiro só para aparar a barba é demais. A desculpa pronta de dizer que está cortando o cabelo no trabalho também não tem um fio de credibilidade. É pura barbeiragem! Corta essa, Tadeu!

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