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Um coração que vale por cem milhões

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h34

Publicado pela 1ª vez em 03/07/2010
Estava planejando escrever sobre o espetáculo dos técnicos na Copa da África do Sul, mas ainda não sabia o que exatamente. Pensei apenas em alguns personagens que têm aparecido mais do que os que correm atrás da bola: o simpático e sorridente Dunga, o alegre e educado Raymond Domenech e o discretíssimo e contido Maradona.
Foi quando uma troca de e-mails com a amiga Adriana Cury desviou a minha atenção do divertido trio. Filha do saudoso Muíbo Cury, ela dizia não ver graça na primeira Copa sem ele. Foi aí que me lembrei que também era a primeira Copa sem o meu pai. Só não tinha percebido isso por causa da euforia do meu filho, aos 7 anos. Muíbo e meu pai tinham um ponto em comum, além de serem “turcos”: os dois sempre viam o lado bom das coisas, até nos piores momentos.
De repente, me veio inteira a música-tema do Brasil na Copa de 74, a minha primeira pra valer, depois das vagas lembranças de 70. Aos 10 anos, cantava na escola o sucesso “Cem Milhões de Corações”, gravado pelo grupo “Os Incríveis”.
Todos juntos de bandeira na mão,
Saudamos os canarinhos da nossa seleção.
É uma nação inteira,
Mostrando a todo mundo a glória brasileira.
Cem milhões de corações,
Vibrando de uma só vez.
É mais uma emoção,
Brasil na Alemanha tetracampeão.
Só mais tarde soube que o Muíbo era um dos autores. Pena que o time não correspondeu. Foi um empate sofrível com a Iugoslávia (que não existe mais), outro com a Escócia e um 3 a 0 contra o Zaire (que também não existe mais) pra garantir a classificação. Depois, um certo ânimo ao ganhar da Alemanha Oriental (outra que não existe mais) e da Argentina (essa ainda existe) até chegar ao fim do sonho na derrota por 2 a 0 para a Holanda. Foi a minha primeira frustração futebolística. Tinha virado palmeirense dois anos antes e estava acostumado a ser campeão.
Foi aí que na escola, sem querer e sem saber, sacaneei o Muíbo. Entrei no coral que cantava mais ou menos assim:
Todos juntos de porrete na mão,
Recebemos os canarinhos da nossa seleção.
É uma nação inteira,
Mostrando a todo mundo a … (não me lembro) brasileira.
Cem milhões de corações,
Sangrando (alguns falavam uma coisa mais escatológica) de uma só vez.
É mais uma “decepição” (cantávamos com “i” mesmo),
Brasil na Alemanha que papelão.
Um dia contei essa história ao Muíbo e ele achou graça. Deu uma risada longa e disse que era coisa de criança. E eu me sentindo culpado…
Ele não está mais entre nós e, assim mesmo, não me deixou falar mal do trio parada dura de técnicos. Se estivesse, diria algo assim:
– O Dunga tem cara fechada, mas é um bom moço. Olha, eu torço pro Dunga, torço mesmo, de coração.
O Muíbo também daria um bom desconto para o Domenech e o Maradona. Trabalhar e conviver com ele na Rádio Bandeirantes foi “mais uma emoção” e me fez esquecer a “decepição”. Então, nada de porrete e só bandeira na mão.

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