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Um sarro, por favor!

Haisem Abaki

28 Novembro 2014 | 13h11

Aos 11 anos, o experiente comentarista de futebol lá de casa vive um momento de curiosidade e ao mesmo tempo de fixação por uma palavra: “clássico”. Não sei bem como isso começou, mas acho que foi num dia em que passamos pela Marginal do Tietê, em frente ao Canindé. Comentei que era um estádio muito simpático e ele quis saber se eu já tinha ido lá. Contei a história do clássico Portuguesa 1 x 2 Palmeiras, em 1º de maio de 1996. Vi a cara de espanto do moleque pelo retrovisor e imaginei que era por causa da lembrança da data. Já ia até me preparando pra explicar que ficou na memória por ser um feriado, por ter sido de virada e pela máquina verde, que fez 102 gols no campeonato daquele ano.

Mas a surpresa era outra e veio na forma de mais uma pergunta. “Palmeiras e Portuguesa é clássico?”. Eu disse que sim e ainda falei do Enéas e do Dener, apenas alguns dos muitos craques da Lusa. E o garoto continuou, sem parar entre um sim e outro. “E Corinthians e Portuguesa, é clássico? E com o São Paulo? Então com o Santos também é?”. Para mim foi, é e sempre será.

O rádio falava dos preparativos para um Palmeiras e Figueirense e o rapazinho questionou se era outro clássico. Respondi que não e ele ficou confuso. Pra desfazer o nó emendei que Figueirense e Avaí é um clássico. E veio um bombardeio que me deixou até tonto… Nem consigo me lembrar da sequência do interrogatório, mas passamos por Fla x Flu, Grêmio x Inter, Cruzeiro x Atlético… Ele demonstrou ter entendido tudo com um “ah, então é time grande com time grande”.

Eu podia ter parado nisso e pronto. Só que levei o assunto adiante dizendo que nem sempre é assim. E entrei por outras rivalidades, como Guarani x Ponte Preta, Botafogo x Comercial de Ribeirão Preto, Juventude x Caxias… Confundi tanto a cabeça do analista (zinho) futebolístico que nas semanas seguintes ele passou a pegar a tabela do Brasileirão rodada a rodada, jogo a jogo, para fazer um por um a já clássica pergunta. Em alguns momentos já nem vinha mais com o “é clássico?”, apenas apontava o dedo para os nomes dos times e levantava o queixo em forma de indagação.

A lembrança me veio no começo da semana, depois de mais uma derrota do Palmeiras, de dois a zero para o Coritiba. Time à beira do rebaixamento de novo, eu chego pra trabalhar na segundona (refiro-me ao dia da semana) e ninguém se manifesta. Terça, quarta e nenhuma gracinha também. Até que um colega aparece e fala do Palmeiras. Pensei que finalmente haveria alguma brincadeira “mais séria”, mas foi um só um “tá fazendo as contas pra escapar do rebaixamento?” porque eu estava teclando no celular. Só isso?

Bom, aí o Paul McCartney se apresenta no novo estádio do “Paulmeiras”… E alguém vem dizer que a arena é linda e que é triste o time estar na atual situação. Mas nenhuma risadinha e zero de piadas, assim como o nosso “ataque” nos últimos quatro jogos. Comecei a perceber que o momento é grave mesmo, gravíssimo. Como assim, ninguém tem um sarro pra tirar da gente? Nada? Nem aquelas brincadeiras velhas e repetidas ou algum trocadilho infame? Caramba, o politicamente correto invadiu o futebol também?

Culpa dos dirigentes nesses últimos anos! A ruindade ficou tão normal que ninguém brinca mais. Parece que só sobrou a pena. Se eu pudesse votar na eleição para presidente do clube só teria o meu apoio quem apresentasse um plano concreto para que voltemos a sofrer gozações. De vez em quando, é claro, porque isso seria um sinal do resgate da grandeza com algumas poucas derrapadas como em qualquer time desse nível. Se não impedirem que o porco vá para o brejo, acho que um garoto que nascer hoje vai perguntar em 2025 se Corinthians e Palmeiras é clássico…

Aos amigos torcedores de outros times, peço que mantenham a rivalidade saudável (não a idiota dos fanáticos) e que ao menos levem em conta o nosso passado de glórias. Por favor, retomem as gozações. Podem ser aquelas batidas de sempre, mais surradas do que a nossa zaga e mais “criativas” do que o nosso meio-campo. Sarro é respeito e eu gosto! Mas vai ter volta. Com certeza. Pode crer. Talvez tenha. Quem sabe? Sei lá…