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Uma história do c…

Haisem Abaki

21 de agosto de 2015 | 10h43

Depois de 24 anos de viagens diárias no “eixo” Mogi-São Paulo, tomei uma decisão de livre e espontânea obrigatoriedade. Virei “paulistano” de segunda a sexta e continuo mogiano desde criancinha no sabadão e no domingão. E agora a conta ficou assim: 75 minutos extras de sono por dia e 14 horas a mais de saudade.

Os tênis velhos de guerra vieram comigo e já estão curtindo a nova pista de corrida. Os joelhos é que estranharam um pouco e deram uns estalos, mas também estão aprendendo a apreciar a mudança de paisagem.

A alma e o pensamento ficam no meio a meio, lá e cá. Coisa que se resolve com um pouco de tecnologia, que me permite ver diariamente meus três filhos, dois que falam e um que late e abana o rabinho.

E sobrou um tempinho maior pra escrever, pensar, tocar uns projetos que estavam pelo caminho e rever amigos pra falar umas besteiras. Um deles chorou de tanto rir durante um almoço, depois de perguntar como eu tinha aguentado viajar esse tempo todo. Quase bodas de prata de idas e vindas. Mas nada tenho a reclamar, já que a escolha dessa vida itinerante foi minha.

O papo me trouxe a lembrança de Celso de Freitas, meu primeiro chefe na CBN. Um sujeito exigente, mas muito companheiro, inteligente e divertido. E, acima de tudo, um “caipira” como eu, só que de Orindiúva. E as gargalhadas em tom crescente do meu amigo no restaurante me indicaram que a história precisava ser contada. Mas sem os palavrões…

Era julho de 1991. Com cinco anos de profissão, eu já havia pedido uma oportunidade na Bandeirantes, na Jovem Pan, na Eldorado e na Excelsior (que ainda não era CBN). E foi desta última que veio a ligação do Celso chamando para uma conversa.

A proposta para o “casadinho novo” aqui, dois meses depois do sim no altar, era trabalhar como redator de madrugada. Horário: das duas às nove. Topei o desafio com uma leve mentira. Na verdade, apenas uma omissão. Eu não tinha como entrar às duas. Dependia de trem ou ônibus e o metrô fechava à meia-noite. E foi nesse horário que passei a chegar, sem o Celso saber. Ficava lá no estúdio da Rádio Globo, acompanhando o jornal “O Seu Redator-Chefe”. E marcava o ponto às duas da madrugada pra “começar” a trabalhar.

Até pensei em falar sobre a impossibilidade de cumprir aquele horário, mas não deu. Antes de me contratar, o Celso me obrigou a fazer uma promessa. Ele disse que estava correndo um risco porque já havia muita gente de Mogi na rádio. A conversa foi mais ou menos assim, com várias repetições de uma palavra que rima com alho, baralho, espantalho. Preciso explicar mais ou todo mundo já entendeu este paspalho?

– Olha, você vai me prometer uma coisa. Pode cair uma chuva de c… naquela cidade. A cidade pode ficar inundada de c… pra todo lado. Tanto c… que você não vai conseguir sair de casa. Vai ter c… nas ruas, c… na linha do trem. Mas nem que você tenha que nadar no meio de tanto c… você vem trabalhar. Entendeu?

E minha resposta deve ter sido tão firme e incisiva que ele se convenceu na hora de que estava apostando na pessoa certa.

– Hã, hã…

E não é que chegou o dia em que caiu mesmo uma tempestade do c… em Mogi, bem no momento em que eu precisava sair pra trabalhar? Pulei a enchente, me molhei todo, cheguei ensopado, mas cumpri minhas obrigações de funcionário. Olha, até que rima com aquilo também…

O resto da história rolou em sete anos de CBN, quase 13 de Bandeirantes e até agora quatro de Rádio Estadão. Nunca fiz um agradecimento público ao Celso. Falha minha, imperdoável. Então, agora vai.

– Celso, você é do c…, cara. Obrigado!

E apesar do cansaço ainda gosto muito do que faço. Pra c…, entendeu?

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