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Um sonho na América de morte

Haisem Abaki

22 Junho 2018 | 11h28

Ouvi o choro de crianças separadas à força de seus pais e engaioladas por “autoridades” da maior democracia do mundo. Ao fundo, um funcionário chamava aquele desespero coletivo de “orquestra”.

Tinha decidido não escrever nada aqui, não por omissão, mas em nome da minha saúde mental. Sim, eu reconheço, um motivo bem egoísta, pensando apenas em mim.

Afinal, já havia dado o recado pelo rádio, dizendo que não sabia definir o que era aquilo, se era um “crime”, “terrorismo de Estado” ou, no meu ímpeto do improviso do momento, uma “filha da putagem”. Não me orgulho disso nem me arrependo. Penso que só quem faz rádio ao vivo é capaz de entender e pronto.

Os apoios foram imensos, mas também apareceram as pedras dos “ideologistas”. Os de sempre, das redes antissociais, que só variam de acordo com os assuntos, ora extremistas de esquerda, ora extremistas de direita.

Depois, vi pessoas com a mesma indignação sofrerem ataques verborrágicos de ódio. O ódio de quem só grita e não consegue ouvir. Ou até consegue, mas simplesmente não quer. O ódio de quem acha que o ódio só vem “do outro”, daquele que pensa diferente.

Vivemos esses tempos contraditoriamente sombrios de muito acesso e excesso de informação, o que em parte é muito bom. Muito melhor do que ditaduras do passado e tristemente do presente. Mas, repito, estou me educando para preservar minha sanidade mental para não sair por aí respondendo a tudo. Leio, ouço e sigo a vida, sem deixar que o tempo me escape e eu não veja o sorriso e o olhar das pessoas que amo. Vale muito mais tomar um copão de milk-shake com a minha filha ou combinar uma festa junina com o meu filho.

Fui educado por pai e mãe muçulmanos, que não me aprisionaram em crenças religiosas e políticas, muito menos dos terroristas “islâmicos” que atacam em nome de Deus. Então, pra mim, se o sujeito acha que o Lula está sendo injustiçado, tudo bem. Se acha que é culpado, tudo bem também. Se acha que houve um golpe, legal. Se acha que foi só impeachment, legal também.

Esses assuntos podem ser debatidos normalmente com argumentação e tentativa de convencimento de um lado e de outro. E essa é a minha conduta pra quase tudo, da besta polarização política à futebolística. Cada um pode argumentar o que quiser em defesa de suas “teses”.

Mas com crianças separadas à força de seus pais e chorando em uma “orquestra”, não há o que argumentar. Não podem existir lados diferentes. Insisto: não podem existir lados diferentes quando crianças são separadas à força de seus pais e engaioladas, ainda mais em uma terra estranha. Aceitar como normal o sofrimento delas para o cruel cumprimento de uma lei arbitrária ou em apoio a um político, seja ele quem for, seja de direita, de esquerda, de centro, de cima ou de baixo, é imoral, indigno e indecente. É insanidade mental de quem se limita às fronteiras e aos muros nacionalistas da (falta de) vergonha.

Que cada um, antes de negar o inegável, olhe para o próprio sobrenome por trás do qual, com certeza, haverá a história de alguém que saiu de sua terra natal e foi para outro país em busca de dias melhores.

Uma vez, em uma manhã de chuva, eu ainda criança, meu pai me disse que devíamos agradecer todos os dias pelo sol. Retruquei que não havia sol naquele momento e ele respondeu que sim, o sol estava lá, mesmo que a gente não estivesse vendo. Há coisas que não podemos negar, por mais completa, covarde e hipócrita que seja nossa proposital cegueira.

Já era tempo de termos aprendido com os genocídios de duas guerras mundiais e não termos mais esse mundinho particular de uma minoria hostil apreciadora das trevas do fanatismo e da intolerância. Que as crianças da “orquestra” do choro ainda possam renascer todos os dias, como o sol que lhes foi negado. Porque ele sempre estará lá, até para os que fingem não enxergá-lo e ignoram que a luz brilha para todos.

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