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Um segredo público

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 15h00

Publicado pela 1ª vez em 02/10/2011
Uma senhora aparentando 50 anos (espero não ter sido rigoroso demais) tira o celular da bolsa e passa a conversar com uma “Mariana”. Não sou enxerido, mas descobri sem esforço quando ela disse, logo de cara, um “Oi Mariana”. Percebi também que era uma mulher muito conservadora porque o aparelho tocou como se fosse um telefone mesmo (triiiiim!!!), sem aquelas modernidades multimidiáticas disponíveis para download, muito usadas por quem está down e precisa de um up. Na hora, pensei na minha filha. Se ouvisse o toque de celular da pobre mulher, seria a única chance de meu Happy Go Lucky ser elevado ao conceito de “descolado” e ninguém ficaria torcendo pra eu atender logo e acabar com a tortura.
Mas logo a conversa da desafortunada senhora me tirou daqueles pensamentos domésticos. Daqui pra frente, vou parar de chamá-la de “senhora” e “mulher”, que são os parcos recursos que tenho para falar de alguém cujo nome ignoro. Vou me referir a ela apenas como “vovó”, diante do teor do diálogo que fui “obrigado” a ouvir.
– Ah, Mariana… Eu te liguei, sim. Ah, menina, eu tô sem chão…
E depois de Mariana ter perguntado o que havia acontecido (brilhante conclusão do esperto aqui), veio a história inteira.
– É a Fabiana… Você não sabe, menina… Ela não foi com o pai pra Recife? Pois, é… Conheceu um rapaz lá e embarrigou. Vai me dar um neto… Eu queria muito um neto, mas não desse jeito.
Aumentei o volume do fone de ouvido do meu rádio, que às vezes também faz e recebe ligações. Achei melhor não ouvir mais aquilo, mas a futura vovó parecia falar cada vez mais alto.
– E o pior é que o rapaz veio pra cá atrás dela e ela disse que não quer nada com ele. Vai ter o meu neto, mas não quer saber de casamento… Diz que é muito nova…
No meu rádio falava o Muricy Ramalho, o que em termos de humor não mudava muito a minha escuta, já que ele também reclamava da vida, feito a hiena de Lippy & Hardy (Oh, dia… Oh, azar…). E a vovó prosseguia nas lamentações.
– Vai sobrar pra mim… Eu é que vou ter que cuidar…
Dei uma passeada radiofônica e nada. Notícias, MPB e baladas não superavam as lamúrias da vovozinha. Nem ouvir Guns N’Roses com “Welcome to the Jungle” adiantou. O desgosto expresso na fala estridente da futura avó coruja era muito mais pauleira.
Então, comecei a prestar atenção mesmo e até olhei para ela. Aos poucos a conversa foi ficando mais amena e entrou pelo enxoval e pelo nome da criança. Pedro, Vinícius, Adriana, Marina… Já estava tão familiarizado que quase dei palpite!
Pensei que estava sendo intrometido demais ao ouvir descaradamente aquela conversa, mas deixei a consciência pesada de lado quando uma voz soltou um “Estação República” pelo alto-falante. Era um segredo para poucos. Só eu e a torcida do Metrô Palmeiras/Barra Funda-Corinthians/Itaquera estávamos sabendo. A partir de agora, vou falar mais baixo quando o Happy Go Lucky tocar!

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