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Uma coisa de cada vez

Haisem Abaki

03 Maio 2013 | 16h40

Acabo de descobrir (mas não vou fazer propaganda da marca) mais um produto “três em um”. Serve para o cabelo, o rosto e aí, aí vai descendo… A inesperada aparição na prateleira do supermercado me fez pensar como consegui viver até agora sem essa maravilha ao alcance das mãos.
Só que antes de testá-la, logo de cara, ainda nos corredores da loja, a expressão me trouxe a lembrança de um aparelho de som que um velho amigo fazia questão de exibir a quem o visitava. Era um toca-discos… Para LPs… Tem alguém que não sabe o que é? É só pesquisar no Sábio Google porque aqui não é o espaço para isso e eu sou muito detalhista.
Também tinha gravador de cassete. Não é arma nem palavrão. Só uma fita. Quando a danada enrolava, a gente arrumava com uma caneta e… Ah, não vou ficar explicando… E a tal parafernália ainda incluía rádio AM e FM. Sem mais comentários.
Com 12 ou 13 anos, eu já sabia explorar aquele bicho que não me pertencia e aproveitava bem as três possibilidades disponíveis. Adorava ouvir os discos do Elton John. Isso sem contar as fitas do Elton John. E tinha também o rádio tocando músicas do… Preciso falar?
Talvez o monstro sonoro da adolescência tenha despertado em mim um interesse por tudo que se apresentava como “três em um”, apesar do meu jeito “um em um” de ser. Até hoje, sempre que vejo essa indicação, procuro saber do que se trata.
Acho que comecei com uma caneta que na verdade era “quatro em um”. Mas uma professora só queria que eu usasse a cor azul. Aos poucos, foi aceitando a preta. A vermelha não, jamais, porque era cor de correção. Uma vez apertei o botão verde pra fazer uma redação sobre futebol e achei que era a melhor escolha pra falar do Palmeiras. Fui incompreendido em tamanha “criatividade”.
Depois a vida foi me mostrando outras incríveis utilidades do “três em um”. Produtos de higiene e limpeza, sabão em pó, portáteis, eletrodomésticos, calçados que podiam ser sapatos, tênis ou as duas coisas… O que mais? Conta de banco… Agora tem até político “três em um”, que não é de direita, não é de esquerda e não é de centro…
Acordei das lembranças enquanto tentava ler o rótulo de letrinhas gigantescas do frasquinho. Demorei tanto que pelo alto-falante uma moça de voz suave sussurou nos meus ouvidos: “Em caso de dúvida procure um dos nossos colaboradores”. Olhei em volta em busca da câmera que me observava. Uma funcionária que passava na hora perguntou se eu precisava de ajuda. Recusei com educação, coloquei o produto no carrinho e fui para o caixa. Peguei o cupom fiscal e saí dali vitorioso, sem passar recibo.
Em casa, com os óculos, entendi perfeitamente as três funções da minha mais recente aquisição. Eu poderia lavar o cabelo, fazer a barba e banhar o “corpitcho”. Tudo de uma vez só, junto e misturado. Fiz a experiência e… Não gostei do cheiro de creme de barbear na cabeça. Também descobri que meu negócio é o sabonete tradicional, com todos os riscos escorregadios que proporciona. E quanto ao momento da raspada, só digo que prefiro estar molhado apenas no rosto, do lado de fora do chuveiro e não totalmente “a descoberto”.
Nessas horas não surge uma bela voz pra oferecer ajuda a alguém tão desprovido de coordenação motora. Estou usando o “três em um” como “um em um” mesmo. Como se fosse o Elton John… Qualquer coisa fora disso é muito “sacrifice” para mim.