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Tudo de bom, mas nem tanto

Haisem Abaki

05 de abril de 2013 | 22h48

Rádio ligadão na cozinha e de lá ouço boas risadas ecoando pela casa. Gosto de vê-la bem-humorada logo cedo e pergunto o motivo. Era uma notícia sobre um site em que uma alma complacente, bondosa e altruísta pode passar adiante alguém que não quer mais.
Isso mesmo, agora já dá pra recomendar um (ou uma) ex a quem quiser “adotar” o abandonado. A proposta parece ser bem-intencionada, mas não deixa de ter um pé (além do traseiro) na ironia.
Ouvi as explicações dos idealizadores de tão boa ação e logo pensei na campanha do agasalho, com aqueles apelos para que a generosidade seja feita com a doação de roupa boa.
Fui ver os anúncios no site de quem quer se desfazer da peça (não do vestuário) e percebi que as mensagens deixadas eram muito positivas mesmo, capazes de levantar o moral daquele que até outro dia foi a outra metade da laranja, esquentador de pé, mais agarrado do que calça justa, mas virou abóbora à meia-noite.
Os adjetivos são cheios de elogios pra turbinar a autoestima do “ninguém me ama, ninguém me quer”. É todo mundo lindo, simpático, divertido, engraçado, carinhoso.
Há também os brincalhões, educados, parceiros, fofos, carismáticos. Isso sem contar os amigos, inteligentes, chiques, cheirosos. E as gostosas… Está escrito lá, desse jeito, no feminino…
Aparecem ainda conceitos mais amplos, como boa companhia, melhor abraço, topa qualquer roubada, total flex, melhor que Bombril e um tal de romântico sem causar ânsia de vômito…
E entre os recomendados também está um cuja maior qualidade é ter mãe e avó fofíssimas, além de outro com (argh) barba macia.
Fiquei curioso. Qual seria a razão de pessoas tão indispensáveis terem deixado a retaguarda exposta, como alvo fácil para a sanha chutadora? Mas logo fui dominado por uma necessidade muito maior, palpitante e atormentadora.
Quis saber da dona da gargalhada da cozinha como ela me recomendaria se… “É gente boa e divertido, mas chato de vez em quando”. Apesar de mais uma série de risadas, sempre tem um “mas”, essa conjunção adversativa danada, muito amiga do bando formado por “porém”, “contudo”, “todavia”, “no entanto”, “entretanto”…
Um pouco depois, meu filho vem com uma reflexão que só crianças com quase uma década de vivência são capazes de fazer. Com quem nossa cachorra seria mais parecida? “É com você, pai”.
Sei que preciso parar de perguntar certas coisas… “É brincalhona, tranquila…”. Já estava contente quando percebi as reticências e senti o cheiro (tenho bom faro) de mais uma conjunção adversativa. “Mas às vezes fica estressada”.
Aí, um amigo que estava meio distante liga pra saber da vida, dispara belos adjetivos a meu respeito (que não vou citar aqui) e completa: “Mas precisa saber fazer mais marketing pessoal”. Parecia uma conspiração de conjunções adversativas.
Mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto, não me abalei e resolvi criar meu próprio epitáfio. É como quero passar para a posteridade ou logo ali adiante: “Chocolate meio amargo”. Sim, meio amargo. Mas chocolate… Podem vir todas as outras adversativas juntas que eu encaro!