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Uma amizade despedaçada

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h53

Publicado pela 1ª vez em 03/02/2011
Hoje vim aqui para assumir uma culpa que está me consumindo. Poderia fingir que não aconteceu nada, me fazer de desentendido e seguir adiante na vida, mas não fico bem comigo mesmo quando tenho essa terrível sensação de consciência pesada.
Seria mais fácil ignorar o ocorrido e não me importar com justificativas para um ato tão deplorável. Afinal, essas coisas acontecem com qualquer um e ninguém está livre de um pecadinho aqui e outro ali. Quem nunca errou que atire a primeira pedra!
Vejo tanta gente fria por aí, incapaz de admitir deslizes e que nem por isso deixa de dormir um sono tranqüilo. Eu não consigo ser assim e preciso dividir tamanho tormento com alguém para aliviar essa carga que já não suporto mais.
Dei um mau passo e estou numa imensa angústia existencial. A vítima foi um amigo que não merecia ser tratado com desrespeito. Pior ainda: pisei nele sem dó e não percebi a maldade que estava fazendo.
É uma amizade recente, de apenas sete meses. Mas parecia antiga, coisa de unha e carne mesmo. Era o meu mais novo amigo de infância e não tive um pingo de receio de destruir tudo com esse meu jeito bruto de ser.
Conheci esse grande companheiro num shopping e logo percebemos uma tremenda identificação. Passamos a fazer caminhadas diárias juntos, sempre com muito prazer e cumplicidade. Eu sabia que podia confiar nele e o coitado achou que eu era digno do mesmo sentimento. Não era. Fui egoísta, eu confesso.
Percorremos muitos quilômetros e ele estava sempre ali, calado, ouvindo até meus pensamentos. Logo, também se acostumou aos meus gostos musicais. Não dizia nada, mas a simples presença dele era suficiente para me incentivar cada vez mais a praticar exercícios. Era amarrado em mim.
Eu, insensível, não valorizei nada disso. No começo, até achei que ele estava me incomodando e pegando muito no meu pé. Depois, vi que era um companheiro inseparável, mas mesmo assim o tratei como se fosse um objeto qualquer. Foi uma pisada muito violenta da minha parte.
Hoje estou arrependido, ao vê-lo todo arrebentado. Peço desculpas ao meu caro amigo. Caro mesmo, porque não foi barato! Lamento ter pensado apenas na minha caminhada solo e nem um pouquinho na preservação da sola.
Reconheço meu erro, mas suplico que não pense que sou tão mau assim, querido tênis do pé esquerdo. Olhe para o colega tamanho 40 aí da direita e veja que ele ainda aguenta o tranco. Talvez apenas mais alguns metros, mas aguenta.
Fiquei inconformado ao saber que não havia mais conserto, mas a caminhada precisa seguir em frente. Vou procurar uma nova companhia e desta vez prometo ser mais cuidadoso com meu novo amigo do peito do pé. Aprendi uma lição e nunca mais serei um chulé sem coração. Deixei de ser aquela pessoa pesada e não quero dar mais “pezada” na vida. Pode acreditar. Agora sou um cara com os pés no chão!

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